GLAUBER VIU “LIMITE” ANTES DE PUBLICAR “REVISÃO CRITICA DO CINEMA BRASILEIRO”??? – NOVAS QUESTÕES

GLAUBER ROCHA VIU “LIMITE” ANTES DE ESCREVER “REVISÃO CRITICA DO CINEMA BRASILEIRO”?

Esta questão, relevante
para a historiografia cinematográfica brasileira, se colocou quando Hernani Heffner afirmou — em “live” com Denilson Lopes – que Glauber teria visto o filme em 1958, portanto cinco antes da publicação do livro.

Há resposta conclusiva (e provas
concretas) sobre tal questão?

Por Maria do Rosário Caetano

Depois de reler alguns livros, com atenção dobrada e atenta à questão “Glauber viu ‘Limite’, de Mário Peixoto, antes de publicar ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ (Civilização Brasileira, 1963), volto ao assunto.
Se no primeiro momento, fui tomada pela dúvida (trazida pela nova, e surpreendente, afirmação de Heffner), agora – até que provas em contrário surjam – creio na afirmação de Glauber (que desconhecia o filme).
Hernani Heffner é um pesquisador sério, estudioso do tempo histórico que gerou “Limite”, e da própria obra do cineasta fluminense, além de autor de dissertação de mestrado (ou tese de doutorado) sobre Edgard Brazil, fotógrafo do filme de Mário Peixoto. E professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).
Antes de fazer as considerações que julgo oportunas e colocar mais um personagem no centro dessa história – o ator Brutus Pedreira – lembro que, na recém lançada edição francesa de “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” – com tradução de Sylvie Debs, prefácio francês de Paulo Paranaguá (e, também, com o seminal prefácio brasileiro de Ismail Xavier, escrito para a reedição da Cosac & Naify, 2003) – Paranaguá destaca que Glauber, em seu livro, não pôde avaliar o filme “Limite”, já que o desconhecia, nem reconhecer a importância da chanchada. Como é de todos sabido, as comédias (musicais ou não) da Atlântida só seriam reconhecidas por estudiosos como Sérgio August o e João Luiz Vieira, duas décadas depois da publicação do primeiro livro de Glauber.
Antes de expor meus argumentos (ou dúvidas), deixo claro que não sou uma “devota cega” por excesso de admiração a Glauber Rocha. Para mim, ele é o maior, o mais criativo, o mais inventivo dos cineastas brasileiros. O que não me impede de ver muitos de seus atos – principalmente como ser humano – como dos mais controversos. Em especial os de sua fase derradeira, que acompanhei de perto, como editora de Cultura do Correio Braziliense (ou Jornal de Brasília).
Em seus derradeiros anos, Glauber Rocha (1939-1981) filmou parte de seu monumental “A Idade da Terra” em Brasília e encontrou em Evandro Oliveira Bastos, editor-chefe do Correio Braziliense, um grande amigo e defensor (tanto que presenteou o jornalista com cópia, em película, de “Di”, filme premiado em Cannes e, depois, interditado pela Justiça brasileira). O baiano frequentava a redação do jornal e nele publicava vulcânicos artigos, grafados com muitos “y” e “z”.
Em janeiro de 1979, fui cobrir a nona edição do Festival de Cinema de Gramado. Qual não foi minha surpresa ao ler, no Correio do Povo, entrevista de Glauber desancando o pacato Jorge Bodanzky, que disputava o troféu Kikito com “Os Mucker”, parceria com Wolf Gauer. O baiano afirmava, no jornal gaúcho, que “Os Mucker” era um filme de direita, “porque foi co-produzido pelo Instituto Goethe, que está a serviço da CIA”.
Glauber, que cresceu numa família protestante, em Vitória da Conquista, no sertão baiano, nunca teve fama de mentiroso (ou mitômano). Em sua fase final, xingava inclusive velhos companheiros cinemanovistas usando, geralmente, a métrica do “agente da CIA”, de uso comum entre militantes/grupos de esquerda.
