“EL VERDUGO”, COMÉDIA NEGRA DE LUIS GARCIA BERLANGA (ESPANHA-ITALIA)

EL VERDUGO (1963)

Comédia de humor negro espanhola, dirigida por Berlanga, prova que o gênero pode gerar obras inesquecíveis

Maria do Rosário Caetano

Houve um momento em que pensei que morreria sem conhecer “Il Sorpasso” (“Aquele Que Sabe Viver”, de Dino Risi, 1962) e “El Verdugo” (1963), do espanhol Luis García Berlanga.
A célebre comédia italiana, conheci uns dezoito ou dezenove anos atrás, depois de epopeia, que narrarei no final dessas lembranças. Já “O Carrasco” espanhol, só vim a conhecer ontem (dois de março de 2021).
Corri, alucinada, atrás de “Il Sorpasso”, porque Ettore Scola contara, num Festival de Havana, que estava escrevendo (sob inspiração do mais famoso dos filmes de Dino Risi) roteiro sobre as andanças de Ernesto Guevara de la Serna, o futuro Che, pela América Latina (quem fez o filme, sem roteiro de Scola, foi o brasileiro Walter Salles – “Diários de Motocicleta”, 2004).
Já o desejo de ver “El Verdugo” surgiu, nos meus tempos brasilienses, quando assisti a uma Mostra de Cinema Espanhol e conheci a comédia “Bem-Vindo, Mr. Marshall” (1953), de Berlanga. E, também, “A Morte de Um Ciclista” (Juan-Antonio Bardem, 1954). Como sempre faço, pesquisei a trajetória dos dois cineastas. O tempo passou e me esqueci de “El Verdugo”…

Afinal, assistir a um filme estrangeiro, espanhol, no caso, não era fácil nos tempos pré-VHS-DVD. Continua não sendo fácil. Como bem observou Inácio Araújo, em recente (e obrigatório) artigo na Ilustrada, ver filmes da era muda no streaming não é fácil. Eu, em minha obsessiva cruzada pelo cinema de “outras geografias”, acrescento: nem filmes espanhóis, nem argentinos, nem peruanos, cubanos, gregos, japoneses, chineses, escandinavos, indianos, coreanos, africanos, portugueses, etc. No caso russo, temos uma fresta aberta pela turma do CPC-UMES-Filmes, que já lançou mais de 50 filmes dos estúdios Mosfilm em DVD e tem promovido concorridas sessões em seu cineclube digital (no YouTube). O trabalho que esse “pequeno exército de Brancaleone” desenvolve hoje é similar ao desenvolvid o, outrora, pelo incansável Cosme Alves Netto.

A França, registre-se, é o foco de resistência a esse estado das coisas. Continua desenvolvendo políticas públicas para colocar seu cinema nas telas do mundo. No Brasil, além do Festival Varilux e de mostras especiais, há a Reserva Cultural, com suas salas paulistanas e niteroienses. Mesmo assim, o desafio é gigantesco.

A situação (ver filmes de “outras geografias”) torna-se ainda mais difícil quando o foco recai sobre produções “antigas” ou em preto-e-branco. Vivemos (há quase cem anos) sob hegemonia da produção anglo-saxã, principalmente a contemporânea, em especial a dos EUA. E tal hegemonia se dá nas salas de cinema, na TV e no streaming.

Vale destacar, aqui, cirúrgico trecho de artigo do ótimo crítico norte-americano, A.O. Scott, publicado no NYT e, depois, no Estadão de 30 de janeiro último. Diz Scott: “A Academia (de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood) defende um imperialismo amigável e inclusivo, construído sobre um alegre consenso”.

Ao contrário de festivais como Cannes, Veneza, Berlim (entre tantos outros), o foco não recai sobre o cinema do mundo, mas sim sobre o cinema anglo-saxão, abrindo frestas para outras cinematografias. Só nos últimos anos alguns passos foram dados. Mas o desafio maior, hoje, continua sendo a abertura de espaços para o cinema afro-americano (o que é notável e justíssimo). Para um acolhimento verdadeiro ao cinema do mundo, há muito ainda por se fazer.

Voltemos ao “Verdugo”, de Berlanga, cineasta que frequentou, na juventude, as falanges franquistas (lutou, na Segunda Guerra, contra os soviéticos, do lado nazi-fascista) e, depois, desistiu do Generalíssimo Francisco Franco e de sua longeva ditadura. Seu “Carrasco” enfrentou graves problemas com a Censura.

Se vivo fosse, Berlanga faria cem anos em junho próximo. Por isso, a Espanha está homenageando este diretor que, ao lado de J.A. Bardem (creio que sem parentesco com o ator Javier Bardem), ajudou no “renascimento do cinema espanhol”.

A cerimônia dos Prêmios Goya, o “cabeçudo” que reconhece o melhor da produção anual castelhana, aconteceria em Valência (nesse sábado, 6 de março), terra natal de Berlanga. Mas, por causa da pandemia, a cerimônia será virtual e, mais uma vez, acontecerá em Málaga, terra de Picasso e Banderas. Mas ano que vem, promete a Academia Espanhola, Valência sediará a entrega dos Goya e e promoverá significativo encerramento festivo do Ano Berlanga.

Para construir “O Verdugo”, o cineasta espanhol buscou parceria com os maiores praticantes da comédia social planetária – os italianos. O protagonista do filme é Nino Manfredi (1921-2004), um agente funerário que, pelas trapaças da sorte, poderá (ou não) transformar-se em um carrasco. Outro ator que brilha na comédia espanhola, embora o papel seja pequeno, é Guido Alberti (que interpreta um produtor no “Oito e Meio”, de Fellini). No filme de Berlanga, ele interpreta um chefe de polícia. Na fotografia, o genial Tonino delli Coli (1923-2005), que assinou imagens de filmes de Pasolini, Fellini, Sergio Leone, Louis Malle e muitos outros.

