CINEMA RUSSOE SOVIETICO
POR JAY LEYDA, DISCÍPULO DESERGEI EISENSTEIN:

Este primeiro semestre
de 2020 ficará na minha
memória afetiva por três razões/encontros/reencontros:
1. a série francesa “Descolonizações” (Canal Curta!), a entrevista de Caetano Veloso que me revelou o incrível Jones Manoel, um baiano-pernambucano que rejuvenesceu minha “alma”, e meu reencontro com o cinema russo-soviético, que estava (confesso) em fase adormecida. Comecemos pelos eurasianos. Minha formação, nos meios culturais de esquerda — movimento estudantil na UnB, militância no Sindicato dos Jornalistas do DF, atuação na Frente Cultural de Brasília e criação do PT na região administrativa onde morava, em Brasília (não milito mais no Partido dos Trabalhadores, há 20 e muitos anos, embora seja simpatizante e eleitora fiel) — me aproximou, claro, do cinema revolucionário soviético. Cosme Alves Netto, da Cinemateca do MAM, “embaixador” informal das cinematografias latino-americanas, russo-soviética e do Leste Europeu (Tcheco-Eslovaquia, Iugoslávia, Polônia, Hungria, Romênia, etc) no Brasil foi nosso mentor. Vi tudo que pude. Como minha juventude se deu na ditadura militar, só conheci “Encouraçado Potenkin” em 1979, na Feira da PosseBilidade, no Clube da Imprensa. Li o que dava para ler sobre o assunto. Mas nunca li — e sonhava fazer isto — o livro de Jay Leyda (1910-1988), estadunidense que foi aluno de Eisenstein e que, para mim, era uma espécie de “John ‘Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo‘ Reed”. Este livro, que eu sonhava ler, nunca fora editado no Brasil. O tempo passou… Em outubro do ano passado, na Mostra SP, comprei o livro do brasileiro João Lanari, cineasta bissexto, diplomata e professor da UnB. E coloquei-o numa pilha de livros a serem lidos nas férias santistas. E segui na roda-viva dos festivais (Brasília, Gostoso, Aruanda…), pequenas férias com filhos e netos, etc, etc. Cheguei a Santos no começo do ano e “Essa Gente” (Buarque), “Paulo Freire” (Sérgio Haddad), “Ken Loach” (Iciar Bolaín), “A Cidade e as Serras” (Eça), “Memorial de Ayres” (Machado) me esperavam… Entre eles, o livro do Lanari. Mas aí chegou “Salvados Digitais”, de José Inacio Mello Souza, um craque, biógrafo de Paulo Emilio (no Paraíso). Mais uma vez deixei o lanariano “Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos” para depois. Antes li biografia de Polanski (sob ataque por causa do recorde de indicações ao Cesár) e uma autobiografia de John Huston, pois queria entender porque o pai de Walter Huston era tão desprezado por tantos… e porque amava o México de forma tão apaixonada (como também sou siderada pelo México!!!)…. Mas aí, resolvi me penitenciar…. Vou ler o livro do Lanari, que conheci em meus 25 anos de Brasília. Já tinho “pago um mico” daqueles: comprara o livro, mas nem abrira. Num encontro com Lanari (no Fest Brasília???) contei que comprara o livro. Elogiei a capa… Ele me perguntou se eu gostara da capa descartável que virava cartaz. Constrangida, contei que não percebera a engenhosidade do capista da Editora Bazar do Tempo (não mexera no livro, que permanecera dentro da embalagem da livraria). Quando regressei a SP, peguei o volume, desencapei-o e vi a maravilha gráfica, digna dos grandes artistas-cartazistas da era Eisenstein-Pudovkin- Vertov-Dovchenko-Kulechov-FEX e (agora descubro)- Alexandre Medvedkin (1900-1989). Três semanas atrás comecei a ler o livro do Lanari (com sete meses de atraso). Foi paixão à primeira vista. Não me separava do livro, só