“LIMITE”: GLAUBER ROCHA ASSISTIU AO FILME DE
MÁRIO PEIXOTO EM 1958?

POR HUMBERTO PEREIRA DA SILVA

****Maria do Rosário Caetano escreve: Antes do texto abaixo, com informações valiosas do crítico e professor Humberto Pereira da Silva, autor de GLAUBER ROCHA -CINEMA, ESTÉTICA E REVOLUÇÃO, faço aqui esclarecimento necessário. Esclarecimento que, aliás deveria ter feito na postagem anterior, em nome da clareza: o e-mail de Ismail Xavier me foi enviado BEM ANTES da publicação, na Revista de Cinema, de matéria sobre LIMITE e a informação de Hernani Heffner de que Glauber teria assistido ao filme em 1958, portanto cinco anos antes de publicar “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”.
Ismail, com a sensatez e seriedade que lhe são característicos, trabalhou — na resposta a um e-mail — com as dúvidas que devem acompanhar um estudioso. Ele estava apenas respondendo a pergunta de uma jornalista.
Na matéria para a “Revista de Cinema” abri espaço para os argumentos que embasaram Hernani Heffner, pesquisador dos mais sérios, a afirmar em masterclass de Denilson Lopes sobre “Limite”, que Glauber vira o filme de Mário Peixoto em 1958. Além da foto no Restaurante Albatroz (com Glauber, Peixoto e outros), ele evoca três testemunhos: o de Saulo Pereira de Mello, o de Paulo Cezar Saraceni e o de Mário Carneiro….
Minha primeira preocupação foi investigar se Glauber teria estado no Rio. Pensei em evocar dois testemunhos: o de Helena Ignez, que —suponho — já conhecia (ou namorava) Glauber, seu futuro marido, pai de sua filha, Paloma Rocha, e o fotógrafo e produtor Luiz Carlos Barreto, a quem minha memória dava (erroneamente) “a condição de introdutor de Glauber nas rodas cinematográficas cariocas”. Por causa do sucesso de reportagem e FOTOS de suas autorias (atenção para o plural) sobre as filmagens de “Barravento”, comecinho dos anos 1960. A edição da revista que trouxe a reportagem (O Cruzeiro) fora encapada por foto de Luiza Maranhão e Helena Ignez. Feita por Barreto.
Por acreditar que tal consulta demandaria novas e complexas consultas, preferi ater-me aos argumentos de Heffner e colocar alguns contrapontos retirados de “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”.
Resumindo: na minha avaliação, a cronologia de viagens de Glauber ao Rio apresentada por Humberto Pereira da Silva só amplia as dúvidas: ao invés de 1958, Glauber teria visto “Limite” em 1959, levado por Paulo Cezar Saraceni???
Por que, se viu o filme, esconderia tal informação no livro??? Com que motivações???Não teria sido desmentido pelos jovens colegas e pelo próprio Saulo? Por que formou-se tal pacto de silêncio em torno de um livro editado pela influente Civilização Brasileira????
Como Ismail, prefiro a dúvida e a busca de novas respostas para questões que se colocam nesse momento. Leiam, pois, a importante contribuição de HUMBERTO a essa troca de ideias:

POR HUMBERTO PEREIRA DA SILVA

Querida Rosário,

Vivemos um tempo verdadeiramente estranho. Às vezes, tenho a forte impressão de que o vivi foi sonho e hoje desperto para realidade. Às vezes tenho a sensação de que a realidade que vivi hoje é um terrível pesadelo. Sempre achei bizarro alguém acreditar que o homem não foi à lua. Ficava intrigado ao não ver que quem tinha essa crença não tinha poder para criar a realidade. Se o homem foi ou não depende da crença, pois é um fato, ou não, como agora tenha diante de mim minha estante. Mas se isso era pouco, e obvio que a ida à lua pode ter sido forjada, hoje me deparo com quem afirma que a terra é plana.
Mas, por que esse introito extemporâneo?
Porque, se sério, fico a imaginar que elucubrações o professor Hernani Heffner fez até decidir fazer a declaração de que Glauber viu Limite cinco anos antes de publicar Revisão crítica. Num primeiro momento, e escrevo com o cuidado de não o ofender, pois suponho, sem conhecê-lo, seja sério, por que se expor ao ridículo com uma afirmação que, agora de improviso, eu poderia elencar umas dez perguntas que ele teria necessariamente teria que dar conta. No mundo maluco em que vivemos, a afirmação dele carrega algo dos que defendem que a terra é plana.

Li seu texto com todo cuidado. Reli-o, assim como o que lhe escreveram o Ruy Castro, Ely Azeredo, Ismail e Sylvie Pierre. Ismail, por sinal, no estilo cuidadoso e cioso do posto de professor, disse que não diz sobre o que ignora. Conheço bem o Ismail e ele faz uso de um belo exercício retórico para não ser categórico. Imagina amanhã descobrirmos que a ida do homem à lua foi uma fraude. Alguém da NASA inadvertidamente mostra uma fotografia…

Olha, eu me restrinjo exclusivamente ao que você escreveu. Não ignoro que o professor Heffner possa ter dados que você não incluiu. Por isso, suponho que ele tenha mais que uma fotografia no restaurante Albatroz tirada no dia da sessão de Limite na Faculdade Nacional de Filosofia em 1958. Se é isso, me impressiona a coragem dele para se expor ao ridículo. Veja, para afirmar isso, levo em conta o que você escreveu para a Revista de Cinema.

