FLAVIO MIGLIACCIO, ENTREVISTA AO JORNALBRASIL DE FATO 600 (AGOSTO de 0

FLÁVIO MIGLIACCIO

Ator que sonhava ser Oscarito chega aos 80 anos, recebe prêmio em Gramado e tem sua vida narrada em um filme.

Nascido no Brás paulistano, numa família pobre, ele trabalhou com os maiores nomes do teatro, cinema e TV brasileiros

. Migliaccio ajudou a fundar o Teatro de Arena, atuou no CPC-UNE, foi assistente do sueco Arne Sucksdorff e dialogou com a criançada na pele de Tio Maneco e do Xerife, que fazia dupla com o Shazan de Paulo José.

“Atuei em comédias eróticas por causa principalmente da sobrevivência, mas me angustiava ao ver as atrizes obrigadas a se submeter à sanha dos insaciáveis diretores desses filmes”

Maria do Rosário Caetano De São Paulo

Flávio Migliaccio está comemorando a chegada de seus 80 anos. Ele, que foi menino pobre, nascido numa família de 17 filhos, e que desempenhou os mais diversos ofícios (vendedor de chuchu de porta em porta, engraxate, artesão, pedreiro, metalúrgico), tornou-se um dos grandes atores brasileiros. O reconhecimento chegou para este homem discreto e modesto, no recente Festival de Cinema de Gramado, que o laureou com o importante Trofeu Oscarito.
Neste exato momento, o cineasta Marcelo Migliaccio realiza um documentário de longa-metragem sobre a trajetória do pai. Para tanto, vem revisitando, com Flávio (o Seu Chalita da série “Tapas e Beijos”, da Rede Globo) locais onde viveu e trabalhou. Trabalhou muito. Desde que se entende por gente. Sua memória registra o menino de nove anos, que vendia chuchu de porta em porta, para ajudar no sustento da casa. E que na juventude, para realizar o sonho de crianças (“ser Oscarito”), se aproximou do grupo de teatro da igreja do Tucuruvi.
Do teatro de igreja ele foi parar no Grupo Paulista do Estudante. E como jovens, naquela segunda metade dos anos 1950, sonhavam em montar um grupo de teatro que representasse o homem brasileiro, com seus problemas, falares e reivindicações, Migliaccio foi parar no Teatro de Arena. Aos 24, 25 anos, teve a alegria de atuar no filme “O Grande Momento”, de Roberto Santos (produzido por Nelson Pereira dos Santos) e na montagem original de “Eles Não usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guanieri. Dali em diante, atuaria também no CPC-UNE (Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes), integrando o elenco do seminal “Cinco Vezes Favela”, escreveria roteiros e se tornaria, “por acaso”, diretor de cinema (assinou seis longas-metragens) e colaborador de um documentarista premiado com o Oscar, o sueco Arne Sucksdorff. E faria parte do elenco de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, até chegar aos recentes “Boleiros 1” e “Boleiros 2”, de Ugo Giorgetti, e “Verônica”, de Maurício Farias. Uma trajetória e tanto para um menino de origem tão humilde.
Hoje, Flávio Migliaccio descansa num sítio sempre que não tem gravações na Rede Globo, que o emprega desde 1972. Em Gramado, por onde passou como um raio, agradeceu o prêmio, relembrou histórias marcadas pela modéstia e prestou tributo a Oscarito (1906-1970), um de seus maiores ídolos.
Ao filho, que está empenhado na realização de sua cinebiografia, Flávio diz o que não pode ficar de fora da narrativa: “acho que o Marcelo não deve deixar de fora as coisas que eu fiz de errado, as minhas fraquezas. É através delas que vão surgir a minha personalidade e o ser humano que eu, realmente, fui. Por exemplo, não suporto poluição sonora. Som alto, latido de cachorro, isso me tira do sério… Então tem que estar no filme”.
Brasil de Fato conversou com Flávio Migliaccio sobre o Teatro de Arena, sua paixão pelo Neo-Realismo italiano, os amigos (que já partiram) Roberto Santos, José Medeiros e Eduardo Coutinho, a irmã Dirce Migliaccio, um ano mais velha que ele, e que morreu em 2009, e sobre o maior dos amigos e parceiros, o ator Paulo José, que passará a integrar o time dos octogenários em março de 2017.