“Caros Camaradas” marca retorno deAndrei Konchalovski aos cinemas brasileiros

Maria do Rosário Caetano
Na Revista de CINEMA

“Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta”, vigésimo-segundo longa-metragem de Andrei Konchalovski, traz o veterano diretor russo de volta aos cinemas brasileiros. O filme entra em cartaz, nessa quinta-feira, 29 de julho, em salas de algumas capitais brasileiras.
O mais internacional dos cineastas do país de Eisenstein faz sua rentrée em grande estilo, pois sua narrativa, um drama político ambientado nos anos Krushov, ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, ano passado. Nada mal para um cineasta quase 84 anos.
Ao definir Andrei Konchalovski como “o mais internacional dos cineastas russos”, constata-se que ele é um profissional dono de três nacionalidades (além da russa, a norte-americana e a francesa, sem falar na condição de ex-soviético). E que aclimatou-se muito bem no cinema de narrativa clássica dos EUA.
Descendente da aristocracia intelectual moscovita, ele e o irmão mais novo Nikita Mikhalkov, de 75 anos, iniciaram suas trajetórias no cinema, ainda na era soviética. Konchalovski, que preparou-se para ser músico, mas temendo “a mediocridade” acabou escolhendo o audiovisual. Isto depois de cursar a VGIK (Universidade Estatal de Cinema Sergei Guerasimov), a mais antiga escola cinematográfica do mundo.
Ele realizou, na URSS, seis filmes, entre os anos de 1965 e 1979, sendo que dois causaram sensação no Ocidente: “Tio Vanya”, com presença marcante nos cineclubes brasileiros da década de 1970, e o épico “Siberíade”, que rendeu a ele o Prêmio do Juri no Festival de Cannes.
A consagração na festa francesa chamou atenção para o realizador soviético, então com 42 anos. Resultado: ele radicou-se nos EUA, onde faria meia dúzia de filmes, três com sucesso no mercado internacional (“Os Amantes de Maria”, “Expresso para o Inferno” e “Tango & Cash – Os Vingadores”). Mas estes filmes não teriam espaço nos grandes festivais.
Com o desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em dezembro de 1991, Konchalovski regressou a seu país de origem. Mas já estava totalmente contaminado pelo “cinema internacional”. Tanto que seu filme de maior apelo no período foi “O Círculo do Poder”, sobre projecionista que exibia filmes, no Kremlin, para o ditador Josep Stalin (1878- 1953). Falado em inglês, o longa (que mais prometeu, que cumpriu) tinha Tom Hulce (o espalhatoso Mozart de Milos Forman) na pele do projecionista Ivan Sanchin e o britânico Bob Hoskins como Lavrentiy Béria, um dos auxiliares mais próximos do ditador (no filme, o ator Aleksandr Zbruyev interpreta Stálin).
Konchalovski voltaria à língua materna, o russo, no filme seguinte – “O Ouro dos Tolos”. Que ele, aliás, apresentou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1993, na qual integrou o júri. Faria parte, ainda, de coletivo de diretores em dois projetos internacionais (“Lumière e Companhia” e “Cada um Com Seu Cinema”).
Em 2002, já reintegrado às hostes do cinema russo, ele ganharia o Prêmio do Júri, em Veneza, com “Casa de Loucos”. No momento presente, usufrui da ótima aceitação de “Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta”, que além do prêmio em Veneza, passou por diversos festivais internacionais e conseguiu distribuição até no difícil mercado brasileiro.
“Dorogie Tovarishchi!” (“Dear Comrades!”, nome internacional do filme) é russo até a medula. Todo o elenco, o idioma, tramas e paisagens pertencem ao imenso país eurasiano. Yulia Vysotskaya interpreta a protagonista Lyudmila, uma devotada integrante do comitê local do Partido Comunista. Ela cultiva a memória de Stálin, morto nove anos antes. Para ela, o ditador foi o dirigente que venceu a Guerra Patriótica e manteve unido o povo soviético, levando-o a imensas conquistas. Lyudmila não é uma oportunista, mas sim uma mulher que participou do esforço de Guerra (a Patriótica, contra os nazistas) e acredita mesmo nas ideias que professa.
Num dia de 1962, durante o Governo Nikita Krushov (1954-1964), na cidadezinha de Novocherkassk, antiga capital cossaca, uma ordem do Estado revolta operários da fábrica local: o imediato aumento no preço dos alimentos (em tempo de achatamento salarial). Os trabalhadores se rebelam, entram em greve e 26 deles são assassinados durante manifestação. Escondida em determinado lugar, Lyudmila vê um sniper acertar, mortalmente, os trabalhadores.
O Exército Vermelho, criado por Leon Trotski, tinha como missão defender a URSS de invasões externas. Que foram muitas na história russa (a dos teutônicos na Idade Média, a do Exército de Napoleão, a dos Japoneses, a dos aliados às forças anti-revolucionárias na Guerra Civil, que se seguiu ao triunfo bolchevique, a dos nazistas, em 1941). Segundo crença generalizada entre os soviéticos, o Exército Vermelho não atirava, jamais, em seu povo. Para ele vigorava a máxima: não havia inimigos internos (só externos).
O filme de Konchalovski mostrará que não foram os fuzis do Exército Vermelho que mataram os 26 operários grevistas, mas sim snipers a serviço da KGB, braço político e policial do Estado. Mas o massacre é apenas o ponto de partida dos 121 minutos de “Caros Camaradas!”.
Na verdade, o que Konchalovski quer é contar uma história de amor maternal-filial. Para tanto, recorreu ao sensível olhar feminino de Elena Kiseleva, que assina com ele o roteiro. Lyudmila, a fiel seguidora de Stálin, tem que procurar uma filha adolescente, Svetka (Yulia Burova), envolvida com os protestos, por todos os lados, pois ela desapareceu.
A busca será uma jornada de angústias. Com o toque de recolher e exigência de sigilo por parte das testemunhas, a busca da mãe pela filha resultará em verdadeiro calvário. E, para mostrar que não fez um filme maniqueísta, a “mãe coragem” Lyudmila contará em sua busca, com a inusitada ajuda de um oficial que presta serviços à repressão.
Ninguém pense, porém, que Andrei Konchalovski realizou uma odisseia trágica e de final infeliz. Assistam e, assim, constatarão que o filme, feito em preto-e-branco de rara beleza, encerra-se com final redentor.

