“POLEMISTA FEROZ”: SALVYANO CAVALCANTI DE PAIVA EM LIVRO,
POLÊMICAS COM GLAUBER – TEXTOS
DE WANDYR VILLAR E RUY CASTRO

RESENHA DO LIVRO “SALVYANO

CAVALCANTI DE PAIVA” NA
REVISTA DE CINEMA

+ OBSERVAÇÕES
DO AUTOR (WANDYR VILLAR)

+ SALVYANO POR
SEU COLEGA NO CORREIO
DA MANHÃ, RUY CASTRO

Amigos – Recebi de Wandyr Villar, autor de livro sobre Salvyano Cavalcanti de Paiva (1923-2000), e de Ruy Castro, colega do crítico de cinema no Correio da Manhã, dois textos que seguem abaixo. Em ambos, o nome de Glauber Rocha (1939-1981) surge como um dos grandes contendores do crítico potiguar. Wandyr e Ruy destacam o espírito polêmico do texto salvyano. Ruy o qualifica como um “polemista feroz”, como o eram muitos de sua geração. Conheço várias formas de se fazer jornalismo. A da polêmica, envolvendo até a vida pessoal do “xingado”, é uma delas. Nunca foi a minha, em mais de 40 anos de jornalismo. No terreno do Cinema, área em que mais atuei-atuo, meus formadores (por leitura, palestras, festivais) são Paulo Emilio Salles Gomes, Jean-Claude Bernadet e Ismail Xavier. Bernardet trouxe, para nós, a tradição polemista dos franceses. É duro, franco, muito crítico. Mas, professor universitário (UnB e USP), nunca o vi agredir (xingar) um contendor. Paulo Emílio e Ismail são refinadíssimos, adeptos da reflexão, não da agressão. Lembro, de forma redundante, que vivemos “outros tempos” (agravados pelo avanço da ultra-direita e, agora, pelo coronavírus). Os jornais e revistas (com o avanço da internet) tornam-se, a cada dia, mais raros. Os grandes polemistas citados por Ruy Castro em seu importante depoimento são figuras que, se vivas fossem, estariam chegando aos cem anos. Em 2023 serão comemorados, se depender do empenho de Wandyr Villar, os cem anos de Salvyano, o “boca de fogo”. Quando eles (a “Geração dos 40”) começaram suas carreiras, o país contava com centenas e centenas de jornais. Já li que houve um tempo em que circulavam no Rio de Janeiro, “27 ou 28 jornais” (hoje são três: O Globo, O Dia e Extra). A disputa de leitores devia ser brutal. Daí a necessidade de atraí-los com matérias sensacionais, manchetes e polêmicas ferozes. Hoje, parece — estou enganada? — que o que ser quer são textos mais informativos e mais reflexivos. Seguem, pois, os textos de Wandyr e Ruy.
E um P.S. – Vejo muita diferença no que vai ser impresso em uma página de jornal e em um livro (caso de “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros”, que tenho em minha estante). O jornal, feito no calor da hora, comporta certos, digamos, “exageros”. Mas o livro exige reflexão, amadurecimento, calma. Não vai embrulhar verdura na feira, no dia seguinte. O que Salvyano escreveu sobre “A Idade da Terra”/”Terra em Transe” no livro citado — juro — me causa espécie. beijos a todos, rô