pensava nele (quem leu minha resenha na Revista de Cinema (digital) sabe o quanto amei este livro belo e sofisticado, show de síntese — ai, como invejo os sintéticos! — e embasado em pesquisa histórico-estética de ponta. Na sólida bibliografia lanariana, deparei-me com edição do livro de Leyda pela Editorial Universitária de Buenos Aires. Gutenberguiana, uma verdadeira traça, louca por celulose (e celulóide, como diz Zanin), fiquei sonhando com o livro. Vou mobilizar — pensei — meus “amigos digitais argentinos e uruguaios”, quem sabe eles compram um exemplar para mim, mesmo em tempo de epidemia do coronavírus… Gravei com Lanari e Igor Oliveira, do CPC-UMES um “podcast” (que ainda não foi disponibilizado, mas um dia será! – risos), e danei a ver os principais filmes que o rótulo “Realismo Socialista” soterrara!!! ***Aí chegou “Salvyano Cavalcanti de Paiva”, o livro do potiguar Wandyr Villar. Fui lê-lo e resenhá-lo para a Revista de Cinema. Mexer com crítico e, principalmente, com Glauber Rocha, no meio em que circulo é jogar nitroglicerina na fogueira. Ruy Castro, Sylvie Pierre, José Carlos Monteiro, entre muitos outros, me mandaram suas lembranças/observações sobre o crítico potiguar-carioca. E Wandyr, um “salvyano-rio-grandense do norte” até a medula, seguiu em sua intensa correspondência digital comigo… Esqueci o cinema soviético????? Não. Já assistira às sete horas de “Guerra e Paz” (Bondarchuk 100), e fui rever “Elegia para Alexandre” (ou o Túmulo de Alexandre, na França, ou O Último Bolchevique, nos EUA), de Marker, e um média-metragem que este e seu coletivo haviam dedicado, nos anos 1970, ao cineasta-bolchevique, vi — já que desconhecia — “Circus”, “O Quadragésimo-Primeiro”, “A Questão Russa”, dois Medvekin (A Felicidade e A Nova Moscou — falta ver “A Operária Que Fazia Milagres”)… Por causa do “Salvyano” e sua inusitada “parceria” com Pudovkin (que morrera em 1953) e Elena Smírnova, resolvi comprar “Pequena História do Cinema das Repúblicas Populares” na Estante Virtual. Avisaram: livro gasto, vai necessitar encadernação, e um preço que se aproximou dos 200 reais. Vale! (o livro, que comprei uns dez dias atrás, ainda não chegou)… Mas aí — por recomendação do livro do Lanari — Zanin e eu mergulhamos na relação de Tolstoi com o cinema. Assistimos a um doc bem curto de Drankov, produtor muito do descolado, e fomos para “A Partida do Grande Ancião”, de Protanázarov. E agora estamos nas “Sonata Kreutzer” (já vimos uma francesa, de Rohmer e trupe Nouvelle Vague, incluindo Bazin, e uma polonesa)…

Já perceberam que essa história não terá fim!!! Pois vou deixar “Descolonizações” e “Caetano-Jones Manoel” para depois (quem lê o Almanakito sabe o quanto já elogei esta série libertário-anti-racista-anti-colonial e este podcast caetanístico)…
Volto ao livro de Jay Leyda. Não precisei incomodar ninguém. Burrilda digital como só eu sei ser, fui à Estante Virtual e achei lá o livro “KINO – Uma História del Film Ruso e Soviético”, por apenas 70 reais. Comprei e ele já está comigo. Estou lendo, aos poucos, apaixonadamente. E com o coração agradecido a estes argentinos, nossos vizinhos, tão cultos e tão interessados. Nosso mercado editorial não dá a mínima para o cinema russo-soviético. Podemos contar nos dedos quantos livros (de cinema) vindos do país eslavo foram aqui traduzidos e publicados. Ao fuçar na internet, encontrei a capa de uma edição estadunidense do livro de Leyda (publicado em Londres, na Inglaterra, em 1960, e na Argentina em 1965). Capa