EXCESSO DE PRÊMIOS E PRESENÇA DA CRITICA EM JURIS OFICIAIS

FESTIVAIS E MOSTRAS DE CINEMA (BRASIL):

. SOBRE PREMIAÇÕES, JÚRIS, INEDITISMO, CALENDÁRIO, REGULAMENTOS E FORUM DE FESTIVAIS — ALGUNS APONTAMENTOS

. JANEIRO DE 2022

FESTIVAIS E MOSTRAS DE CINEMA (BRASIL):

. SOBRE PREMIAÇÕES, JÚRIS, INEDITISMO, CALENDÁRIO, REGULAMENTOS E FORUM DE FESTIVAIS — ALGUNS APONTAMENTOS

. JANEIRO DE 2022 —  Nos apontamentos sobre festivais e mostras de cinema realizados no Brasil, deixei de abordar ponto muito importante: a premiação. Há, no Brasil, tradição de atribuir dezenas e dezenas de prêmios. Aqui, as cerimônias são infindáveis e muito cansativas.

      Os prêmios principais (Candango, Kikito, Redentor, Bandeira Paulista, Mucuripe, Barroco, Olhar, etc) são distribuídos junto a prêmios especiais. Quem mais sofre com este acúmulo de troféus é o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, justo o mais antigo. Ao somar, em mais de cinco décadas de história, a tradicional competição dos ‘Candango’ à Mostra Brasília (Mostra Câmara Distrital, há três anos sem essa denominação) e aos prêmios de entidades agregadas, chegou-se, poucos anos atrás, ao paroxismo. Houve uma noite em que foram entregues mais de 70 láureas. Uma exorbitância. Se alguma emissora de TV estivesse transmitindo a cerimônia, o espetador mudaria de canal na hora (Vejam, hoje, 03-01-2022, na Folha de S. Paulo, texto de Kyle B uchanan sobre a perda de espectadores da cerimônia do Oscar, em tradução do NYT).

Gramado, único festival do país que tem sua cerimônia de premiação transmitida pela TV (Canal Brasil e TV Educativa do Rio Grande do Sul), sabe fazer uma festa ágil. Primeiro, porque dedica ao Gauchão (Prêmio Assembleia Legislativa aos Melhores do Cinema Gaúcho), espaço nobre na noite de domingo. Ou seja, em dia diferente da Noite dos Kikitos. E abriga poucos prêmios agregados (de entidades parceiras).

Cannes, Veneza e Berlim, os três festivais mais importantes do mundo, são supereconômicos em suas premiações (Palma de Ouro, Leão de Ouro, Leão de Prata, Copa Volpi, Urso de Ouro, Urso de Prata). Prêmios agregados são entregues dentro do Festival, mas geralmente não na Noite das Palmas, Leões e Ursos.

O Fórum dos Festivais necessita reunir seus associados para debater – além das loucuras do Calendário e da falta de regramento e catálogos – o excesso de prêmios (atribuições ex-aqueo, menções honrosas, etc). Quanto mais difícil de conquistar, mais valorizado é o troféu. Um festival não é uma casa de caridade. A reforma agrária cai muito bem na Agricultura. Já na Cultura, ela fica melhor na área das Políticas Públicas, na divisão e regionalização dos recursos por todos os Brasis.

Alguns (poucos) leitores de meus Apontamentos comentaram o que escrevi. Um deles ponderou que, em relação aos festivais presenciais, ele não considera que “o ineditismo deva ser um critério rígido”, por entender que “muitos filmes merecem a chance de se apresentarem em festivais diferentes para públicos diferentes (quando não houver exibições online) antes de entrarem em circuito. Ainda que seja fora de competição”.

Quanto aos júris, outra ponderação: “sou de opinião (disse ele) de que todos os júris deveriam ter pelo menos um representante da Crítica. A Première Brasil, por exemplo, só inclui atores, diretores e técnicos. Entendo que crítico sempre traz uma visão ‘fora da indústria’ que deve ser considerada”.

Outras considerações (de outros interlocutores) se apegaram à ausência deste ou daquele festival na lista dos “Nove Classe A”, fruto de escolha pessoal minha, levando em conta itens com “ineditismo dos filmes”, “curadoria”, “bons catálogos”, “debates qualificados”, “seminários, cursos, oficinas”, etc.

Como cubro festivais desde 1977 (portanto há 44 anos), arrisquei-me a fazer o que poderia (deveria) ser feito por uma Comissão Técnica, formada por representantes de várias associações e estudiosos do assunto. Fica a sugestão.

*****E seguem as ponderações que fiz ao interlocutor que discutiu a questão do “ineditismo” e da presença de críticos em júris de Festivais.

. Reafirmo que um Festival ou Mostra, para ser ‘classe A’ (como Cannes, Veneza e Berlim) tem, obrigatoriamente, que trabalhar com filmes 100% inéditos. No Brasil, na minha avaliação, só nove têm seguido (mesmo assim com acidentes de percurso) essa diretriz. Os outros – mais de uma centena – continuarão a exibir filmes já apresentados em outros certames, desde que não-premiados com o prêmio principal e jamais lançados comercialmente (senão vira uma avacalhação).

Quanto aos júris, também defendo a presença de um representante da Crítica Cinematográfica, pela mesma razão apontada por meu interlocutor. Mas os representantes da Indústria Cinematográfica entendem que, em havendo o Prêmio da Crítica, esse “segmento” está/estaria “querendo demais!”. Exigindo super-representação.

Quando o longa-metragem “Colegas”, de Marcelo Galvão, derrotou “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça, em Gramado, conversei, civilizadamente, com o cineasta e editor do Boletim Filme B, Paulo Sérgio Almeida, integrante do Júri. Perguntei por que haviam preterido o filme do pernambucano. Ele me respondeu, educadamente, que o júri, formado com profissionais de cinema, preferira “Colegas” como melhor filme, e dera a Kleber Mendonça o Kikito de melhor diretor. E lembrou que a Crítica exercera seu direito: dera a “O Som ao Redor”, o seu prêmio. E brincou, meio a sério: “vocês têm um júri inteiro para vocês e ainda querem dar palpite no nosso”.