FESTIVAIS E MOSTRAS DE CINEMA (BRASIL): INEDITISMO, CALENDÁRIO, REGULAMENTOS, FORUM DE FESTIVAIS

FESTIVAIS EM DEBATE

Sobre ineditismo, choque de datas, catálogos, núcleos históricos e regulamentos de mostras audiovisuais

Maria do Rosário Caetano

01-janeiro-2022 – Neste ano de 2022, quando o Brasil vai ferver com Eleições Presidenciais (primeiro turno em outubro), o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país, promete realizar sua edição de número 55 em sua data histórica (setembro), e de forma presencial.
O Festival de Gramado, o mais badalado e midiático entre os quase 200 eventos (competitivos e informativos) espalhados por todo território brasileiro, completará 50 anos, em agosto, com muitos festejos e edição presencial, depois de duas edições on-line.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a maior e mais antiga das competições compostas majoritariamente com filmes estrangeiros, fará sua edição de número 46 na segunda quinzena de outubro (data que nunca sofreu alteração).
O Festival do Rio, também de alcance internacional, deve recuperar seu prestígio de outrora, quando tornou-se a maior vitrine de estreia de filmes brasileiros (com dez longas ficcionais e dez documentais, 100% inéditos). Nos últimos anos, a crise econômica do estado fluminense (agravada pela ascensão de Marcelo Crivela à Prefeitura, e por Jair Bolsonaro ao governo federal), deixou o Festival à deriva, sem data certa e sem recursos. Necessitou de uma “vaquinha” para não sofrer solução de continuidade. E foi parar às vésperas do Natal. Mesmo assim, seu prestígio mostrou vigor. Não conseguiu, em 2021, vinte longas 100% inéditos. Mas seis ou sete títulos lhe deram fôlego. Ou seja: houve realizadores que fizeram questão de guardar seus filmes para só apresentá-los na vitrine carioca.
Fora esses quatro festivais – um brasiliense, um gaúcho, um paulista e um fluminense – há outros eventos de grande prestígio no país, principalmente por exibirem filmes inéditos. Afinal, esta é a razão de ser de um festival ou mostra. Servir de primeira vitrine a filmes para que, dali em diante, iniciem sua trajetória rumo ao circuito exibidor (seja em salas de cinema, TV ou streaming). E também por contarem com curadorias bem definidas, catálogos consistentes, ocuparem-se de núcleos históricos (o cinema do passado em diálogo com o cinema do presente), promoverem debates, seminários e oficinas.
Nem todos esses ítens são religiosamente cumpridos, pois as fontes de financiamento dos festivais costumam ser instáveis no Brasil. Mas os eventos que aqui são citados (ver tabela abaixo) cumprem – além da aposta prioritária em filmes inéditos – muitos desses requisitos. Caso do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, o Curta Kinoforum (que esse ano fará sua edição 33), do CineCeará – Festival de Cinema Ibero-Americano de Fortaleza (edição número 32), do Festival É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários (edição 27, em abril), da Mostra de Cinema de Tiradentes (edição 25 , na última semana de janeiro de 2022), e do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba (edição 11, se tudo der certo, em junho ou julho).
Com a pandemia do coronavírus e a crise econômica, os Festivais e Mostras de Cinema brasileiros entraram em transe. A situação começou a agravar-se no Governo Temer. Dos grandes festivais, o primeiro a sucumbir foi o Anima Mundi, a maior vitrine de cinema de animação da América Latina.
Muitos dos que sobreviveram passaram por dificuldades orçamentárias e descuidaram de regulamentos, da confecção de catálogos, da busca de filmes inéditos, de seus núcleos históricos (nesse tópico, o jovem Olhar de Cinema brilhou com retrospectivas de ponta, aproximando-se da ousadia de edições da Mostra SP na era Cakoff e do Festival do Rio).
Os regulamentos dos Festivais andam tão negligenciados, que filmes que ganham o prêmio máximo (principalmente de curta-metragem) num evento que acabou de acontecer, repete a premiação dias depois em outro festival de grande porte. O Festival de Brasília desclassificou, anos atrás, do curta “Novembrada”, de Eduardo Paredes, pois ele conquistara o Troféu Glauber Rocha, láurea máxima da Jornada de Cinema da Bahia. Substituiu-o por filme que ficara na “reserva técnica” e exibiu o curta catarinense em caráter hors concours, durante o Festival, na presença de seu realizador.
Em sua edição de número 53 (em 2020), o comando do Festival de Brasília cometeu ato inusitado, jamais visto em uma mostra cinematográfica. Divulgou, no Diário Oficial, as produções “desclassificadas”. Ou seja, tratou filmes como cimento ou vergalhão. Não se pensou no interesse dos realizadores e produtores. Esse ano, essa falha foi corrigida. E o Festival candango prosseguiu em sua política de abandono de prêmios inflacionados, direcionando recursos (a título de aluguel) a todos os filmes selecionados. O que é bem mais democrático e producente. O maior erro, em 2021 (edição 54), foi aceitar uma sessão “nobre” às 23h30, no Canal Brasil. O mais tradicional festival do país não merecia tal desfeita. Que se abrisse mão de tal vitrine e se concentrasse apenas na plataforma Innsaei TV. Felizmente o Festival resgatou sua natureza de primeira vitrine e exibiu (pelo menos na categoria longa-metragem), seis filmes 100% inéditos.

