RICARDO DARÍN

O “Humphrey Bogart argentino” gosta de atuar em histórias de amor com fundo social, tem visão crítica da TV e projeto de filmar com Walter Salles

Maria do Rosário Caetano
Jornal BRASIL DE FATO 2012

Ricardo Darín, o mais famoso dos atores argentinos contemporâneos, chega às locadoras brasileiras com “Abutres”, sólido drama social dirigido por Pablo Trapero, e aguarda a hora de atuar em novo filme de Walter Salles. “Nunca me empenhei em fazer carreira internacional”, diz ele. “Não sou dos que sonham protagonizar um filme de Woody Allen ou Pedro Almodóvar”. Mas “trabalhar com Walter Salles é projeto que estamos amadurecemos juntos, há um par de anos”.
O astro latino-americano, uma espécie de “Humphrey Bogart portenho”, vem construindo carreira das mais sólidas. Aos 54 anos, soma quase 30 longas-metragens, muitos dos quais alcançaram enorme sucesso na Argentina e Espanha. E até no Brasil, cujo mercado exibidor é arredio a filmes hispano-americanos, ele vem alcançando boa projeção. Filmes protagonizados por ele, como “Nove Rainhas”, “Kamchatka”, “O Filho da Noiva” e “O Segredo dos Seus Olhos”, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, tiveram carreiras significativas em nossos cinemas e locadoras. “O Segredo dos Seus Olhos”, dirigido por Juan Jose Campanella, que vendeu mais de dois milhões de ingressos na Argentina, se aproximou dos 500 mil bilhetes no Brasil. Feito extraordinário, registre-se, para um filme hispano-americano.
“Abutres”, lançado nos cinemas e locadoras brasileiros pela Paris Filmes, conseguiu o que poucos filmes conseguem: motivar (e pautar) o Parlamento argentino, em moldes semelhantes ao que antes fizera o belga “Rosetta”, dos Irmãos Dardenne. Depois de ver o filme e acompanhar a polêmica que ele provocou, o Parlamento argentino discutiu mecanismos para coibir e disciplinar a ação dos “abutres”. E quem são os “caranchos” (“abutres”) no filme? São advogados que atraem vítimas de acidentes automobilístico s nas periferias de Buenos Aires, com intenção de obter altas indenizações. A parte substantiva do dinheiro fica em poder de verdadeira “máfia”, enquanto parentes dos mortos no trânsito ficam com parcela ínfima.
O filme de Pablo Trapero soma drama social e história de amor. É neste tipo de “híbrido” que Darín gosta de trabalhar. Sem nenhum preconceito contra o melodrama ele cultiva o prazer de protagonizar narrativas amorosas enriquecidas com ingredientes da vida social ou política de seu país.
Em “Abutres”, a trama se desenvolve em torno de dois “outsiders”: o experiente e aliciante “abutre” vivido por Darín e uma jovem médica viciada em morfina, interpretada por Martina Gusman (mulher do diretor). A este romance, os roteiristas agregaram ingredientes do cinema de ação e atmosfera de “film noir”. Aliás, todo mundo sabe que Darín é fã deste gênero. “O Sinal”, único filme em figura nos créditos na função de diretor, era um típico “noir”. Sua afinidade com o gênero, seu carisma e seu tipo físico lhe valeram o merecido aposto de “Humphrey Bogart argentino”.
Depois de “Abutres”, que participou do Festival de Cannes e vendeu quase um milhão de ingressos na Argentina, Darín protagonizou “Un Cuento Chino”. E mais uma vez, conseguiu dialogar com o público, alcançando quase um milhão de ingressos.
Na entrevista abaixo, Darín fala de “Abutres”, de sua imagem junto ao público, de sua relação com a TV e da recorrência temática, em filmes latino-americanos, das ditaduras implantadas em muitos de nossos países, nos anos 70 e 80.