CINE UNIÃO — UMA SALA DE 652 LUGARES PODE SER REATIVADA NUM MUNICIPIO (COROMANDEL-MG) DE 28 MIL HABITANTES?

*CINE UNIÃO – COROMANDEL – MG

Uma sala de 652 lugares num pequeno município mineiro

Por Maria do Rosário Caetano
Parece inexorável o destino dos cinemas de cidades interioranas. Em recente edição do “Boletim Filme B”, obrigatório banco de dados sobre o mercado de cinema no país, o editor Paulo Sérgio Almeida lembrava que só 8% dos municípios brasileiros contam com salas exibidoras e que tal situação não deve sofrer alteração. Afinal, dos 5.570 municípios, 95% têm menos de 100 mil habitantes. Neles reside(m) 45% da população brasileira. Pela análise do “Filme B”, mostra-se inviável, do ponto de vista empresarial, manter cinema lucrativo em cidade pequena.

Depois da leitura semanal do “Boletim”, compreendi que tornaram-se, ainda menores, as chances do Cine União, de minha cidade natal – Coromandel-MG, município do Alto Paranaíba, de 28 mil habitantes – ser reativado. Ele está fechado há muitos anos (décadas). Se um dia renascer, será, decerto, como centro cultural. Ou, preservada a fachada, como supermercado, loja, salão de baile ou, possibilidade mais costumeira, como igreja evangélica (no terreno dos templos católicos, Coromandel conta com duas igrejas, uma, a de Nossa Senhora de Santana, bem antiga e ligada às origens do povoado, e outra mais, digamos, moderna (do final dos anos 1960).

O Cine União, inaugurado em 1957 (ou 1958?), nasceu em município que somava, no perímetro urbano e na zona rural, menos de 15 mil habitantes. E tinha (tem) capacidade para 652 pessoas.

Só recentemente tomei conhecimento de importante monografia – escrita como trabalho de finalização de curso de História, na UFU – Universidade Federal de Uberlândia – por Carina Costa de Resende, que o apresentou em simpósio da ANPUH (Associação Nacional de História). Coromandelense (e neta de um ramos dos fundadores do Cine União), ela estudou “Os Espaços de Sociabilidade no Interior das Minas Gerais – Coromandel 1958-1985”.

A pesquisadora investigou o papel do cinema (o Cine União) e de outros espaços (o Juca’s Bar, os clubes recreativos, os estádios – modestos campos – onde jogavam o Maracanã Esporte Clube e o Coromandel Esporte Clube) na vida de gerações de coromandelenses. Quem quiser conhecer o trabalho da pesquisadora, deve consultar a internet (ele está disponibilizado pela Universidade Federal de Uberlândia).

*****Abaixo, transcrevo (com pequenas alterações), matéria sobre o Cine União, cinema que frequentei dos 3 aos 15 anos, em minha cidade natal, Coromandel. Inaugurado no final dos anos 50, quando os cinemas eram mesmo “a maior diversão” — a TV ainda não ganhara a capilaridade nacional da década de 70 — ele foi o espaço de formação cultural e afetiva de muitas gerações de coromandelenses, fossem da zona rural ou do perímetro urbano.

Hoje me coloco a pensar: o que levou os irmãos Caetano e Geraldo Alberto de Figueiredo, esse conhecido como Geraldo Caetano, nascidos e criados “na roça”, a ter a ideia de construir, num município de menos de 15 mil habitantes, uma sala de cinema com 652 lugares? Não sei.

Em 1981, conversei com Geraldo Caetano, meu pai, sobre as origens do Cine União, em busca de subsídios para matéria que escrevi para o jornal “Carabandela”, que editei com amigos coromandelenses. Entre eles, a colega dos cursos primário e ginasial Dione Maria Peres, que mais tarde se elegeria prefeita da cidade por três (ou quatro?) gestões.

De minha conversa com Geraldo Caetano, aproveitei duas perguntas que me pareceram, na ocasião, essenciais. Elas estão no texto abaixo.