GUIA DOS FESTIVAIS – Dezesseis anos atrás, Zita Carvalhosa, diretora do Curta Kinoforum, editora de importante “Guia dos Festivais” (cuja publicação foi interrompida) e figura de proa na história do Fórum dos Festivais, disse, em entrevista à Revista de Cinema, que havia, sim, na profusão de festivais que se multiplicavam (naquele momento) pelo país, alguns que tinham como primeiro objetivo o fomento turístico de suas cidades-sede. “Nada contra” – ponderou — “pois este é seu propósito claro”. Só que – propunha — “esperamos que os organizadores reservem recursos para pagamento de aluguel ao produtor que cede filmes”. Afinal, “o produtor não estará disputando prêmios e o evento não prioriza a formação de platéia, nem a difusão do cinema brasileiro, por exemplo”.
“Nas primeiras reuniões do Fórum dos Festivais” – lembrou Zita – “nosso lema era quanto mais festivais, melhor”. Quando a multiplicação se fez sentir, “o espírito tornou-se outro: Festival com qualidade”. Ou seja, que a projeção dos filmes seja de primeira linha, que os propósitos do evento sejam claros e bem-executados, que os catálogos sejam bem feitos, com dados apurados com rigor”. No caso dos catálogos, Zita constatava – naquela época — que havia muito a se fazer.
– “Quem comparar os catálogos dos festivais verá grande discrepância de informações para um mesmo filme. Num ele tem uma duração. Noutro, duração diferente. Claro que, às vezes, de um festival para outro, o diretor resolve enxugar seu filme. Mas na maioria das vezes, os erros são de responsabilidade de quem prepara os catálogos”.
A editora do (infelizmente extinto) “Guia Festivais” lembrava à Revista de Cinema que tamanho não é documento:
– “Há festivais pequenos e muito bem feitos, com público fiel, catálogos bem elaborados, debates e seminários caprichados. Outros, bem maiores, geralmente voltados para a prioridade turística, só se mantêm enquanto conseguem atrair atores de TV para suas festas. Quando os atores desaparecem e mudam as administrações, estes eventos se desestruturam”.
**** Abaixo, além de lista com nove festivais – escolha de responsabilidade dessa jornalista –que se notabilizam por exibir filmes inéditos, manter bons catálogos, debates, seminários, núcleos históricos, etc, levantamos alguns temas que merecem reflexão nesse momento de Calendário tumultuado (sinônimo de bagunça). E também, publicamos o Código de Ética do Fórum Nacional de Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiros

. FESTIVAIS CLASSE A:

*****Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Distrito Federal) – 54 edições realizadas. Aceita filmes brasileiros preferencialmente inéditos. Promove mostras brasileiras e brasilienses. Foi criado em 1965, por Paulo Emílio Salles Gomes e equipe. Depois de sofrer dura censura no Governo Médici, parou por três anos (1972, 73 e 74). Já contou com significativas atividades em seu Núcleo Histórico (clássicos da era muda com acompanhamento ao vivo da Orquestra Sinfônica Cláudio Santoro, filmes de Meliès no Centenário do Cinema, etc).

******Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e Latino (Rio Grande do Sul) – 49 edições realizadas. Aceita filmes preferencialmente inéditos. Duas mostras principais: uma de filmes brasileiros e uma de filmes latino-americanos. E o tradicional e pioneiro Gauchão, mostra de curtas e longas produzidos no Rio Grande do Sul, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado.

******Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – 45 edições realizadas. Criada por Leon Cakoff, a Mostra já chegou a exibir mais de 400 filmes internacionais e brasileiros. Prioriza produção inédita. Promove competição apenas de filmes 100% inéditos (no Brasil), realizados por diretores estreantes (ou de até segundo longa). Já promoveu grandes mostras em seu Núcleo Histórico (do soviético Artavazd Pelechian, do italiano Valerio Zurlini, de cinema japonês, de dramas políticos peninsulares, do grego Angelopoulos, etc).

