JAY LEYDA, DISCÍPULO DEEISENSTEIN E AUTOR DE “KINO,
NAS LEMBRANÇAS DE ISMAIL
XAVIER E JOÃO LUIZ VIEIRA

JAY LEYDA (II)

CINEMA RUSSO E SOVIETICO

JAY LEYDA, DISCÍPULO

DE SERGEI EISENSTEIN E

PROFESSOR DE ISMAIL

XAVIER E JOÃO LUIZ VIEIRA

* MEMÓRIA DE JAY LEYDA

Por Ismail Xavier

Conheci Jay Leyda tão logo cheguei aos Estados Unidos para iniciar o meu doutorado em Estudos Cinematográficos na New York University em agosto de 1975. Do corpo docente da área de cinema, o único nome que eu conhecia era o dele, pois já tinha lido suas traduções dos textos de Eisenstein e o seu livro sobre história do cinema russo e soviético. Logo o procurei para um encontro para me situar melhor na relação com os professores e ir pensando na escolha de um orientador de tese. Ele me recebeu com uma enorme simpatia.

Percebendo meu perfil e meus interesses, observou que ele próprio não seria a melhor opção e me indicou como orientadora Annette Michelson que era pessoa muito próxima a ele. Partilhavam o interesse em Eisenstein e ela já havia publicado excelentes análises dos filmes dele e também de Dziga Vertov. Enfim, tinha um perfil que, segundo Jay, se ajustava melhor a minhas inquietações. Tinha toda razão.

Depois de um semestre em que conheci o trabalho de vários professores, ficou bem claro que Annette era a opção. E esta decisão teve um enorme papel na minha forma de pensar a relação entre o cinema e as artes visuais. Ela era uma conhecida crítica de arte com alta reputação, e também figura chave no pensamento sobre a vanguarda do cinema americano naquele momento, sendo muito próxima de cineastas como Jonas Mekas, Stan Brakhage, Hollis Frampton e Michael Snow, observando a sua relação com movimentos estéticos como o Action Painting, a arte conceitual e a Pop Art, bem como com o cinema de vanguarda dos anos 1920, em especial o surrealismo de Buñuel e o construtivismo de Eisenstein e Vertov.

Naquela conversa, Jay deixou claro que estava concentrado em pesquisa da história do early cinema (grosso modo, 1985-1908) e do impacto de D.W.Griffith na formação do cinema narrativo clássico. Um fantástico programa de trabalho que tive a felicidade de conhecer bem de perto quando segui, em 1976, o seminário que ele coordenava na NYU dentro do “Griffith Project”, polo de formação de um excelente grupo de historiadores daquele período, com destaque para Charles Musser e Tom Gunning, este sendo o mais importante dentre eles (Tom esteve aqui em São Paulo em 1994, quando deu palestras sobre suas pesquisas).

Nos encontros deste seminário sobre Griffith, Jay Leyda conduzia a discussão do grupo de uma forma que me lembrou o estilo de Paulo Emilio na informalidade, porém mais discreto e sempre de poucas palavras. Companheiros de geração, os dois se conheceram em Paris, nos anos 1950, quando Jay estava trabalhando na Cinemateca Francesa a convite de Henri Langlois. Paulo Emilio fazia sua pesquisa sobre Jean Vigo. Em nossa primeira conversa, esta curta relação de amizade entre os dois foi um dos temas, dentre as observações dele sobre sua experiência. Langlois, o diretor da Cinemateca, não lhe passava muitos encargos e parecia mais interessado na ponte com os arquivos russos que ele poderia ajudar a incrementar, facilitando os contatos tendo em vista sua experiência anterior e conhecimentos por lá. Isto lhe deu muito tempo livre, o que lhe permitiu completar a sua pesquisa e escrever Kino, história do cinema russo e soviético, publicado na Inglaterra em 1960, para o qual ele reunira material desde sua estadia em Moscou na primeira metade dos anos 1930, quando foi estudar com Eisenstein.

Este episódio de sua juventude o havia colocado em contato com o cineasta russo quando este vivia um momento de inatividade como diretor de filmes devido aos problemas que encontrou ao voltar de sua temporada nos Estados Unidos e no México, quando se viu na mira dos comissários do estalinismo. Dava aulas na Escola Estatal de formação de cineastas onde havia estudantes vindos de vários países.

