DEMOCRACIA EM VERTIGEM (ALGUMAS


(Este texto nada tem a ver com comentários pesados vindas de vozes que militam no espaço digital abraçadas a credos de direita ou extrema direita. São, isto sim, breves reflexões a partir de questionamentos de pessoas que pensam o cinema, em especial, o documental).

Por Maria do Rosário Caetano

Li comentários tão simplificadores sobre “Democracia em Vertigem” (até de Inácio Araújo, um dos críticos mais qualificados – senão “o” mais — do país, que se referiu ao documentário como mais um exemplar do “nenhenhem” de Petra Costa), que resolvi revê-lo.

Apesar da dor de revisitar tudo que o país passou nos últimos anos, em especial durante aquela interminável sessão do Congresso Nacional – a que votou o impeachment de Dilma Roussef em momento dos mais tenebrosos de nossa história, com parlamentares evocando Deus, os familiares e, até, torturadores!!!.

Cheguei a me questionar: será que o filme me “cegou”? Será que fui tomada por (dolorosa) emoção e não enxerguei os defeitos do terceiro longa de Petra? A narração (em primeira pessoa) da diretora seria banal, tola, nenhenhem???? Uma articulista, na Ilustríssima, definiu o texto petriano como de baixíssima qualidade (literária).

Revi o filme e continuo vendo nele uma obra madura (não sou do time dos que têm “Elena” e “O Olmo e a Gaivota” em altíssima conta), bem-construída, digna de figurar na lista dos 15 semi-finalistas ao Oscar (entre 150 candidatos) e, depois, entre os 5 finalistas. E olhe que vi muitos, mas muitos dos 15 semi-finalistas (e parte, digna de registro, dos 150 títulos iniciais).

Quem selecionou o documentário brasileiro para a disputa do Oscar foi um substantivo comitê criado (pela Academia de Hollywood) para aperfeiçoar o prêmio desde que “Basquete Blues” (Steve James, 1994) ficou escandalosamente fora da competição oficial. Gente que vive de (e para) o documentário, que discute linguagem, vê filmes nos mais importantes festivais dedicados ao gênero, planeta a fora.

O que é “Democracia em Vertigem”? Um documentário subjetivo. Aquele cujo recorte consiste em jogar um olhar (do realizador) sobre determinada experiência vivida, seja ela de caráter íntimo-familiar (caso do suicídio de Elena, a irmã de Petra Costa), seja sobre um trecho da vida brasileira (caso do filme recém-indicado pela Academia). Para construir seu longa-metragem (com 2h01′ de duração), Petra colheu 8 mil horas de imagens (produzidas por equipe própria ou buscadas em arquivos, em especial os de Roberto Stucker, fotógrafo de Luiz Inácio Lula da Silva). Buscou consultoria de um cineasta (Eduardo Escorel), também montador de primeira linha, professor universitário (na prestigiadíssima FGV), pesquisador e crítico. Cercou-se de parceiros jovens e criativos (uma corroteirista, cinco montadores, etc). E trabalhou incansavelmente.

Para amarrar sua narrativa, produziu texto confessional, de raro poder de síntese e qualidade cinematográfica (portanto — desculpem a redundância – para cinema, não uma peça literária). Buscou diálogo com os maiores documentaristas do mundo. Em especial Chris Marker, de quem Petra admira a obra inteira e cita, em especial, “O Fundo do Ar (ainda) É Vermelho”. E, de forma acessória, “Elegia para Alexandre” (Medvedkine), grande documentarista soviético, tema desta “Elegia”, um dos mais belos documentário realizados pelo maior dos documentaristas franceses.

Em entrevista a Juca Kfouri, na TVT (TV dos Trabalhadores), Petra contou que, ao assistir a “Elegia para Alexandre”, estabeleceu imenso afeto por sequência que magnetizou seu olhar (o czar portava um chapéu e o movia com elegância profundamente aristocrática, um gesto que seria banido pelos tempos revolucionários que se aproximavam).