*****Curta Kinforum – Festival Internacional de Curta-Metragem de São Paulo – 32 edições realizadas. Além de mostrar curtas internacionais e brasileiros (muitos inéditos), o Festival criado e comandado por Zita Carvalhosa, desfruta de imensa credibilidade no meio cinematográfico por suas Oficinas Kinoforoum, realizadas em grandes periferias urbanas. Não é competitivo, mas o público escolhe os dez melhores filmes (brasileiros e internacionais). E parceiros (como Canal Brasil, SescTV, TV Cultura, ABD, etc) atribuem prêmios especiais.

*****CineCeará – Festival de Cinema Ibero-Americano de Fortaleza (Ceará) – 31 edições realizadas. Aceita filmes preferencialmente inéditos no país. Nos últimos anos, não trouxe produções da Península Ibérica. O que tem limitado seu alcance à América Latina. O que deve ser corrigido em edições futuras. Como o crescimento do cinema cearense, foram criadas as mostras Olhar do Ceará de Longa-Metragem e de Curta. Este ano, excepcionalmente, o estado apresentou 7 longas locais, algo raro fora do eixo Rio-SP.

******Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro – 22 edições realizadas (contagem a partir da fusão do RioCine com a Mostra Banco Nacional de Cinema). O segundo maior festival internacional do país. E o maior, se visto pela perspectiva da Première Brasil (com dez longas ficcionais e dez documentais). Nos três últimos anos enfrentou grandes dificuldades, mas deve se recompor e voltar a se impor como primeira vitrine da produção nacional. Já deu grande valor a seu Núcleo Histórico.

***** É Tudo Verdade – Festival Internacional de Cinema Documentário (São Paulo) – 26 edições já realizadas. Criado e dirigido por Amir Labaki, o ETV se compõe com competição brasileira e internacional e só aceita filmes 100% inédito. Seu Núcleo Histórico já promoveu restrospectivas de ponta na área do cinema documental (Dziga Vertov, Santiago Alvarez, etc).

. Mostra de Cinema de Tiradentes (Minas Gerais) – 25 edições realizadas – Competição de filmes brasileiros de novos realizadores, 100% inéditos. Criado e gerido pela Universo Produções (responsável também pela CineOP e Mostra CineBH). Com catálogos bem cuidados, debates e seminários. Sempre em janeiro. Como a Mostra de São Paulo, nunca alterou sua data.

*******Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Paraná) – Já promoveu dez edições. Embora seja bastante novo (apenas uma década de história), o festival paranaense só aceita filmes inéditos (brasileiros e internacionais), não interrompeu a edição de seus catálogos nem nos dois anos de pandemia e manteve um Núcleo Histórico dos mais invejáveis. Trouxe ao Brasil joias raras como um filme da juventude de Billy Wilder e colegas germano-austríacos (“Gente no Domingo”, 1930), o fascinante polonês “O Manuscrito de Saragoza” (Wojciech Has, 1965), além de riquíssima retrospectiva Murnau.

*****TEMAS QUE MERECEM DISCUSSÃO URGENTE:

. CALENDÁRIO DE FESTIVAIS: O Fórum dos Festivais necessita reunir seus associados e, apesar da pandemia e das dificuldades econômicas, estabelecer calendário com um mínimo de racionalidade. Em 2021, o primeiro semestre passou semanas, meses até, sem nenhum festival, enquanto no segundo semestre (especialmente em novembro e dezembro), aconteceram, em datas conflitantes, quase duas dezenas de festivais e mostras. Tal desorganização provoca desinteresse por parte da imprensa especializada. Brasília, por exemplo, que historicamente promove debates dos mais concorridos e polêmicos (vide os casos de “Vazante”, de Daniela Thomaz, e “Atrás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso), este ano não mobilizou – via digital — jornalistas. Os debates transcorreram sem perguntas questionadoras e mais com elogios vindos das próprias equipes dos filmes.

. REGULAMENTOS: Os Festivais e Mostras devem deixar claros seus regulamentos, seus critérios de seleção, suas propostas. Como diz Zita Carvalhosa, escorada em sua enorme experiência como produtora (Superfilmes) e diretora do respeitado Curta Kinoforum, não é o tamanho que define a importância de um festival, mas sua qualidade, suas intenções, suas propostas, sua contribuição para a formação de plateias para o cinema. Imaginem a responsabilidade do setor, nesse momento em que o market share do cinema brasileiro caiu de média (nos últimos anos) de 15% para apenas 3% (previsão do Boletim Filme B, no jornal O Globo, 28-12-2021).