maravilhosa, com fotos de duas das paixões do discípulo de Eisenstein: o “Encouraçado” e “A Felicidade” surrealista de Medvedkin… (Depois, com calma, entro em uma conversa com Thiago Brandimarte Mendonça, cineasta, jornalista e crítico-ensaísta). Na resenha que ele fez do livro de Lanari, no Valor, ele colocou Medvedkin no “cânone” do Construtivismo soviético-revolucionário-bolchevique (no meu tempo, chamávamos “Formalismo Russo”). Fiquei intrigada. Só ouvi falar no “Último Bolchevique” quando assisti a filme dele (A Felicidade) e sobre ele (O Túmulo de Alexandre), na mega-retrospectiva CHRIS MARKER, organizada pelos curadores Francisco César Filho & Rafael Sampaio, no CCBB (2009). Por que a obra dele não viajou pelo mundo como a do núcleo duro do Construtivismo (Eisenstein-Pudovkin- Vertov-Dovchenko-Kulechov-FEX)?????? — Vamos discutir este assunto depois…
pois agora vou escrever um flash
sobre foto de Paulo Emílio no Fest Brasília 1969…

* A FOTO DO FESTIVAL DE BRASILIA de 1969
Quando contei, resumidamente, a história das 40 primeiras edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (escorada em textos que escrevi no Correio Braziliense e Jornal de Brasília e no livro inaugural de Berê Bahia, sobre os 30 anos), Graça Coutinho & Celso Araújo comandaram busca de imagens daquelas!! Entre as fotos que ilustraram o livro e eu desconhecia (escrevi o texto em poucas semanas, em SP, enquanto em Brasília eles cuidavam da edição e fotos-legendas) apareceu uma genial. Paulo Emilio e Lygia Fagundes Telles na primeira fileira. Atrás, Grande Otelo e Annick Malvil, a belgo-brasileira. Mais atrás, Bernardet e Maria Rita Galvão. Num canto, André Luiz Oliveira, bem baiano-cabeludo. Quem eram as outras pessoas? Tentei com uma reprodução (anos atrás) muito ruim, descobrir junto a amigos. Não dava para identificar as pessoas. Agora, com o facebook e uma boa reprodução, a coisa começou a andar. Junto com Bernardet e Maria Rita, deduzi que estava Lucilla Ribeiro Bernardet e… Walter da Silveira. Consultei amigo baiano e ele achou que era ele, sim. Consultei o Banco do Dados do Portal Metrópoles (tudo sobre o Fest Brasília e suas 52 edições) e bati o martelo: Walter da Silveira integrou o juri. Então só podia ser ele. Dois belos rapazes, um deles de barba, estavam na terceira fila. Pensei que o de barba fosse Gustavo Dahl (Ana Maria Magalhães e Luiz Carlos Lacerda afirmam que não era!, mas eu sigo em dúvida). Lacerda cravou o outro, com certeza: o diretor de arte Luiz Carlos Ripper. Um amigo de Ricardo Cotta, da Cinemateca do MAM, diz que um rapaz de terno e dedo nos lábios, na quinta fileira, seria Paulo José. O ator estava no elenco de “Macunaíma”, na pele do próprio, um dos concorrentes de 1969. Mas o rapaz da foto não se parece em nada com o alter-ego de Domingos Oliveira. Há um nipo-brasileiro na foto, sorrindo para Annick Malvil. Quem é ele? Até agora, nenhuma pista. Ao lado da atriz há um jovem que eu creio já ter visto em alguma revista. Como metade da minha biblioteca está em SP (e eu em Santos), só poderei checar quando a pandemia passar…. Em resumo: se você identificar alguém na foto (veja no meu facebook), por favor, nos avise.

* A PROPOSTA DE IBERÊ
CARVALHO (FEST BRASILIA)
Veja no “face” de Iberê, ou do ator Wellington Abreu, ou no meu, a sugestão do diretor de “O Último Drive-in” e “O Homem Cordial” para que o Fest Brasília realize sua edição 53 (ameaçada, mas agora garantida pelo GDF) de forma democrática, sem os arroubos autoritários do ano passado….