SANTOS FILM FESTIVAL APRESENTA “CITIZEN LULA”, DOCUMENTÁRIO DE MARIANA VITARELLI ALESSI

CITZEN LULA” VISTO

DE FORA PRÁ DENTRO

Diretora independente mostra

Lula Lá: De Fora Prá Dentro”

no Santos Film Festival

Maria do Rosário Caetano

Mariana Vitarelli Alessi, jornalista e documentarista, realizou seu segundo filme, “Lula Lá: De Fora Pra Dentro”, durante longos 16 anos. O documentário, que dura 142 minutos (isso mesmo, 2h22′) será reprisado nessa sexta-feira, 25 de junho, às 17h00, pelo Santos Film Festival, que realiza sua sexta edição on-line e gratuita, até a próxima terça, 29.

Em silêncio, sem grandes patrocinadores oficiais ou privados, Mariana foi somando registros da história do retirante, que migrou com a família de Garanhuns para a Baixada Santista, e décadas depois seria eleito, por duas vezes, presidente da República.

Há poucos registros sobre a trajetória da documentarista. Em 2007, ela ganhou o Prêmio Aquisição TeleSur no Festival de Gibara, em Cuba, dedicado ao “cinema pobre”. Ou seja, a produções de baixíssimo orçamento. O filme premiado tinha nome sugestivo – “2001: Uma Odisséia à Brasileira”. Por aqui, pelo menos no circuito de festivais e nas salas de exibição, o filme da então estreante Mariana Vitarelli Alessi, de 42 anos, passou em branco.

Agora, com “Lula Lá: De Fora Pra Dentro”, cujo nome internacional é “Citzen Lula”, a diretora aproveita a vitrine oferecida pelo jovem Santos Film Festival. Um festival que vem ganhando fôlego na mais importante cidade da Baixada Santista e promovendo atividades durante todo o ano.

O filme de Mariana foi selecionado para o principal segmento do festival caiçara – a Mostra Brasil (ver lista com os outros selecionados abaixo).

E “Citzen Lula” tem qualidades? Merece que dediquemos a ele 2h42′ de nosso escasso tempo?

Sim e não. A julgar-se por sua primeira parte, a resposta é não. Mariana realiza um cansativo “cabeças falantes”, costurando dezenas de depoimentos. Para ser mais precisa: dezenas de declarações.

O depoimento (ou testemunho), como bem demonstrou Eduardo Coutinho em seus filmes, pressupõe subjetividade e aprofundamento. A declaração é televisiva, superficial. Fornece frases feitas para serem montadas num tecido orgânico só na aparência.

Os nomes selecionados pela documentarista são por demais identificados com Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores, mesmo que tenham trajetórias relevantes como Cândido Mendes, Maria Aparecida Aquino e Bernardo Kucinski (ambos da USP),, Marcelo Neri (da FGV Social), Jessé Souza e Gilberto Maringoni, ambos da UFABC (Universidade Federal do ABC Paulista), Leonardo Boff, Oscar Niemeyer e Luiz Carlos Barreto. Três artistas marcam presença: Chico César, Otto e Carlos Dafé. A eles somam-se dezenas de políticos, jornalistas, indígenas e homens do povo. Cansa ouvir tantas declarações que nunca saem da superfície.

Na segunda parte, o filme melhora, pois passa a acreditar mais na imagem e diminuiu seu ímpeto de colher declarações e mais declarações. Saímos, então, do frenesi picotado de falas.

Veremos, então, a primeira eleição de Dilma. Depois a segunda, acompanhada da decisão de Aécio Neves, o candidato derrotado, de questionar o resultado das urnas. Seguiremos o processo de impeachment levado a cabo por decisão de Eduardo Cunha, com Câmara e Senado na retaguarda, as manifestações de rua (pró e contra o golpe parlamentar-midiático), a prisão de Lula (seu último discurso proferido no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC).

O que o filme tem de melhor é justamente uma longa entrevista de Lula, a última que ele deu antes de ser preso (e passar 580 dias encarcerado). Ela é distribuída ao longo das mais de duas horas de duração da narrativa. De camiseta vermelha, calmo e lançando mão de suas metáforas compreensíveis por qualquer ouvinte, o ex-presidente não demonstra rancor pelo vendaval que enfrentava naquele momento (e que culminaria com sua prisão).

