+ VERISSIMO ILUMINADO+ São BADEN POWELL (Biografia reeditada, hoje, na capa da Ilustrada)

+ NA REVISTA
DE CINEMA:
LINDUARTE NORONHA É O UNICO AUTOR DO ROTEIRO DE ARUANDA?? O FILME SE PASSA EM DOIS TEMPOS HISÓRICOS???HÁ FICÇÃO EM “ARUANDA” (Silvio Da-Rin) + A COMPREENSÃO DE CARLOS ALBERTO MATTOS.

*****VERISSIMO

******Meu amigo Giba Assis Brasil,

devoto (como eu) de Nossa Senhora do Contexto, a santa criada por Verissimo, me manda a coluna do mestre dos mestres, com uma observação: “Sempre o contexto”. Desfrutem desse texto sintético e poderoso do grande escritor gaúcho.

Bjs rô

CABELOS AZUIS
Luis Fernando Verissimo
Zero Hora, 07/01/2021
Quando as histórias em quadrinhos começaram a ser impressas a cores notou-se que seus heróis ou tinham cabelos loiros, ou, estranhamente, cabelos azuis. Vez que outra aparecia alguém de cabelo preto nas historinhas coloridas, mas era raro. O comum era o azul.

Não me lembro de, garoto, dar muita atenção ao fato. Era natural que, além dos seus poderes, os super-heróis também pudessem escolher a cor dos seus cabelos, inclusive o azul, por que não? Só anos mais tarde me dei conta: cabelos pretos significavam que o personagem era negro ou latino. Amarelo ou azul, que o personagem era indiscutivelmente branco. Naquele tempo, na América, a distinção racial era importante. Continua sendo, mas confesso que sei pouco sobre o que os super-heróis de hoje têm na cabeça, e de que cor. Talvez ainda seja o azul.

Corte rápido. Li que no Ano-Novo o céu de Trancoso, na Bahia, se encheu de aviões particulares querendo descer, a ponto de criar um problema para as autoridades da Aeronáutica. Que, sem entender de hierarquia social e da lista da Forbes, não sabia a quem dar prioridade para o pouso. Felizmente não houve uma tragédia, que eliminaria boa parte do PIB nacional. O pessoal chegava a Trancoso para se divertir em várias aglomerações e quem aparecia com máscara era vaiado e chamado de maricas. As festas atravessaram a noite de ano-bom e qualquer um podia entrar, desde que mostrasse prova de ter sonegado impostos no ano que acabava e de saber a senha da elite brasileira. Que – isto pouca gente sabe – é “cabelos azuis”.

A senha não significa que a elite brasileira tenha cabelos permanentemente azuis que a identificam e garantem seus privilégios. Os cabelos azuis do código dos ricos significam o mesmo que significavam nas histórias em quadrinhos: são fronteiras bem definidas e intransponíveis de classe. E se você protestar que essas fronteiras protegem uma elite criminosa na sua inconsciência, vai ver é por inveja das festas que eles dão. Sem falar nos aviões particulares.

*****NA REVISTA DE CINEMA:
LINDUARTE NORONHA É O ÚNICO ROTEIRISTA DE “ARUANDA”????? + ARUANDA SE PASSA EM DOIS TEMPOS HISTÓRICOS?????? HÁ SEQUÊNCIA FICCIONAL EM ARUANDA??? (SILVIO DA-RIN)

http://revistadecinema.com.br/2021/01/linduarte-noronha-e-o-unico-autor-do-roteiro-de-aruanda/

******PARA CARLOS

ALBERTO MATTOS:

A grande sacada de “Aruanda”, criada com tamanha naturalidade que seu autor (e colaboradores) não costumam enfatizar, é justamente esse salto no tempo e no estatuto do filme. A primeira parte é narrada como se as imagens que vemos se passassem no século XIX (ou seja, a encenação de um tempo histórico passado). De repente, sem que nada mude no domínio visual, Zé Bento não é mais um personagem “representado” por um ator, mas o próprio Zé Bento com sua família em narrativa documental. Vladimir tem razão ao dizer que a ideia era somente mostrar a permanência da situação, mas a mudança de registro a meio caminho significou uma inovação no documentário brasileiro que poucos apontam e reconhecem.