* CINEGAUTCHÊ

* O que uma “apresentadora” prolixa pode dizer (em poucas linhas) sobre projeto generoso e importante como “50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho”?

* Livro da ACCIRS traz registro afetivo de 50 filmes de curta, média ou longa-metragem realizados no Rio Grande do Sul. Interessados em adquirir a obra (R$50,00) devem acessar o site da entidade: www.accirs.com.br

Por Maria do Rosário Caetano

O cinema gaúcho – o CineGautchê – tem uma imensa folha de serviços prestada ao país. Basta lembrar filmes como “Deu Prá Ti, Anos 70”, “O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda”, “Ilha das Flores”, “Anahy de las Misiones”, “A Cidade”, “Ninjas”, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, “Castanha”, “Beira-Mar”, “Caso do Homem Errado”, “Cidades Fantasmas”, “Mulher do Pai” e “Cidade dos Piratas”. Entre muitos outros.
O Rio Grande do Sul construiu, também, imensa folha de serviços prestados ao terreno da reflexão crítica, tradição que vem de longe. E que consolidou-se com os decanos P.F. Gastal (1922-1996), Hiran Goidanich, Hélio Nascimento, Enéas de Souza, Tuio Becker (1943-2008) e Luiz Carlos Merten. Estes profissionais ajudaram a fertilizar, em novas gerações, o entusiasmo pelo exercício da crítica.
Hoje, em todo Estado, meia centena de críticos e pesquisadores segue produzindo excelentes reflexões na revista “Teorema”, nas universidades, nos jornais e no espaço digital. Profissionais que mantêm bem estruturada e respeitada agremiação – a ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul). Tanto que, com esse livro – “50 Filmes Gaúchos” – a ACCIRS realiza feito só empreendido, até agora, pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), responsável pela união de profissionais da reflexão crítica e da pesquisa para eleger e analisar os melhores filmes brasileiros (ficção, documentário, animação e curta-metragem).
Há, porém, elemento diferenciador neste livro dedicado ao ‘CineGautchê’: ele não elege e avalia “os melhores filmes” produzidos no Estado. Nesse momento em que a cultura do ódio viceja no país, os críticos riograndenses guiam-se pelo afeto. Cada um escolheu título pelo qual nutre estima especial. Pode ser obra de Teixeirinha, protagonista de melodramas de grande popularidade, ou um filme de risco como “Adyós General”; um épico tabajariano ou um drama intimista (como “Yonlu”); um terror dennisoniano ou uma animação ottoguerreana; um documentário (como “Morro do Céu”) ou um “ovni” (segundo Roger Lerina) como “Festa de Margarette”.
Depois de mergulhar nas críticas (ou rememorações afetivas) desses “50 Filmes Gaúchos”, cada leitor sentir-se-á recompensado. Afinal, empreenderá deliciosa, plural e generosa travessia. Há espaço para o “cinema de bombacha” do ciclo pampeano e para o cinema urbano portalegrense, para realizadores negros (como Odilon Lopes e Camila de Moraes) e indígenas (do coletivo Mbyá-Guarani de Cinema), para mulheres e homoafetivos, vozes que ganham a cada dia mais (e merecido) relevo. E, também, filmes vindos de significativos núcleos de produção como Pelotas, Santa Maria e Bagé.
Boa travessia, pois, por essas páginas tão relevantes e capazes de nos revelar tanto do ‘CineGautchê”. Ao cunhar este neologismo, inspirei-me no saboroso “Cultchê”, de Carlos Redel, em sua análise de “Filme Sobre um Bom Fim”. Boa leitura!