PAULO FREIRE, UM HOMEM DO MUNDO (SESCTV): SÉRIE DE CRISTIANO BURLAN

+ SESCTV:
PAULO FREIRE,
UM HOMEM DO MUNDO: Série de Cristiano Burlan
Considerações sobre a série “Paulo Freire, Um Homem do Mundo”, de Cristiano Burlan. Neusa Barbosa (na Folha) e Eduardo Escorel (no Blog dele, na Piauí) já fizeram suas considerações críticas sobre a série “protagonizada” pelo pedagogo da Libertação. Faço, agora, as minhas: Como iniciei minha trajetória profissional como professora de Comunicação e Expressão (para alunos de sexta série) em Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, Paulo Freire sempre fez parte da minha vida adulta. Em 1982, como diretora de Cultura do Sindicato dos Jornalistas do DF, ajudei a organizar um seminário sobre Paulo Freire, que resultou em um livrinho (plaquete é o nome certo, não Lúcio Vilar??). Foi um sucesso estrondoso, tanto o seminário, quanto o livro, que esgotou-se em poucos dias. Palestras de Venício Artur de Lima (UnB), Francisco Weffort (autor de magnífico prefácio de “Pedagogia do Oprimido”, ou “Educação Como Prática da Liberdade” – estou em dúvida), Maria Duarte e colegas da UnB que pesquisavam a obra de Paulo Freire. Tanto que, algum tempo depois, o Sindicato dos Professores do DF resolveu organizar outro seminário. Entre os palestrantes, Vanilda Pereira Paiva, de formação marxista (ela e o ex-marido Leandro Konder), Venício Artur de Lima, autor do essencial “Comunicação e Cultura – As Ideias de Paulo Freire” (Paz e Terra e, depois, segunda edição pela Fundação Perseu Abramo), etc, etc. Os debates pegaram fogo, pois Vanilda foi muito crítica ao idealismo cristão de Freire. E atribuía muito do sucesso planetário dele ao poder do Conselho Mundial das Igrejas, sediado em Genebra, na Suíça. ****Nos meus tempos de estudante na UnB, vivi uma experiência que me deixou marcada pelo resto da vida:
. Fomos, um grupo de estudantes, comandado por dois alunos de Engenharia Agronômica e Florestal da UnB (José Pires Saboia, e Hélio Lopes dos Santos, que viria a ser meu marido) realizar um debate numa Associação Comunitária, em Ceilândia. Todos falaram, perguntaram, etc. Chegou minha vez de intervir. O assunto eram hortas comunitárias. Fiz uma colocação (muito infeliz) questionando os moradores.. Por que não usavam a enorme faixa de terra dos lotes onde residiam para plantar verduras e leguminosas?? Os moradores me olharam atravessado. Quem era aquela estudante para questioná-los daquele jeito…. (um respondeu que não plantavam no terreno frontal, porque esperavam, a qualquer momento, a chegada da chance de construir casa de alvenaria no local, já que viviam apertados em barracos de madeira). Os debates continuaram. Quando fomos embora, no carro, Zé Pires & Helinho, que já conheciam Paulo Freire, me questionaram: por que você falou daquele jeito? Eles se sentiram agredidos. Você se apresentou como dona da verdade. Paulo Freire propõe o diálogo entre o educando e o educador, sem hierarquia. O camponês sabe muito da terra, um agrônomo não pode chegar lá como o dono da verdade. Tem que trocar informação, deve estabelecer base dialógica. A viagem de regresso, inteira, foi tomada pelas ideias do educador pernambucano. Vi, ali, que tinha que ler tudo que pudesse de Paulo Freire.Foi o que fiz. Aí vieram os dois seminários brasilienses e o livro do Venício, fruto de sua tese de doutorado nos EUA, etc, etc. Recentemente, li a biografia de Freire, escrita por Sérgio Haddad (Editora Todavia, 2019). E aí veio a série de Burlan, em cinco capítulos, escrita por ele, pela cineasta Ana Carolina Marinho (que conhece a região de Angicos, no Rio Grande do Norte, onde Freire praticou seu método de Alfabetização de Adultos), com colaboração de outra parceira. ****Dito isto, breves comentários sobre o que nos foi mostrado. 1. Burlan realizou pesquisa densa, foi atrás de ótimas fontes no Brasil e Suíça (e também com bons depoimentos de hispano-americanos e um barcelonês). Não teve que ficar paparicando familiares do pedagogo e, por sorte, Madalena Freire, a filha-educadora, é dona de fala vigorosa, que não nos cansa nunca. 2. O diretor-roteirista não despejou centenas de depoimentos, um atrás do outro, para nos esgotar com excesso de informação. Trabalhou com tempos “mortos”, cenas urbanas, de trens, águas, paisagens, etc, para que tivéssemos tempo de absorver o que víamos, refletir, dialogar com a imagem, enfim. 3. não transformou o método Paulo Freire de Alfabetização de Adultos em panaceia. Mostrou que a ideia de que seria possível alfabetizar uma pessoa em 40 horas apresentou-se imprópria e foi revista pelo próprio educador (outros paradigmas do método também foram revistos por Freire e suas equipes). 4. Ótimo o capítulo final, sobre a influência das ideias de Paulo Freire junto a grupos artísticos (Teatro Tijolo, Chico César e sua poderosa “uma cigana analfabeta/ lendo a mão de Paulo Freire”), etc. 5. A ausência de antagonistas (esta turma do ódio, que fez de Freire um demônio) é mais que válida. Por que dar voz a estes seres que não pensam, não refletem, não dialogam? Melhor fazer o que a série faz: mostrar que as ideias de Paulo Freire são revistas, reavaliadas, recriadas por seus praticantes/pensantes, assim que se deparam com os problemas. O próprio Freire, com sua tolerância cristã (daí seus críticos – refiro-me aos racionais e sensatos – o definirem como um “idealista cristão”), revê suas próprias ideias e trajetória. Num determinado trecho, ele, com sua serenidade costumeira, comenta: “alguns coronéis e generais, mas nem TODOS…” o mandaram para a prisão, depois para o exílio. No episódio de Angicos (o segundo, creio), vemos o futuro Marechal Castelo Branco, então comandante do IV Exército, acompanhando Jango e equipe em solenidade do MEC, no pequeno município potiguar. Ele teria lamentado com Freire “a falta de hierarquia” contida no método. E propôs um novo encontro, que Freire aceitou. Só que o Golpe de 1964, que teve Castelo entre seus próceres, não permitiu a troca de ideias” entre o futuro presidente-militar e o pedagogo. Mas, os militares fariam sua versão não-dialógica de educação com o Mobral (Movimento de Alfabetização de Adultos). *** Gostei do trabalho do Burlan e espero, mesmo, que ele o resuma em um longa-metragem, formato que circula bem em outras “vitrines”. E que, se possível, ouça Venício Artur de Lima, pois o livro-tese dele dá imenso alcance ao projeto freiriano de educação (e cultura) como prática da liberdade.