Jay Leyda, no início dos anos 1930, havia realizado documentários de curta-metragem em Nova York , como A Bronx Mourning (1931), e resolveu aprimorar a sua capacidade artística indo para a União Soviética estudar com Eisenstein. Lá chegou em 1933. A partir de 1934, o clima político teve radical piora quando se decretou o realismo socialista como a estética oficial do regime e se passou a atacar os grandes nomes dos anos 1920 como formalistas (o que era um perigoso xingamento), notadamente Dziga Vertov e Serguei Eisenstein. Este ainda tinha sobre si o estigma de ter iniciado sua carreira artística como cenógrafo de Vsevolod Meyerhold, o extraordinário diretor de teatro criador do método da bio-mecânica para os atores e um dos maiores nomes da renovação teatral no começo do século XX. Este momento dele jovem trabalhando com Meyerhold foi quando Eisenstein publicou o seu célebre manifesto “Montagem de atrações” (1923), escrito para o trabalho de montagem teatral e depois incorporado a seu cinema a partir de 1925.

Pois bem. O maior nome da mise-en-scène teatral do leste europeu foi preso e levado para um campo de concentração, sendo morto por volta de 1935. Eisenstein, também sob pressão, se acautelou e, num congresso de cineastas, fez sua “autocrítica”. Paralelamente, os seus estudantes estrangeiros, entre eles Jay Leyda e Marie Seaton (a autora da conhecida biografia de Eisenstein publicada mais tarde em inglês) decidiram todos ir embora. Era preciso evitar o uso de mais um motivo para a acusação de “cosmopolitismo” que funcionava como um forte estigma, notadamente no caso de judeus como era o caso de Eisenstein. Mais tarde, Jay e Marie Seaton foram os dois ex-estudantes que deram a sua contribuição para o conhecimento mais aprofundado da vida e obra do cineasta.

De volta para Nova York, Jay trabalhou durante algum tempo no setor de cinema do Museu de Arte Moderna, desenvolvendo suas pesquisas sobre cinema e sobre escritores americanos que geraram livros de caráter biográfico, um sobre Herman Melville publicado em 1951, e outro sobre a poetiza Emily Dickinson publicada em 1960. E começou a recolher o seu material de pesquisa para o livro Kino. Neste período, traduziu para o inglês os textos de Eisenstein, reunidos nos livros Film Form e Film Sense.

No final dos anos 1940, quando já era um pesquisador bem conhecido, o clima criado pelo Macarthismo o colocou na mira dos inquéritos por “atividades antiamericanas”. Sentindo o ar irrespirável pela segunda vez em sua vida, ele se põe em movimento, indo para a França onde procura dar continuidade a suas pesquisas, momento em que teve seu vínculo já aqui comentado com a Cinemateca Francesa, onde teve tempo de terminar Kino: história do cinema russo e soviético em 1959 (o livro foi publicado na Inglaterra em 1960).

Terminado este livro, ele recebe convite para ir para a China trabalhar num arquivo nacional em Pequim. Mestre na pesquisa de materiais e de seu tratamento para a composição de seus livros, para lá viajou iniciando um trabalho que gerou o seu livro somente publicado em 1980 pela MIT Press: Dianying/Electric Shadows: An Account of Films and the Film Audience in China.

Dentre as relações que cultivou neste período, a de maior impacto em sua vida foi o namoro com a bailarina Si-Lan Chen. Casaram-se e viveram juntos até a morte de Jay em 1988. Nos anos 1970, eu a conheci em Nova York, a simpática companheira de Jay, tímida e muita discreta.

O toque notável desta sua aventura chinesa em nome da pesquisa e do conhecimento, foi ter encontrado lá um terceiro momento em que enfrentou um clima indesejável gerado por uma tensão política, no caso o período às vésperas do alvorecer da Revolução Cultural comandada por Mao Tse-Tung, em meados dos anos 1960. Tal como abandonara Moscou em 1935 e os Estados Unidos em 1951, se via de novo em 1964 enfrentando uma situação que o aconselhava a abandonar o país.