O ex-presidente conta, com frases curtas e recheadas de sabedoria popular, que um coveiro foi até ele contar que o filho “está estudando Diplomacia”. E mais: “o Brasil anda tão azedo que se expremer dá para fazer limonada” (promete que será candidato para que o país reencontre a alegria, a paz e a justiça social). Lembra que muitos ficam xingando ou reclamando de brasileiros que estavam engrossando as fileiras pró-golpe. “Xingar não adianta, temos que ir conversar com eles para saber o que estão pensando”.

Sobre a fome, outra tirada de forte acento popular: “só quem viu a lombriga maior comer a menor, sabe o que é fome”, diz o defensor do projeto Fome Zero. Aliás, o que mais se ouve no filme são as expressões “justiça social”, “combate à fome”, “criação de escolas técnicas e universidade para todos, não só para os filhos dos ricos”. Ou, na voz do ex-chanceler Celso Amorim: “auto-estima”. O embaixador garante que “com Lula, o Brasil se tornou respeitado no concerto das nações”. Pois “praticou uma política externa ativa e altiva”.

Claro que Lula aparece, também, em imagens de arquivo, sendo chamado de “O Cara”, por Obama, e abraçado ao alemão Schroeder. E em muitos fóruns internacionais, incluindo a ONU. Algumas imagens são de baixa resolução. Já o material produzido pela pequena equipe de Mariana Vitarelli Alessi é de significativa qualidade.

Quem se impacientar com o déjà-vu da primeira parte, pode arriscar-se na segunda. Mesmo que dezenas de filmes (ver tabela abaixo) já tenham realizado mergulhos mais substantivos nos anos Lula/Dilma, em especial na traumática fase do impeachment. Fase de tão trágicas consequências para o país.

***** LONGAS – MOSTRA BRASILEIRA

(Sessões com horários e dias agendados)

– Lula Lá: De Fora Pra Dentro, 142′. De Mariana Vitarelli Alessi – RJ – Reprise: Hoje, dia 25, às 17h00

Projeto Herdeiro de Baden Powel, 69′ – De Fábio José Pimentel, Santo Antônio de Pádua, RJ – Exibição: 28/06 às 19h Reprise: 29/06 às 15h

Extermínio, 72′, De Mirela Kruel, Cachoeira do Sul, RG – Exibição: 24/06 às 19h Reprise: 25/06 às 15h

Chico Mario – A Melodia da liberdade, 139′. De Silvio Tendler, RJ Exibição: 23/06 às 19h, Reprise: 24/06 às 15h

dElas, 68’ . De Carolina Capelli, São José do Rio Preto, SP- Exibição: 23/06 às 121h, Reprise: 24/06 às 17h

Muribeca, 78′ – De Alcione Ferreira & Camilo Soares, Recife, PE – Exibição: 25/06 às 19h, Reprise: 26/06 às 15h

O Artista e a Força do Pensamento, 90′. De Elder Fraga, SP – Exibição: 25/06 às 21h, Reprise: 26/06 às 17h

O Sonho do Inútil, 72′. De José Marques de Carvalho Jr – RJ – Exibição: 26/06 às 19h Reprise: 27/06 às 15h

Oxente, Bixiga!, 78′. De Daniel Fagundes e Fernanda Vargas, SP – Exibição: 26/06 às 21h, Reprise: 27/06 às 17h

Vira-Latas, 73′ De Daniel Torres e James Salinas, SP – Exibição: 28/06 às 21h Reprise: 29/06 às 17h

****IMPEACHMENT E TEMAS DERIVADOS

(Filmes realizados entre 2018 e 2021):

. “O Processo”, Maria Augusta Ramos

. “Já Vimos Esse Filme”, Boca Migotto

. “Filme Manifesto – O Golpe de Estado”, Paula Fabiano

. “Excelentíssimos”, Douglas Duarte

. “Um Domingo de 53 Horas”, Cristiano Vieira

. “O Muro”, Lula Buarque de Hollanda

. “Garantia da Lei e da Ordem”, Júlia Murat & Miguel Ramos

. “Escolas em Luta”, Consonni, Marques & Tambelli

. “Intervenção – Amor Não Quer Dizer Grande Coisa” , de Rubens Rewald, Aranda & Thales Ab’Saber.

. “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa

. “Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi

.”Impeachment, o Brasil nas Ruas”, Beto Souza e Paulo Moura

. “Golpe”, de Guilherme Castro e Luiz Alberto Cassol:
. “Esquerda em Transe”, Renato Tapajós

. “Lula Lá: De Fora Pra Dentro, de Mariana Vitarelli Alessi