Texto publicado no jornal “Carabandela”,

Número 2, de abril de 1981 (portanto, há exatos 40 anos)

CINE UNIÃO: 24 ANOS

A SERVIÇO DA CIDADE

Por Maria do Rosário Caetano

O Cine União nasceu em 16 de fevereiro de 1957, sem grandes alardes, sem festa inaugural, sem nada de excepcional. Um filme foi escolhido para inaugurá-lo — “A Morte Ronda o Espetáculo” (James E. Grandt, 1954) — e a curiosa comunidade coromandelense foi conhecer aquele enorme cinema, capaz de alojar uma plateia de 652 pessoas em sua sala principal e no seu (meio) primeiro andar, que foi logo apelidado de poleiro. Os primeiros operadores (projecionistas) do cinema foram os senhores Abelardo Rocha Mundim (Sr. Ladi) e Miguel Araújo, que inauguraram um sofisticado equipamento de marca Philips, estéreo, para 35 milímetros. Antes do Cine União, o cinema chegava a Coromandel graças ao empreendimento de Teófilo Rodrigues, que explorava uma pequena sala, situada pouco acima do prédio onde hoje está instalado o Fórum.
A idéia de criar o novo cinema partiu de dois irmãos: Caetano e Geraldo Alberto de Figueiredo, recém-chegados da Zona Rural e preocupados em desenvolver atividade empresarial na cidade, para onde haviam se mudado dois anos antes. A obra começou. De Patrocínio, município vizinho, veio um construtor. As despesas com material de construção, equipamento, pagamento de construtores e pedreiros iam crescendo. Caetano Alberto de Figueiredo, o mais velho dos dois irmãos, resolveu investir seu capital na compra de uma fazenda e, por isso, vendeu sua parte para os irmãos Alírio e Joaquim Pena.
Geraldo Caetano (como era conhecido Geraldo Alberto de Figueiredo) lembra que “durante um ano, a obra ficou em andamento”. Ao seu término, com a compra dos projetores 35 milímetros, “o orçamento ultrapassou os 4 mil cruzeiros”. O que significa isso hoje? “É difícil prever”, lembra ele, “devido aos índices de inflação, que variaram muito nesses mais de 23 anos”.
Carabandela — O que os motivou a construir o cinema no centro da cidade?
Geraldo Caetano — Bem, naquele tempo ali não era o centro da cidade. Aliás, não havia nenhuma construção naquele quarteirão, que hoje compõe a área do cinema. Naquela época havia, onde hoje está a Loja do Primo, uma árvore onde os cavaleiros, que vinham da Zona Rural, amarravam seus cavalos. O resto do espaço era uma espécie de praça, só que sem nenhuma urbanização. Foi aí que o prefeito de então, o Sr. Antônio Matias Pereira, resolveu lotear a área. Para o cinema couberam dois lotes. Ao mesmo tempo, varias casas começaram a ser construídas, como a do Enock Pena, de Jeová Pena, do Sr. Neftali e Dona Durica.
Carabandela — Onde os senhores buscaram o material que integra o cinema?
Geraldo Caetano — Os 125 mil tijolos gastos para levantar a obra foram feitos numa olaria que eu tinha no fundo da minha casa, onde hoje funciona a Cerâmica, ali próximo ao Estádio do Coromandel Esporte Clube. As máquinas foram compradas em São Paulo. Lá, também, compramos o motor que fornecia energia elétrica para o cinema, já que a Usina Velha, que abastecia a cidade até a chegada da Cemig (Centrais Elétricas de MG), não era suficiente.
A falta de um projeto arquitetônico para o cinema gerou algumas deformações. Até meados da década de 1960, o Cine União não contava com banheiros femininos e masculinos. Eram mistos. Mas esse pequeno problema foi resolvido. E salvo estes pequenos defeitos, o que se há para destacar é que Coromandel possui uma das melhores casas de projeção cinematográfica do interior do país. Sem dúvida nenhuma, um dos maiores patrimônios culturais do município.