Conheço razoavelmente bem a vida de Glauber. Escrevi, você sabe, Glauber Rocha – cinema, estética e revolução. Tenho inúmeras deficiências de formação e por vezes sinto que escondo minha ignorância como o elefante se esconderia no meio de uma praça. Mas tenho, em relação ao mundo do conhecimento, algumas obsessões, e uma delas é por datas. Consigo memorizar datas como alguns os números da lista telefônica. O caso é, eu rastreei a vida de Glauber de modo a corrigir a mãe dele em dada situação.

A primeira viagem dele ao Rio foi em 1957. Para um encontro de cineclubismo. Ele então com 18 anos era um menino e não tinha nenhum contato no Rio. Antes de chegar ao Rio, ele havia passado em BH e, sim, para conhecer o pessoal da Revista de Cinema. Mas uma viagem como eu poderia fazer aos 18 anos para conhecer os professores de filosofia na USP…

A segunda viagem que ele fez ao Rio foi em 1959. Aí sim, na casa de Lygia Pape, ele apresentou uma primeira versão de Pátio, e conheceu Saraceni, que apresentou Caminhos, seu primeiro curta. Ele então era conhecido e tinha contatos porque escrevia no semanário Sete Dias. Mas veja, ele então procurou o Nelson Pereira dos Santos, que filmava Rio Zona Norte e o tratou como menino…

Se ele fez uma viagem para o Rio em 1958 essa viagem foi secreta. Não há registro dela além da agora fotografia a que Heffner se refere. Por isso, gostaria de saber que dados ele tem dessa viagem que não tem registro numa vida em que até a saída dele de Cuba em dezembro de 1972 está tudo registrado. De dezembro de 1972 até agosto de 1976, quando volta do exílio, sim, é um período de viagens muito confuso.

Bem, mas além dessa pergunta, se Glauber esteve no Rio em 1958 e viu Limite, então:

1. Como ele ficou sabendo da exibição de Limite?

2. Como ele seria convidado sendo um menino que ninguém sabia quem era?

3. Que razão levaria o tímido Mario Peixoto, numa época que não tinha self, a tirar fotografia com um menino desconhecido? (a primeira vez que eu vi O som ao redor, numa sessão na USP, o Kleber Mendonça estava e conversou com os estudantes. Eu, professor universitário e com anos na crítica de cinema, e num mundo de self, não imagino chamá-lo para uma foto… )

4. Como admitir a coincidência de que estar no Rio na data de exibição de Limite? (Em 1958 ele cursava o 1º ano do curso de Direito em Salvador; ele teria de largar as aulas para ir ao Rio ver um filme; e, convenhamos, em 1958 não se viajava com a facilidade de hoje)

5. Se ele assistiu a Limite, por que testemunhos de quem agora está morto não o desmentiram e se basear agora numa foto de data imprecisa?

6. Por que, e isso não está em seu texto, Glauber mudou sua posição sobre Limite depois de ver em 1978 a sessão a convite da Folha?

Paro por aqui. Com sentimento de que vivemos tempos muito loucos. Mas, claro, o professor Heffner pode por terra tudo que escrevi.

Abração

Humberto Silva

  • **LIMITE:
  • Glauber Rocha assistiu ao filme de Mário Peixoto, em 1958, portanto, cinco anos antes de publicar “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” (Civilização Brasileira, 1963)??????

Para tentar jogar luz sobre o assunto, escrevi, para a Revista de Cinema, a matéria abaixo.

Depois dela, estão registrados depoimentos de Ruy Castro, jornalista e articulista da Folha de São Paulo, além de autor de diversos livros (“Chega de Saudade”, “Garrincha”, “Carmen Miranda”) e do crítico Ely Azeredo (“Olhar Crítico – 50 Anos de Cinema Brasileiro”. E, também, um e-mail apaixonado, direto de Paris, de Sylvie Pierre, autora de livro sobre Glauber Rocha, publicado em francês, pela Editora Cahiers du Cinéma (e traduzido no Brasil). Por fim, uma serena reflexão de Ismail Xavier, estudioso da obra de Glauber Rocha e autor do prefácio da reedição, pela Cosac & Naify, de “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”.

Confira, pois, o material, caso o assunto lhe interesse:

**GLAUBER ROCHA VIU

LIMITE” EM 1958?

Se o baiano viu o filme de Mário Peixoto, por que omitiu tal informação em seu livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”?

  • Maria do Rosário Caetano – Na Revista de Cinema (Maio de 2021)
  • “Glauber Rocha assistiu, em 1958, a uma sessão de ‘Limite’, de Mário Peixoto, e mentiu em seu livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”.
  • Essa afirmação, feita por Hernani Heffner, professor da Universidade Federal Fluminense e gerente da Cinemateca do MAM, feita durante masterclass de Denilson Lopes (no lançamento do livro “Mário Peixoto Antes e Depois de Limite”), caiu como uma bomba nos meios cinéfilos. Tanto entre os que têm Mário Peixoto (1908-1992), quanto Glauber Rocha (1939-1981) como razão de culto ou estudo.
  • E por quê?
  • Porque, se confirmada, tal informação altera o rumo das pesquisas sobre dois dos nomes mais estelares do cinema brasileiro. Afinal, em 1963, Glauber Rocha publicou, pela Editora Civilização Brasileira, o livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”, uma espécie de bíblia cinemanovista, com a qual ele, “um profeta”, na definição de Paulo Emílio Salles Gomes, dava a Humberto Mauro (1897-1983) o posto de fonte fertilizadora do cinema brasileiro.
  • O que dizia, em seu livro-bíblia, Glauber Rocha sobre o contemporâneo do mineiro Mauro, o fluminense Mário Peixoto e seu único filme, “Limite” (1931)? Ou “Limito”