“EMBARQUE, DA SELEÇÃO DE MELHORES DO ANO DA CAHIERS DU CINEMA, ESTÁ
NO MyFrenchFilmFestival

Os dez mais da Cahiers de Cinema

Revista francesa elege “À l’Abordage”, em cartaz no MyFrenchFilmFestival, um dos dez melhores filmes de 2021

Maria do Rosário Caetano

Quem leu o número de dezembro da revista Cahiers du Cinéma, a bíblia da cinefilia francesa, viu sua equipe de críticos eleger os melhores filmes do ano. O público-leitor também escolheu os seus preferidos.
Quem está acompanhando o MyFrenchFilmFestival (ver matéria com programação detalhada na Revista de Cinema digital) poderá conferir um dos dez eleitos pelos críticos – a comédia interracial “Embarque” (“À l’Abordage”), de Guillaume Brac, disponível em várias plataformas digitais (Belas Artes à la Carte, Imovision Reserva Cultural, Filmicca, etc). Que ninguém espere um filme ONG. A septuagenária publicação francesa gosta de filmes que investem na ousadia formal e na desconstrução narrativa. Quanto menos previsível melhor.
No primeiro lugar da lista está o new western “First Cow: A Primeira Vaca da América”, de Kelly Reichardt, produção norte-americana, realmente surpreendente e encantadora. Já o new western de Jane Campion, festejado no mundo inteiro (e em Veneza), não ocupou nem o décimo lugar. Ou seja, ficou fora de alcance.
Na segunda posição está o musical “Annette”, de Leo Carax, o “C” da trinca BBC (Beineix, Besson, Carax), que tem como protagonistas Marion Cotillard e Adam Driver. E que a poucos encantou e a muitos desagradou. Um musical nada previsível. Que causa mais estranhamento que empatia. Como a trupe Cahiers gosta.
Em terceiro, foi posicionado o filme colombiano do asiático Apichatpong Weerasethakul – “Memória”, com Tilda Swinton como razão de ser. Em quarto, o japonês “Drive my Car”, praticamente uma unanimidade planetária (começam a surgir as primeiras, e por enquanto rarefeitas, dissidências), de Ryûsuke Hamaguchi. Premiado em Veneza, o escolhido dos críticos de Nova York, Los Angeles e Boston, vencedor do Globo de Ouro (produção em língua estrangeira) e cotado para, além da lista de candidato ao Oscar de melhor longa internacional, ocupar vaga na lista principal (como “Parasita”, dois anos atrás).
Em quinto e sexto lugar, “France”, do francês Bruno Dumont, e o “europeu” (e norte-americano) “A Crônica Francesa” (grana européia e diretor dos EUA, Wes Anderson). Em oitavo, o suíço “A Garota e a Aranha”, de Ramon e Silvan Zürcher, todos exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado.
Em nono, “The Card Counter”, poderoso longa-metragem de Paul Schrader, outrora conhecido como roteirista de Martin Scorsese (em especial de “Taxi Driver”) e cada vez mais respeitado como realizador (presente nos mais importantes festivais, mas, infelizmente, ausente dos grandes circuitos exibidores brasileiros). Este seu novo filme é uma alucinada e febril recriação do episódio ocorrido na prisão de Guantânamo, onde presos políticos muçulmanos foram torturados (além de humilhados e fotografados com requintes de barbárie) por militares norte-americanos.
Em décimo lugar, o explosivo “Benedetta”, produção francesa comanda pelo holandês Paul Verhoeven, protagonizada pela atriz bela Virginie Efira, em estado de graça (e possessão).
Embarque”, como todos os filmes do MyFrenchFilmFestival, é obra de um jovem realizador (Guillaume Brac). Ao longo de sintéticos 95 minutos, ele constrói comédia de grande originalidade protagonizada por dois atores afro-franceses (Salif Cissé e Eric Nantchouang) e um filhinho-de-mamãe parisiense e louro (Edouard Sulpice).
Em Paris, numa noite de agosto, em festa ao ar livre, o jovem Félix conhece Alma. Eles têm a mesma idade, ela é branca e ele negro. Félix trabalha. Alma sairá de férias no dia seguinte. Ele decide, ao lado do amigo Chérif, pedir carona e ir acampar na cidade, no sudoeste do país, onde a moça desfrutará semanas de lazer. Como ele e o amigo não têm carro, fazem a viagem (como caroneiros) com Édouard. O que se verá dali em diante é surpreendente, inteligente, contagiante. O público da Cahiers du Cinéma também amou o filme e o colocou em sua lista de preferidos.
Eis a seleção dos leitores-cinéfilos, em ordem de preferência: “Annette” (primeiro lugar), “Drive my Car” (segundo), “Memória”, “First Cow”, “Embarque” (À l”Abordage”), “Benedetta”, “France”, “A Crônica Francesa”, o japonês “Onoda- 10 Mil Noites na Selva”, de Arthur Harari, e o italiano “Tre Piani”, de Nanni Moretti.
Ainda nesse primeiro semestre, a Imovision, de Jean-Thomas Bernardini, vai lançar “Onoda” e “Tre Piani”. O primeiro narra, ao longo de quase três horas, a história de Hiroo Onoda, soldado japonês que lutou na Segunda Guerra e só admitiu o fim do conflito bélico trinta anos depois da rendição do Imperador frente aos Aliados. Já o filme do ator e diretor Nanni Moretti, mostra três famílias que vivem em um mesmo prédio de três andares (tre piani) num bairro romano e, ao longo de dez anos, enfrentam situações dolorosas ou desconfortáveis.

* MyFrenchFilmFestival 2022 – Festival dedicado ao novo cinema de expressão francófona (França, Suíça, Bélgica, Canadá, etc) organizado pela Unifrance. Até dia 14 de fevereiro. Gratuito em plataformas digitais (Belas Artes à la Carte, Reserva Imovision, Filmicca). Em exibição: nove longas-metragens (ficção, documentário, híbridos e animação) e 16 curtas-metragens. Entre os destaques está “O Céu de Alice”, um híbrido dirigido por Chloé Mazlo, que soma live action e cinema de animação, resultando em narrativa dos mais inventivas. A história, ambientada na Guerra Civil Libanesa, se passa na década de 1970, e representa o conflito de forma alegórica, numa simples trincheira (com reduzidos elementos simbólicos). No elenco, a atriz italiana Alba Rohrwacher e o ator libanês, radicado no Canadá, Wadji Mouawad.