SYLVIE PIERRE, JOSÉ CARLOS MONTEIRO + WANDYR VILLAR (NOVOS TEXTOS)

+ GLAUBER X SALVIANO

POR SYLVIE PIERRE (De Paris)
Autora de livro sobre Glauber Rocha, publicado
pela Editora Cahiers du Cinéma, colaboradora
de várias revistas franceses e editora da “Trafic”.
Uma das autoras do livro “Curta Brasileiro – 100 Filmes
Essenciais” (texto sobre “Di”, de Glauber), da Abraccine

Queridissima Rô
Glauber muito louco… e o Godard dando aulas de moral sobre o que se deve
fazer ou não fazer no cinema…epa!…velhos assuntos que me deixam no tédio dos
meus 75 anos de idade. Enfim…Com certeza o Glauber tinha razão quando ia às gargalhadas cordiais e baianas com Salvyano Cavalcanti e estava de uma certa maneira ,
de outra não, bem errado na hora em que entrou no processo cocaíno-suicidário,
que acabou resultando na própria morte dele muito jovem (41 anos!), com aquela
mania de jogar vatapá no ventilador …muita gente…inclusive alguns que eu
respeitava muito, tipo Jean Rouch, canalha também, mas imenso cineasta sobre
o qual o próprio Glauber tinha escrito e com toda razão, pois ele havia
“revelado a África ao mundo”. Falar que 90% do Cinema Novo
teve ódio, pelo menos duradouro, do Glauber…isso é besteira, pelo menos
aritmética. Besteira política e histórica também ficar naquele rancor de 1974 …
lembrando o artigo ou entrevista (agora me esqueci) do Glauber na revista
“Visão” elogiando perspectiva NAQUELE MOMENTO de abertura na
ditadura, eu acho, porque comparado com alguns no executivo brasileiro atual
não deixo mais de pensar que Geisel e Golbery, hoje mais do que
nunca, mereceriam ganhar o Premio Nobel da paz e da inteligência
geopolítica. Até serem chamados os dois de “gênios” e não de vergonha da
raça brasileira. Raça que eu, pessoalmente, sempre achei uma das mais inteligentes
no mundo. Com todo o meu carinho, nós aqui em Paris saindo meio tontos
da fase covid-onfinada , o tal maldito vírus que bateu forte na Europa e
cruelmente até agora, eu sei, no Brasil, e levou a muitas reflexões
algumas amargas sobre desigualdade social na crise, outras susceptíveis
de fazer levantar muita poeira e dar voltas dialéticas para cima .
Boa notícia: os Cahiers du Cinema estão hoje com novo redator chefe, meu
jovem amigo Marcos Uzal. Boa praça, fina inteligência. Talentos misturados,
com sutileza , de jornalista e de pensador e crítico adulto do cinema. Vai o
googolizando e veja como soube escrever e muito bem, tanto no Liberation
quanto na minha revista Trafic seja com boa visao ele tambem. Ja foi
convidado, anos atras, da Cinemateca em São Paulo (que Dieu la protège!)
e conhece as belezas mentais do Brasil. Em fim merece ser lido e apoiado
no Brasil e ele pode apoiar vocês, tambem.
Saudade e beijos. Sylvia Pedro

+ “SALVYANO CAVALCANTI
DE PAIVA” EM LIVRO,
POLÊMICAS COM GLAUBER –
TEXTOS DE JOSÉ CARLOS MONTEIRO,
WANDYR VILLAR E RUY CASTRO

POR JOSÉ CARLOS MONTEIRO

Rio de Janeiro – 10-06-2020

Caríssima Rô

Como “notas de pé de página” das finíssimas observações do meu amigo Ruy Castro sobre Salvyano Cavalcanti de Paiva, a propósito do livro organizado pelo Wandyr Willar, não posso deixar de fazer algumas ligeiras reminiscências sobre a figura do biografado, já que o acompanhei em vários momentos de sua trajetória pessoal e profissional.

1) Salvyano era, de fato, uma figura de difícil trato. Mas os problemas que o afligiram no fim da vida decorriam não apenas de Azheimer, mas de seu temperamento intempestivo, que não admitia nenhuma contemporização. Basta lhe dizer que o livro de

memórias que preparou se intitulava “Não esqueço, nem perdoo”. Seria um ajuste de contas político e profissional em que implavavelmente disparava para todos os lados.

2) O agravamento da situação psíquica dele aconteceu quando um filho foi morto pela Polícia e ele, obsessivamente, se empenhou em empenhou em denunciar o crime – a ponto de ir morar perto da delegacia [no bairro do Catete] e contratar caríssimos advogados para processar o Estado. Ele chegou a levar numa sacola de supermercado dinheiro vivo para pagar pela causa.

3) O livro “Pequena história do cinema das repúblicas socialistas soviéticas” não resultou propriamente de uma “parceria” com Pudovkin, mas de uma fusão de um texto do diretor e (acho) Elena Smirnova publicado numa revista italiana. Aliás, é um livro formidável, utilíssimo ainda hoje! Os críticos de esquerda do Rio (assim como os de São Paulo) liam as revistas italianas (”Cinema Nuovo”,”Bianco e Nero”).