Novamente, Jay Leyda persona non grata viaja, desta vez de volta para os Estados Unidos, onde irá continuar suas incansáveis pesquisas geradoras de clássicos da bibliografia sobre cinema, notadamente no campo da história. Clássicos que foram acompanhados de outras notáveis pesquisas para os livros Eisenstein at Work, sobre a forma do cineasta conduzir o seu trabalho de criação, e Films Beget Films sobre a forma de filmes incorporarem outros filmes, os chamados compilation films e seu processo de montagem de material de arquivo.

Quando observamos estas obras e seu significado, vemos que seu interesse maior foi estudar o desenvolvimento do trabalho de grandes criadores, seja de filmes, seja de poesia ou romance, um legado extraordinário nos presenteado por um homem cuja vida foi mais do que tudo dedicada à pesquisa e ao conhecimento.

Ao me lembrar de Jay na NYU, em 1975-76, já trazendo todo este notável percurso de vida e obra, sempre volta o sentimento vivo da generosidade de sua figura luminar e sem nenhuma afetação, sempre atenta aos alunos e amigos, formador de toda uma gama de pesquisadores que promoveram uma mudança de paradigma nos estudos do Early Cinema (1895-1904), e do cinema de Edwin Porter e D.W.Griffith.

O projeto Griffith, conduzido a partir de 1975, foi uma experiência extraordinária de formação para quem nele trabalhou. Produziu um novo conhecimento do percurso do cineasta em seu período de realização de filmes narrativos de 10-12 minutos na Biograph, entre 1908 e 1913, quando somou mais de 250 títulos. Acompanhei este projeto em 1976, quando pude examinar cerca de 100 filmes (todos os de 1908-1909 e alguns de 1910-11). Assistíamos a cópias vindas diretamente da Paper Collection da Biblioteca do Congresso em Washington, cópias que a NYU adquiriu para viabilizar o projeto, material praticamente inédito desde a época de sua realização, a menos de umas poucas dezenas de cópias existentes no MoMA de Nova York e outras cinematecas.

Esta condição e pioneirismo que todos sentíamos dava um tom de pequena seita dos afortunados. João Luiz Vieira participou deste projeto a partir de setembro de 1977, momento que coincidiu com minha volta ao Brasil. Ambos tivemos esta rara experiência coordenada por Jay Leyda, um trabalho coletivo que gerou, antes de tantos outros efeitos de longo prazo, uma publicação em número especial da Revista Griffithiana, da Cineteca D.W.Griffith, de Gênova, em 1980, sendo que nós dois tivemos nossos textos produzidos para o seminário da NYU escolhidos para fazer parte da coletânea. Um prazer enorme ter esta revista que, a cada manuseio, traz a memória daquela experiência formadora que tivemos, junto com a recordação das conversas com Jay e com os amigos que fizemos na ocasião, em especial Tom Gunning e Charles Musser.

Tive muito prazer em escrever esta memória pessoal de Jay, momento em que voltaram as conversas sobre suas experiências em todos os cantos do mundo e seu ensinamento não apenas da pesquisa em história, mas da própria vida de pessoa iluminada sempre em movimento, inquieta em sua natureza mas tranquila em sua postura, assentado em sua enorme experiência sem alarde, recebendo nos anos 1970-80 os jovens para partilhar nova descobertas e aprender como se faz a história do cinema.

Estas são impressões que trago a partir da relação com o professor e com o amigo com quem conversei em meus vários retornos a Nova York entre 1977 e 1988, ano de sua morte aos 78 anos. Um privilégio ter conhecido e ter sido beneficiado por esta magistral lição de vida no sentido mais amplo e belo que se possa dar à expressão. Lição de vida deste cosmopolita poliglota que abraçou sua missão de pesquisador e produtor de conhecimento em três continentes, sendo americano de nascença e formação, mas cidadão do mundo por vocação e vida realmente vivida, homem que, pela sua coerência, firmeza de caráter e generosidade, teve projetos interrompidos por conjunturas políticas vividas em cada uma das três potências continentais que têm polarizado a história política há quase um século. (Junho de 2020. Ismail Xavier)