Quando Kfouri quis saber como Petra se detivera nas mãos meio sem-lugar de Michel Temer, durante a segunda posse de Dilma (de quem era vice), Petra contou que quis fazer seu “momento-homenagem a Marker-Medvedkine). E citou suas outras fontes de diálogo (em entrevista a Fernando Morais, no Blog Nocaute): “A Batalha do Chile”, o épico documental de Patricio Guzmán, e, até, “Cabra Marcado para Morrer”, entre outros filmes de Eduardo Coutinho.

Aos 36 anos, Petra, que é antropóloga de formação, mostra sólido conhecimento da história do cinema documental. Mostra que pensou cada momento de seu filme. Refletiu muito antes de tomar cada decisão. E ouviu muito sua equipe.

A jovem realizadora, vinda da elite econômica do país (os avós mineiros fundaram a Construtora Andrade Gutiérrez), sustenta com serenidade a opção estética mais controvertida do filme: o uso fugaz (míseros segundos) de foto na qual são vistos dois corpos mortos (de Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, dirigentes do PC do B, massacrados em dezembro de 1976 na chamada Chacina da Lapa paulistana).

A “falha ética” de Petra foi revelada pela revista Piauí, meses atrás (e registrada nas oito páginas que a revista Veja dedicou ao filme, sua diretora e honrosa indicação ao Oscar). Na foto original, usada pela documentarista, havia armas ao lado dos corpos mortos (assassinados) de Pomar e Arroyo. Como Pedro Pomar foi companheiro de luta dos pais de Petra, a realizadora achou por bem, sustentada por depoimento paterno e materno e, principalmente, pela Comissão Nacional da Verdade, apagar as armas da imagem. Afinal, elas teriam sido plantadas pelos militares do DOI-CODI, autores do massacre da Lapa. Em seu documentário subjetivo, ela mostraria a verdade da história real. Não a encenada pelos militares para registro de seus policiais-fotógrafos.

Escorel condenou, na Veja, a decisão de Petra. O mesmo fizera (em entrevista à Folha de S. Paulo) Amir Labaki, outro grande estudioso do cinema documental e curador do Festival É Tudo Verdade, o maior da América do Sul destinado ao gênero.

Petra não abriu mão de sua escolha. Ela está no filme e pode ser conferida por quem acessar a Netflix, serviço de streaming que colocou o filme em TVs de todo o planeta. Ela sabe o que quer.

Quem se dispuser a rever “Democracia em Vertigem” como um documentário subjetivo (ou confessional, embora, paradoxalmente, tenha caráter épico) verá um filme de imensas qualidades, montado em ritmo vertiginoso, com trilha sonora nunca apelativa e muito feminino. Afinal, há que se registrar, nele estão imagens colhidas por três gerações de mulheres. A avó de Petra, que filmou a nascente Brasília niemárica, a mãe, que filmou a filha pequena, e, por fim, e principalmente, a filha, que tornou-se cineasta, primeiro realizando curtas e, depois, três longas-metragens. E que agora prepara-se para novo mergulho na história do Brasil. Seu novo tema é a construção da nação brasileira e sua trágica (e complexa) herança escravocrata.

Das críticas que recebeu, Petra Costa absorveu, com humildade, a que definiu seu filme como “muito branco”. Ou seja, sem negros no centro da narrativa. Numa história tão terrível como a retratada em “Democracia em Vertigem”, convenhamos, é reconfortante não ver negros enaltecendo familiares e… torturadores. Pela complexidade do tema de seu quarto documentário, Petra deverá consumir mais uns três anos, tempo que dedicou ao filme que a levou à nobre condição de finalista ao Oscar de Hollywood.

O Brasil esteve em tal condição por três vezes: com “Raoni”, de Duttileux e Saldanha, “Lixo Extraordinário”, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, e com “O Sal da Terra”, de Wim Wenders e Juliano Salgado, todos coproduções internacionais. Mas, desta vez, “Democracia em Vertigem” é um filme 100% brasileiro. Vai enfrentar concorrência pesadíssima. O favorito é “American Factory”, filmaço produzido pelo casal Michelle e Barack Obama. Há quem (ainda) aposte no fascinante “Honeyland”, uma maravilha, um fruto raro vindo da Macedônia do Norte. A sorte está lançada.