4) Salvyano, como Ruy assinalou com propriedade, adorava filmes de gangster, musicais e dramas socialmente “engajados”. Esse envolvimento durou até que ele rompeu com o “Partidão”, no qual militou até um rompimento tempestuoso. Desde então, virou desafeto da turma…Os livros que ele escreveu sobre o assunto, nos anos cinquenta, viraram referência em Portugal e até na Itália.

5) Quando fazia críticas no “Correio da Manhã”, na década de 60/70, ele entoava cânticos de admiração a Rogério Sganzerla e José Mojica Marins. Não era tanto para irritar Glauber, mas porque o paraibano acreditava, de fato, sinceramente, na genialidade dos dois. Outro que ele apreciava era o Ozualdo Candeias.
6) Salvyano era arquivista e pesquisador arguto, apaixonado. Tinha em preparo farto material sobre o western. Quando morreu o pesquisador Gilberto Souto, sugeri ao “Globo” que entregasse ao Salvyano a prestigiada coluna (na verdade, uma página) “Cinema, Passado e Presente”. Foi o titular da seção até que editores do jornal (ex-“companheiros de estrada”) resolveram ajustar contas com ele…

7) Mais ou menos como Rubem Biáfora (um “crítico mineral”, segundo Paulo Emílio), Salvyano (um “crítico visceral”, digo eu) virou um ferrenho anticomunista. E assumia o rancor em críticas injustas, tendenciosas contra o Cinema Novo, e particularmente Glauber. Mas saudava cinemanovistas como Walter Lima Júnior, e, como erotônamo, derramava-se de admiração por Domingos de Oliveira.

8) Quando dirigi o Museu da Imagem e do Som, no Rio, décadas atrás, comprei o acervo dele, que eventualmente (no futuro, quem sabe) deverá ser exposto e mostrará sua coleção de fotos eróticas de filmes brasileiros. O nosso amigo, baixinho e tímido, era um romântico, e foi isso que o perdeu…Não digo mais nada para não cair no território das “gossips”…

‘ 9) Substitui-lo durante um mês no “Correio da Manhã” na seção “Cartazes”, um “must” do jornal, foi uma glória! Graças a Moniz Vianna, a quem todos reverenciavam, vi como Salvyano era especial – mas também contencioso, desconfiado. Essa turma antiga, embora generosa, era chegada mais a desafetos do que a afetos.

10) O Wander Willar fez uma comovida homenagem ao conterrâneo com sua rememoração. Fez o que pôde para que fosse completa. Salvyano faz parte da história da crítica brasileira de cinema…Merece nossa admiração…

****NOVO TEXTO:
POR WANDYR VILLAR
Natal-RN-09-06-2020

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ÓTIMA tarde para você, pois, BOA é pouco (rs). Eu mesmo, sei da efervescência dos jornais do Rio – evoco aqui o Orlando Villar Ribeiro Dantas – que criou o Diário de Notícias, e, muito honra o Jornalismo Brasileiro, nascido no Rio Grande do Norte, no município de Ceará Mirim. De minha família paterna.
Realmente, cada vez que alguém escreve acerca do Salvyano, sinto um “frio” na espinha. O livro do Salvyano sobre o cinema brasileiro, foi muito modificado e atualizado, até a sua publicação. Não foi escrito em nenhum calor da emoção. Muita gente que ler (consulta o livro) se quer “passa os olhos” no prefácio. E, nos ensaios.

Eu NUNCA entenderei, o motivo do Ruy Castro e do Sergio Augusto, não terem escrito uma biografia acerca do Salvyano. Coube a um jovem de então 15 anos de idade iniciar essa tarefa e terminá-la aos 35.

Você marcou um GOL DE PLACA, ao fazer a sua crítica, ela me será muito útil, sobretudo para ufanar um “Potiguar” – como parece que você gosta de escrever (rs) que sempre evocou a sua terra – veja o texto do Geraldo Edson de Andrade no próprio livro do Salvyano.

O Glauber Rocha não era uma entidade divina – o Silvio Tendler, fez um documentário e o meu amigo Geneton outro, e, isso fica muito evidente. É sempre ótimo falar dos cineastas, estrangeiros, que falavam bem do Glauber, mas, e os que falavam mal? E, até os que o ridicularizavam?

O próprio Salvyano diz que era o decano de geração dele, vide seu livro, a definição não é minha.

O papel de reunir suas críticas e/ou artigos não será meu, e, o de julgar o que ele escreveu, idem.

Deixo aqui um pedido: eu gostaria de saber – quais são os críticos de cinema e/ou resenhistas que tem uma biografia e/ou um ensaio de sua vida?

Eu só escrevo acerca de norte-rio-grandenses, sou um deles, e, levarei a minha “norte-rio-grandensilidade” comigo. Sempre ufanarei a nossa província; da qual o Salvyano, nunca se desligou.

Lamento, mas, creio que até 2070, a obra do Salvyano estará condenada, pois o seu filho não faz jus ao legado do pai.

Para encerrar digo: eu sempre quis saber que foi o Salvyano – já que eu nunca pude ler, tive que escrever acerca dele, mesmo não sendo eu um escritor, apenas sendo o “Filho bastardo do Zé Ninguém” (rs).

Abraços, beijos! WANDYR VILLAR