* “Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta” (Rússia, 2020) – De Andrei Konchalovski. Com Yulia Vysotskaya, Vladimir Komarov, Andrey Gusev, Yulia Burova. Roteiro de Elena Kiseleva e Konchalovski. Distribuição: A2 Filmes. Duração: 121 minutos.

FILMOGRAFIA:

1965 – Primeiro Professor (URSS)
1969 – A Felicidade da Ásia (URSS)
1969 – Ninho de Cavalheiros (URSS)
1971 – Tio Vanya (URSS)
1974 – Romance de Apaixonados (URSS)
1977-79 – Siberíade (URSS)
1984 – Os Amantes de Maria (EUA)
1985 – Expresso para o Inferno (EUA)
1986 – Sede de Amar (EUA)
1987 – Gente Diferente (EUA)
1989 – Tango & Cash – Os Vingadores (EUA)
1991 – O Círculo do Poder (EUA-Itália-Rússia)
1994 – O Ouro dos Tolos (Rússia)
1995 – Lumière e Companhia (projeto coletivo) – França
1997 – A Odisséia (Rússia)
2002 – Casa de Loucos (Bárbaros & Traidores – Rússia)
2003 – O Leão no Inverno (telefilme)
2007 – Cada Um Com Seu Cinema (projeto coletivo) – França
2010 – O Quebra-Nozes (Rússia)
2014 – O Carteiro das Noites Brancas (Rússia)
2016 – Paraíso (Rússia)
2020 – Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta (Rússia)