. JURIS RENOVADOS – Os organizadores de Festivais devem ser mais rigorosos na escolha de seus corpos de jurados. Evitar a convocação de um mesmo profissional em prazo menor que cinco anos. E não repetir nomes que, no ano em curso, julgaram filmes apresentados em outras competições (isto, claro, no caso dos que aceitam filmes que não sejam 100% inéditos). Certa vez: uma pessoa da área da interpretação lamentou-se ao ver determinado diretor de cinema, pela terceira vez, num mesmo ano, integrando júri de festival. Intuiu que seria preterido… pela terceira vez. Esse exemplo pode parecer folclórico, mas não é. A informalidade (agravada pelo jeitinho brasileiro) permite que uma categoria com tantos profissionais (diretores, atores e técnicos) acabe se fazendo representar por poucos (e recorrentes) nomes. Um acréscimo: filme lançado no circuito comercial não deve, jamais, ser colocado em mostra competitiva. Os festivais existem para lançar filmes. Tais filmes podem — e devem — ser exibidos em sessões especiais ou temáticas, para novas avaliações. Um país que – mesmo com o desastre do governo Bolsonaro – continuou produzindo e lançando mais de 100 filmes/ano, não necessita recorrer a filme já exibido comercialmente.

. INTERESSE DA IMPRENSA: Claro que a imprensa brasileira passa por momento de grandes dificuldades, com equipes reduzidas e espaço editorial cada vez menor. Com a chegada do streaming vivemos uma era de profundas transformações. Hoje, filmes — dos mais criativos aos poderosos blockbusters — dividem espaço com séries e programas de variedades (principalmente reality shows). Se não houver, por parte dos festivais e de seu Fórum, o estabelecimento de um cronograma mais coerente e muita criatividade na concepção dos eventos, o esvaziamento continuará se fazendo sentir, cada vez mais junto às instituições culturais e sociais e, principalmente, junto aos meios de comunicação.

. FORUM DOS FESTIVAIS:

O Fórum Nacional de Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiros estabeleceu, em reunião no Recife, em 27 de março de 2000, seu Código de Ética. Nesse momento tão conturbado, a instituição, criada há mais de 20 anos, deve aproveitar as dificuldades para promover nova radiografia do setor e revigorar a ação de seus associados. E, também, atualizar seu Código de Ética, já que – quando foi elaborado — os filmes ainda circulavam em cópias de celulóide e o streaming não tinha a centralidade que viria a conquistar como grande difusor de conteúdos audiovisuais.

Mesmo assim, a leitura dos dez itens do documento do Fórum dos Festivais segue muito enriquecedora:

1 . A finalidade em si de um festival é promover o produto audiovisual, respeitando-o como manifestação artística, formando e informado o público,

  1. O festival deve proporcionar excelência técnica e infra-estrutura necessárias para garantir a integridade física e boa apresentação das obras em qualquer suporte material, bitola, formato ou duração.
  2. 3. O festival deve garantir aos autores e/ou detentores de seus direitos a contratação de seguro contra eventuais danos e sinistros que possam vir a ocorrer da chegada da obra até o momento de sua devolução, ou garantir – por meios próprios – a integridade das obras.
  3. 4. O festival deve definir o seu perfil específico, estabelecer um regulamento escrito, torná-lo público e cumpri-lo, respeitando o calendário de festivais existentes e os eventos já estabelecidos. As informações constantes em qualquer documentos produzidos pela organização do festival serão consideradas oficiais e de responsabilidade dos mesmos, devendo ser encaminhadas à secretaria do Fórum.
  4. 5. O festival deve priorizar a participação de artistas e técnicos e outros profissionais diretamente envolvidos na produção e promoção das obras apresentadas, além de garantir tratamento igualitário aos participantes da mesma categoria.
  5. 6. O festival deve assegurar liberdade de expressão, não aceitando qualquer tipo de censura.
  6. 7. O festival deve garantir transparência na sua seleção, notificando com antecedência – ou seja, antes da divulgação da sua programação oficial – os representantes dos títulos selecionados e não-selecionados.
  7. 8. O festival deve assegurar em suas publicações dados corretos e completos sobre as obras selecionadas, bem como os contatos e endereços de seus representantes.
  8. 9. Os festivais devem envidar esforços para promover a mais ampla cooperação, garantindo a troca de informações entre os eventos, a colaboração técnica e logística.
  9. 10. Os festivais-membros devem promover e fortalecer as posições assumidas pelo Fórum dos Festivais.