CINEMATECA URUGUAIA — TESOUROS DE CELULOIDE – INSTITUIÇÃO TRANSFORMOU-SE TRINCHEIRA
POLITICA EM PERÍODO DITATORIAL

CINEMATECA URUGUAIA
TESOUROS DE CELULÓIDE

Cinemateca Uruguaia tem oito mil sócios, 15 mil títulos em acervo e seis salas de exibição. E ainda produz festival internacional de filmes e mantém escola de cinema.

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
Estadão – Maio de 2001

Montevideo (2001) – O Uruguai, pequeno país platino de apenas três milhões de habitantes,mantém cinemateca digna de grande potência. Ano que vem (2002), no dia 21 de abril, a instituição fará 50 anos e terá muita história para contar. Afinal, houve um momento (na época do governo militar – 1973-1984) em que a Cinemateca Uruguaia transformou-se em ativo centro de reflexão e protesto contra o autoritarismo ditatorial.
Para se ter idéia da importância da instituição no período, basta lembrar que ela chegou a mobilizar 15 mil associados. Em suas sessões cotidianas e festivais de cinema, abarrotados, parte da sociedade civil, organizada, clamava pela redemocratização do país. Afinal, o Uruguai — ensinavam as escolas brasileiras — fora “a Suíça latino-americana” (antes que as ditaduras tomassem conta do Cone Sul).
A redemocratização chegou em 1984 e a Cinemateca Uruguaia perdeu sua função de trincheira político-cultural. Passou, então, a cuidar da preservação e difusão do cinema, razão primeira e essencial de sua criação. Hoje (2001), conta com oito mil associados, programa seis salas de exibição, realiza anualmente o Festival Internacional de Cinema de Montevidéu e mantém escola de cinema e vídeo. Para termo de comparação, vale colocá-la ao lado da Cinemateca Brasileira, criada há 52 anos por Paulo Emílio Salles Gomes e outros influentes intelectuais paulistas. Como a população brasileira é 60 vezes maior que a do Uruguai, nossa mais importante cinemateca teria a mesma capilaridade de sua similar uruguaia, se dispusesse de um circuito exibidor com dezenas de salas (algo como a soma do Espaço Unibanco de Cinema e circuito Estação Botafogo), realizasse um festival de alcance internacional, mantivesse uma escola de cinema e contasse com milhares de associados (algo em torno de 480 mil brasileiros).
Claro que estes dados não podem ser tomados de forma mecânica. O Brasil é um país de dimensões continentais. O Uruguai tem território reduzido (é menor que o estado do Rio Grande do Sul). Mesmo assim, causa espanto a vitalidade da instituição platina.

Manuel Martinez Carril, que dirige a Cinemateca Uruguaia, lembra que a

instituição nasceu sob os mesmos ideários e princípios que geraram a

Cinemateca Brasileira. “No final dos anos 40, início dos 50,

intelectuais latino-americanos sentiram a necessidade de criar

filmotecas capazes de preservar acervos que corriam grave risco de

desaparecerem. Aí nasceram as cinematecas Brasileira (em São Paulo), de

Buenos Aires e a nossa, tendo clubes de cinema como célula geradora”.

Hoje, a Cinemateca Brasileira é uma instituição pública (ligada ao

MinC). Outra poderosa cinemateca latino-americana, a da UNAN

(Universidade Nacional Autônoma do México), mantém-se como instituição

universitária. A Cinemateca Uruguaia, a exemplo da Cinemateca do

MAM-Rio, é instituição cultural sem fins lucrativos e sem vínculos com o

Estado. Funciona como se fosse uma cooperativa.

Cooperativismo –A força do movimento cooperativista no Uruguai explica,

na avaliação de Martinez Carril, o êxito do modelo adotado pela

Cinemateca Uruguaia. “43% do movimento econômico em nosso país

sustenta-se em cooperativas. Aqui temos cooperativas leiteiras, de

transporte e até bancos cooperativados”. Na área cultural, o modelo

triunfou principalmente no teatro (com os grupos El Galpon, El Circular,

La Gaviota, etc). Carril lembra que até escritores famosos como Mario

Benedetti, Juan Carlo Onetti e Eduardo Galeano experimentaram o modelo

de editoras cooperativadas.

“Por sermos do tamanho de um bairro de São Paulo” – brinca Martinez

Carril – “não despertamos a ganância das transnacionais. Daí

conseguirmos ir em frente no comando de instituição cooperativada que

cuida da preservação, difusão e ensino do cinema”.

