Kristal Robin Bivona, estudiosa do Cinema Brasileiro, fala de “Cidade de Deus”, “Café
com Canela”, “Aquarius”, das produções da Filmes de Plástico e de “Marighella” durante o Festival Aruanda

A professora Kristal Robin Bivona, da Universidade de San Diego, na Califórnia, destaca “Cidade de Deus” e outras produções brasileiras vistas nos EUA

. Maria do Rosário Caetano, de João Pessoa Revista de Cinema – Dezembro de 2022

A pesquisadora e professora Kristal Robin Bivona, diretora-associada do Behner Stiefel Center of Brazilian Studies, da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, abriu as atividades reflexivas do Festival Aruanda. Ela, que integra o júri da mostra competitiva de longas brasileiros ao lado da atriz Marcelia Cartaxo e do cineasta Joel Zito Araújo, proferiu ótima palestra, na Usina Cultural Energisa, sobre o tema “O Cinema Brasileiro no Exterior: Representatividade e o Imaginário Global”.
Em excelente português e usando slides de filmes e trecho de entrevista de Kleber Mendonça (“Aquarius”) como ilustração, a professora estadunidense contou que o primeiro filme brasileiro visto por ela foi “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998). Lembrou que naquela ocasião, estava iniciando seu curso de português em San Diego, nos EUA. E escolhera a língua de Camões por razão prática. “Eu morava em Tijuana, no México, e as aulas de Português eram as que ofereciam os horários mais convenientes para quem morava tão longe”.
Ainda colocada nos rudimentos do novo idioma, Kristal não entendeu os diálogos de “Central do Brasil”, mas quando as luzes se acenderam, ela e os colegas estavam emocionados, muitos com lágrimas nos olhos. O filme conseguira se comunicar com todos que o assistiam. Continuou seus estudos e apaixonou-se pelo cinema brasileiro da Retomada. Assistiu ao adrenalinado “Cidade de Deus” e ficou bastante impressionada. “Muito bem-produzido, com orçamento adequado, treinamento primoroso de atores não-profissionais, história envolvente (a partir do livro de Paulo Lins) e indicado a quatro Oscar pela Academia de Hollywood. Mesmo que — fez questão de ponderar — ajudasse a fixar imagem única do Brasil — “a de um país perigoso, violento, assustador”.
“O impacto de ‘Cidade de Deus’ foi tão forte” — relembrou — “que, ainda hoje, quando pergunto a meus alunos de 18, 19 anos, recém-chegados à Universidade (de San Diego), que filmes brasileiros vocês conhecem?”, a resposta é sempre (e invariavelmente) “ Cidade de Deus”. Mesmo que o filme já conte com 20 anos. Portanto, “estreou quando meus alunos ainda não tinham nascido”.
Preocupada com “a imagem única” de um país tão complexo quanto o Brasil, Kristal começou a buscar novos filmes, ficcionais ou documentais e de outras regiões do país, para apresentar imagens multifacetadas do Brasil aos alunos. Conheceu “Café com Canela”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, “primeira ficção brasileira dirigida por uma mulher, 34 anos depois de ‘Amor Maldito’, de Adélia Sampaio”. Satisfeita pôde conhecer o Brasil do Recôncavo Baiano, com personagens afro-brasileiros, comuns, não imersos na violência.
Kristal conheceria, em seguida, as produções mineiras da Filmes de Plástico, realizados, no município de Contagem, por André Novais Oliveira (“Temporada”), Maurílio Martins e Gabriel Martins, o Gabito (“No Coração do Mundo”) e “Marte Um” ( direção solo de Gabito). Viu, entusiasmada, filmes que também falavam de afro-brasileiros comuns, não envolvidos com violência e protagonizados por integrantes da própria família dos cineastas.
Kristal acompanhou com grande interesse a trajetória internacional de dois filmes — “Aquarius”, de Kleber Mendonça, e Marighella”, de Wagner Moura. O filme pernambucano ganhou destaque na mídia estrangeira quando Kleber e equipe protestaram contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no tapete do Festival de Cannes. Acabou, em represália, preterido por comissão governamental, mesmo sendo o franco favorito, para representar o Brasil no Oscar internacional. Como o filme era “crítico ao capitalismo e à gentrificação e seu diretor e equipe contrários aos governantes de direita que haviam assumido o governo, sofreu boicote de “barulhenta facção que, mesmo sem tê-assistido, propunha que fosse rejeitado”.
“Marighella ” foi outro filme que sofreu boicote. No Festival de Berlim, onde estreou, houve novo protesto. O diretor (e ator) Wagner Moura levou placa que denunciava o assassinato de Marielle Franco, junto com o motorista Anderson, dentro de carro (Carlos Marighella também foi assassinado dentro de um automóvel pela polícia política).
Kristal contou que o filme foi exibido nos EUA e que impressionou por seu protagonista negro (interpretado por Seu Jorge) e comunicou-se com os jovens, mesmo aqueles que nada sabiam do personagem histórico. E o fez graças à sua narrativa ligada ao cinema de ação. Porém, intelectuais e alguns críticos se incomodaram com a “representação vilanizada” dos norte-americanos. “Em seu filme” — ponderou a professora — “Wagner Moura, de forma intencional, posicionou-se por caminho oposto ao de Bruno Barreto que, em ‘O Que É Isso, Companheiro’, fez dos embaixador dos EUA (Allan Arkin) um personagem matizado, simpático e sensato”.
Por fim, Kristal lembrou que os serviços de streaming (Netflix, Paramount e Amazon, em especial) têm ajudado a divulgar a produção brasileira, com filmes legendados em inglês, nos EUA. Citou “ Ex-Pajé” e “A Última Floresta”, ambos de Luiz Bolognesi (este último em parceria com David Kopenawa), “Democracia e Vertigem”, de Petra Costa, “Laerte-Se”, sobre a cartunista Laerte, subversiva ao assumir-se trans já sexagenária.
A jovem professora mostrou, por fim, tabela com títulos que ela pode, agora, recomendar a seus alunos, em serviços de streaming, nos EUA: “Racionais”, de Juliana Vicente, “M-8”, de Jeferson De, “Cidade de Deus Dez Anos Depois”, de Cavi Borges & Luciano Vidigal, entre outros. Até “Kardec”, produção da Conspiração Filmes sobre o fundador da doutrina espírita.