*LIVRO “SALVYANO” – Depoimento de
Ruy Castro sobre o colega Salvyano

Rô, Concordo com suas observações a respeito do livro sobre o Salvyano, gentilmente enviado pelo autor. Se você quiser minha opinião sobre Salvyano — que conheci em 1967 no “Correio da Manhã” e, por algum tempo, falava com ele todo dia —, aí vai:
Salvyano conhecia todo o cinema desde o ano zero e suas críticas eram de primeiro nível. Sabia também tudo de música americana entre 1920 e 1960, sobre a qual escreveu artigos incríveis e de página inteira no “Correio”. Aprendi muito com ele.
Sua fixação era pelos musicais de Busby Berkeley na Warner dos anos 30, que combinavam grande cinema e grande música com o sotaque realista dos filmes de gângster, típicos da Warner daquela época. Os críticos de esquerda gostavam muito tanto desses musicais quanto dos filmes de gângster.
Salvyano escrevia bem pra burro. Tinha uma característica então comum na nossa imprensa e hoje extinta: era um polemista feroz. Isso significava dar e levar porrada pelos jornais, e acontecia o tempo todo: Moniz Vianna x Otto Maria Carpeaux, Glauber x Paulo Francis, Antonio Maria x Flavio Cavalcanti, Sergio Porto x Ibrahim Sued. Uma das mais divertidas foi Salvyano-Alex Vianny x Moniz, que, depois, se tornou Moniz-Salvyano x Alex Vianny. Faltou completar com Moniz-Alex x Salvyano, mas aí seria querer demais.
Glauber, que Salvyano realmente atacava, também o atacou até dizer chega, chamando-o de louco e pregando sua internação no hospício do Marquês de Sade — vide artigo terrível de Glauber na revista “Fairplay” em 1967. Essas brigas não eram para ser levadas tão a sério e, várias vezes, os brigões voltavam às boas. Moniz Vianna e Glauber, por exemplo, viviam se espetando em público e, na intimidade, davam boas gargalhadas juntos — baianos que eram. Mas o que Salvyano diz é verdade: Glauber foi levado ao túmulo por 90% do Cinema Novo que rompera com ele e queria vê-lo pelas costas por seus elogios a Geisel e Golbery.
Salvyano foi do Partidão nos anos 50 e depois saiu. Mas nunca notei nele nenhum traço de rancor contra seus antigos camaradas. E, se se deu parceria com Pudovkin naquele livro, isso foi sem dúvida autorizado pelo Partido — imagine se não! Talvez até sugerido… Era muito informado sobre política internacional — em artigo no “Correio”, previu a queda de Krushev na URSS com mais de um ano de antecedência.
Salvyano foi agredido num famoso reveillon de 1968 no Rio. Vários se juntaram, jogaram-no no chão e pisaram em sua rótula, quebrando-a. Não sei quem nem por quê, só sei que teve a ver com cinema. Apareceu dias depois no jornal, engessado do pé à virilha e de bengala por baixo do terno impecável.
Ficamos anos sem nos ver. Encontrei-o por acaso nas proximidades do Balança. Não sabia que estava morando ali, nem vi nada de diferente nele. Comigo sempre foi muito gentil e atencioso.
Seus livros sobre o cinema americano, os filmes de gângster, o cinema brasileiro e o teatro de revista são de consulta permanente por mim e estão citados na bibliografia de vários de meus livros. Mais importantes que suas opiniões, são as informações contidas neles — e elas são milhões.
* terrível imaginar tudo que Salvyano tinha na cabeça
sendo corroído pelo Alzheimer. Beijo, Ruy

+ LIVRO: “SALVYANO CAVALCANTI DE PAIVA”:
* OBSERVAÇÕES SOBRE SUA RESENHA
NA REVISTA DE CINEMA

Por Wandyr Villar

, Boníssima tarde. Li com carinho e calma a sua resenha. A curiosidade de minha mãe falou alto, e, eu tive que ler (rs). E,
estou à compartilhá-la.
Seu texto é ótimo, mas, só uma questão: as brigas do Salvyano com o Glauber, já vinham, antes mesmo de Salvyano ser pai. Esse é um grande buraco do meu livro. Muita gente não quis falar, e, quando eu digo, muita, me refiro aos poucos que encontrei. Ou
seja, os problemas familiares do Salvyano não tinham nada a ver com o seu estilo mordaz. Teve gente como o Cacá Diegues, que não deu a mínima. E, para lembrar de mais um: o Walter Lima Jr – ele nem respondeu meus e-mail’s.

O estilo “destemperado” do Salvyano, ácido e combativo, já vinha desde o início de sua carreira e se tornou definitivo. Vide página 64 de meu livro.

Gosto muito de arcar com o que eu digo, do contrário, teria problemas comigo mesmo (rs).

Só mais uma questão: o Salvyano nunca rompeu relações com o
Rio Grande do Norte, veja meu livro: páginas 71, 72 e 73. Ele é criador de um festival de cinema que mudou, e muito, a forma
de fazer festivais, e, em sua cidade natalícia. Lamento, mas, o
Valério Andrade, como você viu, está nos agradecimentos,
mas, não é um depoente, pois, ele protelou tanto que eu desisti.

Para uma pessoa, que: coleciona livros de autores do RN e,
vive a memória do nosso estado, quando você falou do provincialismo do livro, foi um êxtase.

Eu gostaria muito que em Natal, tivesse um logradouro
com o nome do Salvyano – aliás, adoraria que uma praça que
se chama “Kennedy” mudasse de nome, assim esse ato
abominável de homenagear o patrono da ditadura no Brasil
seria algo do passado. O Salvyano merece mais…

Após a pandemia, BRIGAREI, muito por isso.

Beijos!

WANDYR VILLAR