JAY LEYDA, DISCÍPULO DE EISENSTEIN E AUTOR DE “KINO”, NAS LEMBRANÇAS DE ISMAIL XAVIER E JOÃO LUIZ VIEIRA

JAY LEYDA (III)
CINEMA RUSSO E SOVIETICO

JAY LEYDA,
DISCÍPULO
DE EISENSTEIN E PROFESSOR DE ISMAIL
XAVIER E JOÃO
LUIZ VIEIRA

* JAY LEYDA NAS MEMÓRIAS

DE JOÃO LUIZ VIEIRA

*Centenário de

Jay Leyda (*)

Por João Luiz Vieira

Há muito o que lembrar e comemorar no centenário de nascimento deste verdadeiro scholar, pesquisador, escritor e professor, que, como poucos, marcou a vida de estudantes que tiveram a sorte de passar por suas aulas, interesses e convivência—sendo o primeiro brasileiro o professor Ismail Xavier, entre 1975 e 1977.

No outono de 77, quando iniciei meu doutorado em Estudos Cinematográficos na New York University, matriculei-me, já no primeiro ano, nos seminários especiais que Jay—era assim que, carinhosamente a ele nos dirigíamos—coordenava em torno da filmografia de D.W.Griffith no período Biograph, ávido pelo contato com aquela figura de cabelos brancos, perspicazes e atentos olhos azuis, sorridente, simpático, simples e elegante num terno sempre escuro. Além de Ismail, faziam parte desse grupo, os então doutorandos Tom Gunning, Charles Musser, e, na minha turma, Steven Higgins, Elaine Mancini e Cooper Graham.

Eu, claro, senti-me privilegiado por conhecer o ex-aluno, assistente e tradutor de Eisenstein, de quem já conhecia, em inglês, os seminais “Film Form” e “Film Sense”, além das versões por ele editadas para os inacabados projetos do cineasta soviético “Que Viva México” e “O Prado Bejin”, cujas cópias frequentemente eram exibidas na Cinemateca do MAM. Também dele já conhecia o livro “Kino”, monumental história do cinema russo e soviético publicada em 1960, além do prefácio de “O processo de criação no cinema”, de John Howard Lawson, editado em português pela Civilização Brasileira, leitura obrigatória de uma geração que começava a se interessar pela teoria e crítica de cinema nos anos 60.

De uma generosidade exemplar, Jay era, também, admirado por sua história e coragem, que, na contramão ideológica de seu país, transitou pela União Soviética nos anos 30, viveu e trabalhou na China na segunda metade dos anos 50 e início dos 60, período em que, entre outros trabalhos e pesquisas, também escreveu uma inédita e essencial história do cinema chinês intitulada “Dianying/Electric Shadows”, publicada em 1972. Mas foi em Moscou que ele conheceu e se casou com uma dançarina chinesa, Si-Lan Chen, com quem viveu até o fim. De Moscou, em 1936, além da esposa, Leyda também trouxe na bagagem a única cópia completa existente de “Potemkin”.

Seu interesse pela guarda de materiais fílmicos e pela documentação contribuíram para a criação do Film Department do MoMA. Ajudou a criar toda uma consciência em torno da preservação de documentos audiovisuais na relação com a História e o papel das cinematecas na cultura visual, militância que exerceu ao longo de sua vida, especialmente nas atividades docentes.

Mestre Jay Leyda surpreendia a todos, não só pela sua erudição, como pela extrema generosidade ao receber seus alunos, sempre com tempo, emprestando ou mesmo dando livros e textos, disponibilizando materiais de seu acervo pessoal. Era comum, mesmo quando poderia lançar mão de seu status de Prof. Emérito da NYU e realizar suas refeições no restaurante fechado no topo da Biblioteca Bobst, em Washington Square, encontrá-lo na fila comum dos refeitórios coletivos, em meio a alunos e funcionários.

Jay publicou o único estudo realizado até hoje sobre o que ele chamou de “filmes de compilação”, ou seja, genericamente, documentários que se utilizam de filmes de arquivo. Intitulado “Films Beget Films” (Filmes geram filmes), o livro apareceu em 1964 e faz a gênese dessa forma documental que se apropria de material pré-existente, em geral esquecido e encontrado descontextualizado num arquivo, mas que, pesquisado e editado, ganha nova recontextualização em resposta a demandas de natureza ideológica e de mercado. A ênfase colocada por Leyda nos sete capítulos que compõem essa pesquisa situa-se na inseparável relação do cinema com a História e a sociedade, especialmente em documentários sobre guerras e revoluções, destacando o papel pioneiro da cineasta Esther Schub. Creditada como a inventora do gênero ao realizar “A queda da dinastia Romanov”, em 1927, Schub pesquisou enorme quantidade de cinejornais do período 1912-1917, incluindo filmes domésticos da família do czar, editados no intuito de celebrar os dez anos da triunfante revolução soviética. O texto apresenta e questiona práticas de manipulação de material fílmico assentadas na certeza da suposta verdade documental, com observações precisas sobre o uso dessa estratégia no cinema ficcional (“Hiroshima, Mon Amour”, de Resnais, um exemplo).

Para além da atualidade de certas questões levantadas por Leyda, seu trabalho e pesquisa encontram ressonância hoje, especialmente num momento em que testemunhamos na cultura contemporânea, uma sensibilidade e um interesse por operações de memória social entre lembrança e esquecimento. E não apenas no documentário.

(João Luiz Vieira – Professor Titular do Departamento de Cinema e Vídeo e do Programa de Pós-graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense).

(*) – Texto publicado no catálogo do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, organizado, anualmente, por Amir Labaki (Abril de 2010).