Na escritura do afiadíssimo (e sintético) roteiro, Luis García Berlanga contou com o talento de Rafael Azcona, um dos maiores de seu país, colaborador de Carlos Saura e do italiano Marco Ferreri. Juntos construíram comédia corrosiva, que soma temas sociais (o sonho dos pequenos funcionários de terem casa própria) e políticos (o poder do Estado em executar a pena de morte, no caso espanhol, pelo “garrote vil”).

Num dos melhores momentos do filme, o velho verdugo (o excelente ator José Isbert) comenta com o futuro genro (Nino Manfredi), que o método espanhol de prática da pena capital é até “brando”. Os franceses usavam a guilhotina… Pede ao rapaz que coloque a mão em aparelho elétrico, que lhe causará choque. José Luís García (nome do futuro genro) se nega à experiência. Pois saiba — explica o verdugo — que a descarga elétrica despejada em um condenado à morte nos EUA é infinitamente mais potente.

“El Verdugo” traz, também, uma história de amor entre dois rejeitados: quem quer casar-se com a filha de um carrasco? Esse é dilema da bela Carmen (Emma Penella). E quem quer ser esposa de um modesto agente funerário? Essa é a causa do infortúnio do humilde José Luis. Depois de “almoçar antes da hora”, o personagem de Nino Manfredi será obrigado, pelo verdugo, a desposar a moça, já com barriga de seis meses.

A cerimônia de casamento constituirá outro dos mais reveladores momentos dessa comédia obrigatória. Todo mundo sabe o peso financeiro das cerimônias de luxo para os cofres da Igreja. Quem tem grana transforma o templo em um palácio de flores e luzes. Como Carmen e José se casarão depois de boda milionária, terão que disputar espaço com funcionários que arrancam tapetes, guirlandas e apagam dezenas de velas. Do candelabro postado no altar, atrás do padre oficiante, só restará uma pequena chama.

Outro magnífico contraste estabelecido pelo filme se dá na parte final: um passeio (“lua de mel tardia” para o casal Carmen e José) levará o verdugo aposentado, sua filha, netinho e genro a Palma de Majorca, espaço de veraneio do jet-set. Lá, naquele paraíso ensolarado, a vida de José Luis Rodriguez, o agente funerário, será decidida.

Que uma instituição brasileira – o CineSesc, o CCBB, o CCSP? – organize uma mostra que reúna as grandes comédias italianas e espanholas (nesse caso, com “O Verdugo”, mostrará o feliz diálogo entre Espanha e Itália e, de quebra, homenageará o Centenário de Luis García Berlanga”).

****Além dos Prêmios Goya, quem voltou a chamar minha atenção sobre “El Verdugo” foi o professor da UFPB e cineasta (“Trago Seu Amor de Volta – Mesmo Que Ele Não Queira”) Bertrand Lira. Em excelente texto sobre “Ana e os Lobos” (Carlos Saura, 1973), publicado na internet, Bertrand evocou Festival de Cinema Espanhol exibido, no streaming, pelo Belas Artes à la Carte. “El Verdugo” era uma das atrações. A Espanha está prestando, pois, tributo a um de seus mais importantes realizadores.

**** A busca por “Il Sorpasso” mostrou-se, a mim, infrutífera por longos anos. Em 2000, depois do Festival de Veneza, Luiz Zanin e eu passamos uma semana em Roma. Com a missão de descobrir um VHS do filme de Dino Risi, custasse o que custasse. Rodamos dezenas de lojas de discos e fitas de vídeo. Nada. Ninguém sabia de filme se tratava. Desesperada, com a viagem chegando ao fim, fomos visitar a Cinemateca Italiana. Sem noção, perguntei se não poderiam fazer uma sessão do filme para nós, naquele mesmo dia, pois teríamos que regressar ao Brasil. A funcionária nos olhou, compreensiva, mas explicou que sessões especiais exigiam trâmites complicados e, em caso de aprovação, agendamento com imensa antecedência.

Em nosso último dia em Roma, fomos tomar sorvete no Campo di Fiori. Percebemos, então, que havia uma banquinha, dessas de partidos políticos de esquerda (no caso, o Partito della Sinistra, substituto do outrora poderoso PCI – Partido Comunista Italiano) vendendo livros e fitas VHS. Pois, o destino colaborou comigo no derradeiro dia em solo italiano: entre umas 30 fitas, encontramos o VHS de “Il Sorpasso” (a ultrapassagem), a preço de banana.

Quando chegamos ao Brasil, claro, sabíamos que a fita não era compatível com nossos aparelhos de videocassete. Com ajuda de Walter Salles (e intermediação de Anna Luiza Muller) conseguimos que a tal fita fosse convertida ao “sistema” brasileiro. Então, conheci “Aquele que Sabe Viver”, a magnífica comédia protagonizada por Vittorio Gazman e Jean-Louis Trintignant. E, alguns anos depois, o filme de Dino Risi seria lançado em DVD, no Brasil. (E Carlão Reichenbach, um dia, nos revelaria a existência de uma aparelho de videocassete que “lia” filmes de quase todas as regiões do mundo. Mas essa é outra história…)

. O CARRASCO (El Verdugo) – Espanha-Itália, 1963. Direção de Luis García Berlanga. Roteiro de Berlanga e Rafael Azcona. Com Nino Manfredi, Emma Penella, José Isbert, Guido Alberti e muitos outros. Fotografia de Tonino delli Coli. Duração: 91 minutos.