CURTA-SE 2010 (HOMENAGEM a rô caetano) – TEXTO DE Luiz Zanin Oricchio

Dez anos atrás, o Curta-SE – Festival de Cinema de Sergipe, comandado por Rosângela Rocha e time majoritariamente feminino, resolveu me prestar homenagem por meus “serviços prestados ao jornalismo no campo do audiovisual”. Ela solicitou a Luiz Fernando Zanin Oricchio, meu companheiro, que escrevesse texto para me apresentar ao público do Festival, então realizado anualmente em Aracaju. Zanin escreveu o texto abaixo, que busquei hoje, passados dez anos, para amenizar as dores de completar 65 anos num país des-governado por autoritário e destrambelhado extremista. E, ainda por cima, em tempo de pandemia.
Segue o texto “Missionária da celulose e do celulóide” com os exageros (que só parecem cabíveis em “homenagens”) de quem é, há 28 anos, meu companheiro de vida e profissão (detalhe: Zanin não estava em Aracaju no dia da homenagem, mas lá estavam os atores Flávio Bauraqui e Claudia Ohana, Rosângela Rocha, claro, e Suyenne Corrêa, colega de ofício)

CURTA-SE – FESTIVAL
DE CINEMA DE SERGIPE
ARACAJU – 2010

Para Maria do Rosário Caetano,
a Rô Caetano, nossa homenageada

MISSIONÁRIA DA CELULOSE E DO CELULOIDE

POR LUIZ FERNANDO ZANIN ORICCHIO (*)

