JAY LEYDA, DISCÍPULO DE EISENSTEIN E AUTOR DE “KINO”, NAS

LEMBRANÇAS DE ISMAIL XAVIER

E JOÃO LUIZ VIEIRA

JAY LEYDA

CINEMA RUSSO E SOVIETICO

JAY LEYDA, DISCÍPULO

DE SERGEI EISENSTEIN E

PROFESSOR DE ISMAIL

XAVIER E JOÃO LUIZ VIEIRA

Maria do Rosário Caetano

O cineasta, pesquisador e professor da NYU, Jay Leyda (1910-1988), aluno de Sergei Eisenstein na Moscou dos anos 1930, sempre foi para mim uma espécie de John “Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo” Reed do cinema. Seu livro “Kino – História do Filme Russo e Soviético”, escrito há seis décadas, nunca foi editado no Brasil. Sua edição original, fruto de estudos realizados em Moscou e grandes arquivos europeus, em especial na Cinemateca Francesa, veio a público em Londres, em 1960. Cinco anos depois, foi traduzida na Argentina pela Editorial Universitaria de Buenos Aires.

Ao me dedicar à leitura de “Cinema Para Russos, Cinema Para Soviéticos” (Editora Bazar do Tempo, 2019), do brasileiro João Lanari, cineasta bissexto, diplomata e professor da UnB, deparei-me, em excelente bibliografia, com especial destaque a dois livros: o “Kino”, de Leyda, e “The Film Factory: Russian and Soviet Cinema in Documents 1896-1939”, de Ian Christie e Richard Taylor (Editora Routledge, 1988).

Resolvi, então, que minha prioridade seria ler “Kino – História do Filme Russo e Soviético”. Consegui um exemplar no mais perfeito estado da edição argentina de 1965, com suas robustas 618 páginas, e a ela tenho dedicado o prazer de calma e diária leitura nestes tempos de quarentena.

O cineasta Aurélio Michiles, autor de documentário sobre as artes gráficas da época do Construtivismo Russo me lembrou que Ismail Xavier e João Luiz Vieira haviam estudado, na NYU, com Jay Leyda. Assistíramos, inclusive, no Festival É Tudo Verdade (2010), a mesa-redonda que lembrara, por ocasião do centenário de nascimento do pesquisador, a importância de seus estudos sobre o cinema russo-soviético, a obra de Eisenstein, o cinema chinês e também o norte-americano (Griffith, entre outros autores).

Solicitei, então, a Ismail Xavier, professor emérito da USP, e a João Luiz Vieira, professor da UFF, que me enviassem suas memórias do tempo em que estudaram com Jay Leyda, na Universidade de Nova York.

Com a generosidade que lhes é característica, os dois se esmeraram em me enviar riquíssimo material sobre o autor de “Kino – História do Filme Russo e Soviético”. João Luiz, além de ceder texto que escrevera para o catálogo do Festival É Tudo Verdade, mandou depoimento pessoal, fotos, capas e dedicatórias de todos os livros que Jay Leyda publicou ao longo de sua vida.

Ismail Xavier escreveu texto que o Almanakito publica em primeira mão e no qual lembra que Leyda e Paulo Emilio Salles Gomes mantiveram significativa convivência na Cinemateca Francesa. Enquanto o brasileiro mergulhava na obra de Jean Vigo e na tumultuada história de seu pai, Miguel Almereyda, razão de ser de dois de seus livros (“Jean Vigo” e “Vigo, Vulgo Almereyda”), Leyda acessava o rico acervo de filmes e documentos guardados pela instituição comandada pelo incansável Henry Langlois (1914-1977).

O professor emérito da USP guardou de Jay Leyda a lembrança de “um cosmopolita poliglota, que abraçou sua missão de pesquisador e produtor de conhecimento em três continentes, sendo americano de nascença e formação, mas cidadão do mundo por vocação e vida realmente vivida”.

João Luiz Vieira relembrou seminário do Festival É Tudo Verdade 2010, dedicado ao Documentário de Arquivo (“Filme vira Filme”) e ao centenário do Jay Leyda (1910-1988). A mesa de encerramento contou com a presença do teórico do documentário Bill Nichols, conterrâneo de Leyda, Ismail Xavier e o próprio João Luiz Vieira.

O professor da UFF evocou, também e carinhosamente, seu último contato com o professor Jay Leyda: “ele estava hospitalizado no Centro Médico da New York University e fui visitá-lo em 2 de setembro de 1987 (localizei nas minhas agendas, pois guardo todas!). Fiquei lá por cerca de uma hora, levando a notícia de que eu havia sido indicado para dirigir a Cinemateca do MAM, o que o deixou bastante contente. Sua esposa, que ele conhecera na China, também estava presente e, no meio do papo, ele me pediu para ler resenha que havia saído na revista Time sobre biografia da Katherine Hepburn escrita pelo crítico Richard Schickel. Rimos bastante com as observações curiosas do texto e nos despedimos”.

Para que se vá logo aos substantivos textos de Ismail Xavier e João Luiz Vieira, destaco apenas dois diretores soviéticos que Jay Leyda estudou com imenso interesse e paixão – Eisenstein (1895-1948) e Alexander Medvekin (1900-1989 ), este uma das grandes paixões cinéfilas de Chris Marker (1921-2012), que a ele dedicou dois documentários (“Um Trem em Marcha” e “Elegia para Alexandre – O Último Bolchevique”). Na mais bela capa da edição inglesa de “Kino” estão imagens de “O Encouraçado Potemkin”, clássico eisensteiniano, e “A Felicidade”, do mesmo autor de “A Nova Moscou” e “A Operária Que Fazia Milagres”.Boa leitura. *** OS DOIS TEXTOS ESTÃO EM POSTAGENS ILUSTRADAS E SOB MESMO TÍTULO,  QUE SEGUEM EM SEPARADO…