LARISA SHEPTIKO EM SÉRIE DE MARK COUSINS (É TUDO VERDADE/SPCINE)

LARISA SHEPTIKO
EM “WOMEN MAKE FILM”: Série apresentada pelo

Fest É Tudo Verdade e Spcine:

  • Depois de assistir às 14 horas da série do britânico Mark Cousins (“Women Make Film), exibida pela Spcine (parceria com o Festival É Tudo Verdade), constatei, satisfeita, que finalmente faz-se justiça à cineasta soviética Larisa Sheptiko (1938-1979), vencedora do Festival de Berlim 1977, mas praticamente desconhecida entre nós e em boa parte do mundo).Ela tem espaço nobre no novo road movie do realizador de “História do Cinema – Uma Odisseia”. Aliás, outras realizadoras do Leste Europeu também têm bom destaque na oceânica série (caso de Kira Muratowa e Martha Meszaros). E Cousins mostra seu interesse, que é realmente imenso, pelo cinema do mundo: da China, da Índia, do Japão, da Europa, da Oceania, da África, da América Latina (destaque para Lucrécia Martel e Maria Luiza Bemberg). O Brasil entra com dois trechos de “Elena”, documentário de Petra Costa, e com um significativo trecho de “Coração Materno”, de Gilda de Abreu. Aproveitem a reprise para ver esta série e, também, “A Herança da Coruja”, de Chris Marker. Segue trecho de

    MATERIA (PUBLICADA NA REVISTA DE CINEMA) SOBRE CINEMA RUSSO E SOVIÉTICO (EM DVDs DO CPC-UMES): (…) Dois filmes notáveis da cinematografia russa, realizados ainda na era soviética – “A Ascensão”, de Larisa Shepitko, premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, e “Vá e Veja”, de Elem Klimov, eleito em enquete promovida pela BBC inglesa “um dos melhores filmes de todos os tempos” – acabam de ganhar versões em DVD, lançadas pelo selo CPC-UMES (Centro Popular de Cultura da União Municipal de Estudantes de São Paulo).

  • Há pontos de união entre os filmes: ambos são poderosos dramas de guerra, feitos com ousadia e inventividade e capazes de resistir à ação do tempo. E, detalhe curioso, são fruto de dupla de diretores que eram, na vida civil, marido e mulher. “A Ascensão”, premiado em Berlim, em 1977, traz a assinatura de Larisa Shepitko, esposa de Elem Klimov (e mãe de Antônio Klimov). “Vá e Veja”, que foi restaurado pelas Cinematecas de Bolonha e Moscou e pelo World Film Fundation, coordenada, nos EUA, por Martin Scorsese, é sem sombra de dúvidas o momento mais luminoso da carreira de Elem Klimov (1933-2003).
  • Larisa Efimovna Shepitko, que era também atriz (de grande beleza) e roteirista, morreu, vítima de acidente de carro, em 1979, quando prepara novo longa-metragem, “A Despedida”. Tinha 41 anos. Estavam com ela quatro integrantes de sua equipe, que também vieram a óbito. A jovem realizadora mal teve tempo de desfrutar o Urso de Ouro conquistado na Berlinale. Consternado, Klimov dedicou a ela um curta-metragem “Larisa” (1980) e realizou “A Despedida”, projeto que ela deixara, por trágica razão, inacabado.
  • Foi depois de perder a esposa (e mãe de seu filho), que Elem Klimov realizou “Agonia” (1981), seu primeiro filme de repercussão internacional, sendo inclusive lançado no circuito de arte brasileiro. Catorze anos depois, assinaria “Vá e Veja”, seu trágico e atmosférico drama sobre um menino-guerrilheiro, perdido numa Bielorúsia conflagrada pela Segunda Guerra Mundial.
  • Larisa nasceu em janeiro de 1938, em Artemovsk, na Ucrânia, uma das quinze repúblicas que integravam a União Soviética. Klimov nasceu em Volvogrado, em 1933. Os dois se conheceram no Instituto Gerasimov de Cinematografia, o famoso VGIK, em Moscou, considerado a mais antiga escola de cinema do mundo. A jovem estudante orgulhava-se de ter sido aluna, por dezoito meses, de Aleksandr Dovchenko (1894 -1956), diretor dos clássicos “Arsenal” (1928) e “A Terra” (1930). Ainda nos anos de escola, ela participou, como atriz, de vários filmes, incluindo “O Poema do Mar” (1958), iniciado por Dovchenko, morto aos 62 anos, e concluído por sua esposa, Yulia Solntseva.
  • A jovem aspirante a cineasta graduou-se no VGIK em 1963, com “diploma de honra” por “Calor”, seu trabalho escolar. Ela tinha 22 anos. O filme conta a história de uma nova comunidade agrícola na Ásia Central em meados dos anos 50. No processo de montagem de “Calor”, Larisa contou com a ajuda do colega Elem Klimov, com quem se casaria no mesmo ano. Antes de triunfar em Berlim, com “A Ascensão”, a jovem diretora realizou “Asas” (1966) e “Você e Eu” (1971), este o único em cores.
  • “A Ascensão” (111 minutos) é um filme construído com poderosas imagens em preto-e-branco, a partir do romance “Sotnikov”, do bielorruso Vassil Bykov. Um grupo de guerrilheiros soviéticos luta contra o exército de Hitler, durante o rigoroso inverno de 1942. Fustigados pelas tropas nazistas, que avançam sobre o território da URSS, os partisans (eles não integravam o Exército Vermelho) enfrentam duras provações. A maior delas é a fome.
  • Dois guerrilheiros são escolhidos para sair em busca de provisões, enquanto os demais permanecem no acampamento. Rybak (Vladimir Fgostyhkin) e o judeu Sotnikov (Boris Plotnikov) tentam conseguir alimentos onde for possível. Depois de muito esforço, conseguem um carneiro, mas acabam capturados por um comando nazista. Submetidos a interrogatórios, sob tratamento brutal, cada um reagirá a seu modo.
  • Larisa constrói um drama realista, centrado nos dois guerrilheiros, submetidos à provação máxima: delatar ou não os companheiros. Tornar-se um colaboracionista ou morrer enforcado? Que opção escolher?
  • Os protagonistas, atores de imensos recursos, nos arrebatam com seus dramas de consciência. Um filme de guerra em tudo diferente dos épicos de guerra hollywodianos. “A Ascensão” — como diz o título escolhido por sua autora (ela preferiu-o ao nome de um dos protagonistas, opção do escritor Vassil Bykov) — discute o estado de “elevação” de quem marca sua existência por princípios. Aqueles que trocam a própria vida pelo bem coletivo. (…)