BREVES REFLEXÕES SOBRE A SÉRIE PERNAMBUCANA “PALAVRA CRITICA” – OS FILMES PREFERIDOS DE DOZE CRITICOS

PALAVRA CRITICA/SÉRIE TV

Série recifense revela
trajetórias críticas e discute a reflexão cinematográfica

Maria do Rosário Caetano,
no Blog Almanakito (11-02-2021)

Palavra Crítica”, série dirigida por Tiago Leitão, apresenta, nesses meses de fevereiro e março, seus doze episódios. E o faz para os espectadores da TV Universitária do Recife (exibições semanais, às terças-feiras, 20h30). Em maio deve chegar à programação do Canal Curta!
O programa mobilizou críticas e críticos de vários pontos do país, com destaque – o que é natural – para nomes dedicados à reflexão cinematográfica na região Nordeste. Em especial, Pernambuco, estado que conta com produção das mais qualificadas (desde “Baile Perfumado” até “Bacurau” e “Carro-Rei”) e com nomes preparados para o exercício da crítica, seja na imprensa escrita, na internet ou nas universidades. Foi assim – com ênfase regional – que se produziu a série “Críticos”, dirigida pelo gaúcho Luiz Alberto Cassol. Este cineasta e cineclubista, radicado em Porto Alegre, ouviu dezenas de críticos espalhados por várias cidades do território brasileiro e, como “Palavra Crítica” abriu espaço significativo para a crítica de seu Estado.
Tiago Leitão e sua equipe conversaram com os pernambucanos Carol Almeida e Ângela Prysthon, ambas, além de críticas, professoras universitárias e pesquisadoras, com Celso Marconi, espantosa e felizmente lúcido aos 90 anos; Ernesto Barros, crítico e programador de cinema de arte e ensaio; Alexandre Figueiroa e Luiz Joaquim (também professores universitários).
A Paraíba se fez representar pelo crítico e professor (de Literatura, no caso) João Batista Brito, que mantém-se, aos 74 anos, incansável no ofício crítico exercendo-o no semanário Correio das Artes, de João Pessoa. O Ceará marca presença com Marcelo Ikeda, carioca de nascimento, mas radicado em Fortaleza, onde exerce os ofícios de professor universitário, cineasta e crítico atuante (na internet).
Do Sudeste-Sul, a série mobilizou quatro críticos – Heitor Augusto, José Geraldo Couto, Marcelo Lyra e Luiz Zanin Oricchio (*). O quarteto realizou suas gravações, um de cada vez, em estúdio montado no Recife.
Todos os profissionais dedicados à crítica, seja ela jornalística ou ensaístico-universitária, falaram de suas primeiras memórias do cinema, de cena (ou imagem) marcante, do filme preferido (ver o escolhido de cada um dos críticos em tabela abaixo) e, claro, de seu método de avaliação cinematográfica.
A série gaúcha de Luiz Alberto Cassol construiu-se com montagem acelerada e vários críticos opinando sobre diversos aspectos de seu ofício, um após o outro, num mesmo episódio. Já a série de Tiago Leitão (produzida por Mannu Costa) preferiu que cada crítico convidado falasse (sozinho e com calma) sobre memórias e métodos, sem estabelecer contrapontos (vozes mais – ou menos – dissonantes) num mesmo programa. Nos dois casos, cada episódio dura perto de 30 minutos.
Nenhuma das duas séries, a gaúcha e a pernambucana, utilizou trechos de filmes citados (nem mesmo still, ou fotos de cena). E por que? Por causa dos altíssimos custos de direitos autorais, bem acima dos orçamentos que cada uma delas conseguiu viabilizar.
Os doze episódios de “Palavra Crítica” se deixam assistir, mesmo assim, com prazer. O cinéfilo conhecerá o perfil de cada convidado. Alguns deles defenderão com brilho e clareza suas concepções do exercício crítico. Para exemplificar, recorro a (apenas) três exemplos: Heitor Augusto, Marcelo Ikeda e João Batista Brito. O paraibano consegue falar da “paralepse” (uma das mais recorrentes formas de exposição do ponto-de-vista do narrador numa obra de arte) sem nenhum pedantismo. Aliás, a coloquialidade é a marca de todos os programas.
A série recifense abriu espaço para vozes femininas, homoafetivas e contou com a qualificadíssima presença black de Heitor Augusto, brilhante (como dito acima) em sua participação. E que foi o único a escolher, como melhor filme, obra de realizador negro, o norte-americano Marlon Riggs (1957-1994).
As duas mulheres – Carol Almeida e Ângela Prysthon – destacaram, em sua escolhas, a força feminina no cinema. A primeira selecionou o filme mais importante (“Jeanne Dielman”) da cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015), nome responsável – como sua conterrânea Agnes Varda – por algumas das mais importantes realizações femininas do mundo cinematográfico. Ângela escolheu um diretor, o indiano Satyajit Ray, mas destacou um título (“Charaluta”) protagonizado por uma mulher, “a esposa solitária”.
Ao evocar memórias de infância, os entrevistados citaram seriados ou filmes de aventura e entretenimento, em sua quase totalidade, obras norte-americanas. O cinema brasileiro foi pouco lembrado e nem as chanchadas de Grande Otelo & Oscarito mereceram uma lembrança que fosse. O cinema latino-americano de fala hispânica foi outra imensa ausência. O cinema russo-soviético ganhou brevíssimas menções de um ou outro crítico. Espaço mínimo tiveram também cinematografias poderosas como a japonesa e a chinesa.
No placar dos filmes mais amados pelos doze críticos, os EUA emplacaram, com seu poderoso cinema, cinco vagas. A Europa, quatro, O Brasil e a Ásia, um cada. O voto de José Geraldo Couto uniu uma produção norte-americana a um diretor italiano (Antonioni).