Tesouros descobertos pelos uruguaios A Cinemateca Uruguaia zela, em

depósitos climatizados, por acervo de 15 mil títulos. A tradição

cinéfila da cidade de Montevidéu permitiu que o pequeno país acabasse

sendo depositário de cópias únicas de filmes como a chanchada Colégio de

Brotos; o drama Bodas de Fogo, protagonizado por Margarita Xirgu, uma

das atrizes preferidas de Garcia Lorca, e a recriação cinematográfica do

romance Três Tristes Tigres, do cubano Guillermo Cabrera Infante.

Colégio de Brotos (em fase de recuperação) é uma produção da Atlântida

Cinematográfica, dirigida por Carlos Manga. Hoje, ninguém despreza um

filme do veterano realizador. Mas em 1956, ano em que Manga dirigiu, a

toque de caixa, quatro títulos (além de Colégio de Brotos – Vamos com

Calma, Papai Fanfarrão e Garotas e Samba), chanchada era sinônimo de

coisa desprezível, cinema para público inculto. Dezenas de cópias de

cada filme eram feitas e exibidas até virar sucata. Ninguém – nem a

Atlântida – pensava em preservar suas produções. Por ironia do destino,

Colégio de Brotos foi parar no Uruguai. Fez carreira comercial e uma de

suas cópias encontrou abrigo no acervo da recém-criada Cinemateca

Uruguaia. É esta cópia que está para ser recuperada.

O caso de Bodas de Fogo e Três Tristes Tigres é diferente. Ambos tinham,

a respaldá-los, nomes de imenso prestígio cultural. No primeiro caso, a

atriz espanhola Margarita Xirgu, que trabalhara com Garcia Lorca e

fugira da Espanha quando os franquistas venceram a Guerra Civil

(1935-1939). Exilada na Argentina, ela protagonizou o filme que só

chegou à posteridade por causa do zelo uruguaio.

A história de Três Tristes Tigres guarda semelhanças com Bodas de Fogo.

O romance, escrito pelo cubano Cabrera Infante, chegou ao cinema em

1968, pelas mãos do chileno Raul Ruiz. Em 1973, com o triunfo do golpe

liderado por Pinochet, Ruiz correu para o exílio (radicou-se na França,

que o adotou). Todos os filmes dos cineastas que integravam a Chile

Filmes e sonharam com projeto cinematográfico sob os auspícios do

Governo Allende, foram indexados. As cópias de Três Tristes Tigres

desapareceram. Mais uma vez coube aos uruguaios salvar o segundo

longa-metragem do realizador chileno (hoje, famosíssimo no circuito

Cannes-Veneza, com filmes como As Três Coroas do Marinheiro, Genealogia

de Um Crime e O Tempo Redescoberto).

Como Colégio de Brotos, os raros Bodas de Fogo e Três Tristes Tigres

foram repatriados. A Cinemateca Uruguaia ganhou cópia (de cada um) para

seu acervo e argentinos e chilenos agradeceram, penhorados, os

magníficos presentes. A Cinemateca Uruguaia deve receber, também, cópia

de Colégio de Brotos, quando a chanchada ganhar nova vida. O mesmo se

deu com títulos de Georges Mélies (1861-1938), que não existiam na

França, e que foram cedidos pelos uruguaios, para alegria e entusiasmo

de Henri Langlois (1914-1977).

Fora do terreno da “raridade”, a Cinemateca Uruguaia conta com outras

tesouros. Um deles é Andrey Roublev, o magnífico filme de Andrey

Tarkowsky (1932-1986) e Solaris (do mesmo diretor), em versão integral.

Como dispõe de circuito de seis salas exibidoras, a instituição compra

filmes para lançar e, depois, vencido o prazo de exploração comercial,

os incorpora a seu acervo.

Martinez Carril lembra que a negociação não é simples, nem fácil. “A

questão dos direitos de autor é muito séria e nós a respeitamos”. Por

isto, “lutamos, há cinco anos, para obter, junto ao Governo Uruguaio,

nosso reconhecimento como sociedade cultural sem fins lucrativos”. As

negociações da Cinemateca com os produtores se dá através de contrato

que prevê a exibição do filme por período de três a cinco anos. Depois

disto, ele – ao invés de ser incinerado ou devolvido à empresa de origem

– se transforma em acervo a ser preservado. E daquele momento em diante

– salvo o estabelecimento de novo contrato – não pode mais ser exibido

comercialmente, nem circular fora do Uruguai. A não ser em cinematecas

que se guiam pelo rigoroso código da FIAF (Federação Internacional de Arquivos Fílmicos).