Se ela pudesse, leria todos os jornais do mundo. Como não pode, contenta-se com os três que recebe em casa todas as manhãs e mais alguns “de todos os Brasis”, que compra quando vai aos muitos cinemas que circundam a Avenida Paulista. Maria do Rosário Caetano é assim. Uma vocação de jornalista como nunca vi igual. Fascinada pela notícia, fissurada pelo dia-a-dia, fanática pelo papel, usa a internet de maneira frenética, porém com um saudável pé atrás. Leitura, para ela, só na velha e boa celulose. Haja florestas para abastecer tanta fome.
Pois foi desse jeito, lendo e colecionando os papeis que ela não joga fora (para meu desespero), que a Rô se tornou a mais bem preparada jornalista cultural do País – em especial quanto a um tema, o cinema, e o cinema brasileiro em particular, que ela acompanha de perto há décadas.
E, claro, acompanha não como leitora, mas como repórter, participante e testemunha. A Rosário pode ser vista e ouvida nos debates de uma infinidade de festivais brasileiros. É a rainha dos debates e moderadora de muitos deles. Parece conhecer todos os diretores, todos os atores, os figurinistas, maquiadores, os contra-regras e pode chamar, pelo nome, do mais badalado produtor ao anônimo que segura as lâmpadas no set, que a gente chama de “pau de luz”. Nada e nem ninguém do cinema brasileiro parece lhe ser estranho.
Por um simples motivo: Rô ama o cinema brasileiro porque ama o Brasil acima de tudo. É nacionalista, não no sentido estreito de ignorar o resto do mundo ou pregar patriotada. É nacionalista porque não se considera cidadã de segunda categoria por ter nascido no Brasil, em Minas Gerais, numa cidade chamada Coromandel. Pelo contrário. Orgulha-se de sua origem. Sente-se igual a todos, alemães, portugueses, norte-americanos, vietnamitas ou chineses. Pratica um nacionalismo do tipo que a coloca na altura dos olhos dos seus semelhantes. Nem acima e nem abaixo. No mesmo nível.
Por isso mesmo, sente-se particularmente solidária com os que sempre foram considerados “inferiores” pelos supostos donos do mundo (e às vezes por si mesmos): os brasileiros e todos os irmãos latino-americanos – nossos vizinhos de continente, em geral tão ignorados aqui mesmo no Brasil, cuja elite tem como modelos ora os europeus ora os americanos do norte.
Foi pensando nisso que Rosário escreveu seu livro mais importante, o pioneiro “Cineastas Latino-Americanos” (Estação Liberdade, 1997), uma série de entrevistas e perfis biográficos com os principais diretores do continente. É leitura obrigatória para quem se interessa pelo assunto.
Como são obrigatórios os livros que produziu para a coleção Aplauso, com perfis de cineastas e atores como Fernando Meirelles, João Batista de Andrade e Marlene França. Esses textos aliam a argúcia da entrevistadora, sempre bem documentada sobre o assunto ou o personagem, ao texto trabalhado e límpido, fruto de quem frequenta os melhores autores da literatura. Sim, a Rosário, além de formada em jornalismo, concluiu o curso de Letras, ambos na UnB, em Brasília, cidade para onde foi depois de sair de Coromandel, e onde passou a juventude, casou-se, teve filhos, trabalhou e deixou enorme número de amigos e admiradores quando de lá saiu, em 1994, para viver em São Paulo.
Rosário durante muitos anos trabalhou nas redações de jornais como Correio Braziliense e Jornal de Brasília, como repórter, repórter especial ou editora de cultura. Tornou-se correspondente do JBr em São Paulo quando para lá se mudou. Ao deixar o jornalismo diário, depois de muitos anos de atividade, passou a atuar na internet. “Analfabeta digital”, como ela mesma se define, tirou do nada um boletim que batizou de “Almanaque”. Uma publicação artesanal, que ela envia manualmente para três mil pessoas e lhe valeu uma tendinite crônica no braço direito.
Em pouco tempo, o “Almanaque”, que é mensal, e o “Almanakito”, um derivativo diário, tornaram-se referência nacional no meio cinematográfico e não é raro que paute e seja citado por jornalões tradicionais. Algumas revelações do Almanakito se tornaram reportagens escritas nos jornais de primeira linha do País. Rosário é prova viva do alcance e das possibilidades do jornalismo na internet. Com seu “Almanakito”, ela multiplicou seus correspondentes e amigos pelo Brasil afora e mesmo no exterior (um dia, para minha supresa, ela veio me falar de uma “amiga russa”, Elena Beliakova, que havia conhecido na rede e era fã de Jorge Amado). Criou uma rede de dependentes do Almanakito, viciados que se informam e se orientam pela leitura desse boletim e se queixam quando eventualmente são esquecidos nas remessas. Aos 55 anos, a Rô continua em atividade febril. Percorre vários festivais de cinema ao longo do ano e já até perdeu medo de avião, menos por mérito que por necessidade. Quando está em casa, consome seu dia lendo, fazendo contatos e abastecendo edições sucessivas do Almanakito. Tornou-se ponto de referência de informação quente e de credibilidade, coisas raras na internet. É uma jornalista em tempo integral.
O encontro de uma pessoa com sua vocação não se dá sem problemas. Rô se queixa de dores de cabeça recorrentes, típicas de quem vive o tempo todo no olho do furacão. Ainda acha que pode pegar o mundo com as mãos, esse mundo que teima em crescer em escala exponencial e a lhe fugir do controle. Leva tudo a sério, com o fanatismo dos santos e dos devotos. Por isso às vezes lhe falta o humor, que tanto ajuda a relativizar as coisas. Pensando bem, tudo isso está interligado e faz parte de um sistema: quem se acha imbuída de uma missão não se permite descanso nem brincadeiras. Para a Rô, o cinema não é uma diversão, nem mesmo uma arte – é uma causa. E ela a defende com o rigor de uma revolucionária. São defeitos ou qualidades? Depende do ponto de vista. Há quem ache a sua dedicação ao trabalho excessiva, roubando tempo e atenção que poderiam ser empregados de outra forma. Existe quem pense que nada existe de mais bonito que uma paixão como essa, levada às últimas consequências.
Como julgar de maneira objetiva, ainda mais quando se ama a personagem?

(*) Luiz Fernando Zanin Oricchio é jornalista e crítico de Cinema, do Estadão, autor dos livros “Cinema deNovo – Um Balanço Crítico da Retomada”, “Guilherme de Almeida Prado” (Coleção Aplauso) e “Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil”, além de companheiro, há quase duas décadas, de Maria do Rosário.