Para finalizar estas considerações apressadas, duas observações:
1. “Palavra Crítica” ganharia muito se pudesse ilustrar, mesmo que seja com fotos de cena, alguns momentos de sua narrativa. E também se recorresse a letreiros que correm na tela à moda Vertov (ou Godard). Se os nomes de diretores (e seus filmes) citados por Heitor Augusto viessem acompanhados de fotos ou ágeis letreiros correndo pela telinha, a fruição seria bem mais potente. Quem sabe, em edição futura, com o rico material colhido, a série venha a ganhar uma reedição mais, digamos, cinematográfica. O recurso da animação, força imagética usada por Tiago Leitão e equipe, deu o dinamismo possível a cada episódio. Mas com imagens em movimento (ou fotos) o prazer de fruição seria infinitamente maior.
2. (*) Como companheira de Luiz Fernando Zanin Oricchio, não sou a pessoa mais indicada para comentar a série. Mas, feito o registro, cumpro meu dever ético e acrescento que assisti aos doze episódios com renovado interesse. E coloco a participação de Zanin — primeiro presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema, de 2011 a 2015) – escolhida para abrir a série, como um dos bons momentos do programa. O crítico paulistano leva muito a sério seu ofício, é concentrado, lê sem descanso e vê filmes e mais filmes, todos os dias. E planeja, há tempos, um livro sobre a Crítica Cinematográfica. Sei que ele coloca em seu blog na internet (Portal Estadão), com certa frequência, textos com os quais reflete sobre seu ofício. Confesso nunca ter lido nenhum deles. P refiro esperar o livro (risos). * Segue, pois, a lista dos filmes preferidos dos doze críticos mobilizados pela série pernambucana.

* O FILME PREFERIDO:

. Ângela Prysthon (PE) – “A Esposa Solitária” (Charulata), de Satyajit Ray (Índia, 1964)

. Carol Almeida (PE) – “Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce 1080 Bruxelles”, de Chantal Akerman (Bélgica, 1975)

. Celso Marconi (PE) – “Rocco e Seus Irmãos”, de Luchino Visconti (Itália, 1960)

. Marcelo Ikeda (CE) – “Não Amarás, de Krzysztof Kieslowski (Polônia, 1988)

. Luiz Zanin Oricchio – “Oito e Meio”, de Federico Fellini (Itália, 1963)

. Alexandre Figueiroa (PE) – “Terra em Transe”, de Glauber Rocha (Brasil, 1967)

. Heitor Augusto (SP) – “Línguas Desatadas”, de Marlon Riggs (EUA, 1989).

. José Geraldo Couto (SC) – “Passageiro, Profissão Repórter”, de Michelangelo Antonioni (EUA, 1975)

. João Batista Brito (PB) – “Se Meu Apartamento Falasse”, de Billy Wilder (EUA, 1960)

. Ernesto Barros (PE) – “Videodrome”, de David Cronenberg (EUA, 1983)

. Luiz Joaquim (PE) – “Blade Runner, o Caçador de Androides”, de (EUA, 1982)

. Marcelo Lyra (SP) – “Rastros de Ódio”, de John Ford (EUA, 1956)