Feito este registro, é hora de colocar Brutus Pedreira (1898-1964), brasileiro nascido no Uruguai, ator e amigo muito próximo de Mário Peixoto, em lugar central nesse texto. Parece ter sido ele – e não Paulo Cezar Saraceni ou Mário Carneiro – quem levou Glauber a encontro(s) em restaurante(s) com o diretor de “Limite”.
No livro “Jogos de Armar – A Vida do Solitário Mário Peixoto, o Cineasta de Limite”, de Emil de Castro (Lacerda Editores, 2000), há reprodução de foto em ampla mesa com Brutus, Mário e Glauber (entre outros presentes). A foto está localizada “no restaurante Lucas, em Copacabana, nos anos 1960”. Hernani Heffner cita mais uma foto, que teria sido captada em outro restaurante de Copacabana, o Albatroz. Esta, que pode estar depositada no Acervo Mário Peixoto, mantido pela Videofilmes, ainda não conheço.
Como Brutus entra na vida de Glauber Rocha? Muito simples: de 1958 a 1962, ele foi levado, por Martim Gonçalves para dar aulas no curso de Teatro da UFBa (Universidade Federal da Bahia). Claro que Glauber o conheceu nesse período. E que, decerto, Brutus o levou ao jantar com Mário Peixoto. Antes desse jantar, Glauber teria visto “Limite”?
Em tese, poderia ter visto sim, embora na página 100 de “Jogos de Armar”, o ex-prefeito de Mangaratiba, Emil de Castro, reproduza entrevista de Saulo Pereira de Mello a José Carlos Avellar. Saulo conta ao repórter (e crítico) do Jornal do Brasil, que, em 1959 surgira a “preocupação de que ‘Limite’ poderia desaparecer, pois a projeção já vinha sendo feita sem a segunda parte”. Isto porque “o nitrato iniciava o processo de decomposição”. De tal forma que Plínio Sussekind, primeiro guardião de “Limite”, pediu ajuda a Saulo. Este, então, transformou-se em verdadeiro cruzado em defesa do único longa-metragem de Mário Peixoto.
Saulo conta a Avellar que de 1959 “até 1966, a cópia ficou guardada na Faculdade Nacional de Filosofia, quando foi absurdamente apreendida por ordem da Polícia Federal, junto com ‘A Mãe”, de Pudovkin, e ‘O Encouraçado Potemkin”, de Eisenstein”. Em 1966, “o filme foi liberado graças à intervenção de Rodrigo Mello Franco de Andrade”, e ficou sob os cuidados de Saulo, em sua casa.
Tudo indica, então, que no período em que Glauber poderia ter assistido a “Limite” (entre 1959 e 1963), a cópia estava praticamente inacessível. Mas podem, ainda, surgir provas de que Brutus, já doente (morreria em 1964) teria movido montanhas para mostrar o filme ao inquieto baiano.
Se a memória de Arleu Vale da Silva, companheiro de Mário Peixoto, definido no livro “Jogos de Armar” como “um filho”, estiver correta, Glauber não teria se encontrado com o cineasta fluminense no ano de 1958, nem em parte de 1959 (estaria, portanto, certa a datação da foto do restaurante Lucas – “Anos 1960”).
Na página 108 do livro de Emil de Castro, Arleu testemunha: “Em 1958, (Mário Peixoto) ficou muito tempo por lá (no Sítio do Morcego), talvez um ano e quatro meses”. E mais: “Em 1969, (ele) foi para Angra dos Reis. Foi mais uma vez ao sítio, voltou para Angra em 1971. Nesse ano vendeu o sítio para o americano Marvin”.
Claro que Saulo pode ter mostrado o filme a Glauber — no final dos anos 1950, um ilustre desconhecido — na ausência de Mário Peixoto. Mas, por que – em prefácio ao livro “Mário Peixoto – Escritos Sobre Cinema” (Aeroplano/Arquivo Mário Peixoto, 2000) — Saulo questiona “opinião” de Glauber (sobre o filme de Peixoto) no seguinte parágrafo: “E Limite é, afinal de contas – desse ponto de vista canhestro –, um filme burguês e de direita: Glauber Rocha dixit – mesmo sem ter visto o filme.
Ou seja, em 2000, quando “Limite” já não corria mais os graves riscos de outrora – fora salvo por restauro patrocinado pela Funarte — Saulo reafirmaria que Glauber não vira “Limite” (página32 de“Mário Peixoto – Escritos Sobre Cinema”).

***Resumindo matérias anteriores, publicadas na Revista de Cinema ou no Almanakito: