FAM ENTREGA NA NOITE DE HOJE TROFEU PANVISION + ESPERO TUA (RE)VOLTA NA COMPETIÇÃO DOC

FAM – TROFEU PANVISION AOS MELHORES DOCUMENTÁRIOS DO MERCOSUL

“ESPERO TUA (RE)VOLTA”, UM DOS CONCORRENTES, MUDOU O DESTINO DE TRÊS SECUNDARISTAS (na colagem de fotos, o montador Yuri Amaral)

Maria do Rosário Caetano

Florianópolis (SC) — Seis longas documentais disputam, na noite de hoje — quando serão entregues os troféus Panvision do FAM (Florianópolis Audiovisual MercoSul) — os prêmios de melhores produções da região: o argentino “Gran Orquestra”, de Peri Azar, o chileno “Zurita”, de Alejandra Carmona, e os brasileiros “Bando, Um Filme De:”, dos baianos Lázaro Ramos e Thiago Gomes (sobre o Bando de Teatro Olodum), “Eduardo Galeano: Vagamundo”, de Felipe Nepomuceno, “Missão 113″, de Silvio Da-Rin (sobre o atentado do RioCentro) e “Espero Tua (Re)Volta, de Eliza Capai. Os filmes estão sob análise de júri em que atuam a produtora brasileira Assunção Hernandez, e o gestor chileno Ignacio Aliaga, do Departamento de Fomento da Cultura e Artes do país andino.

Felipe Nepomuceno mostrou seu documentário sobre o escritor uruguaio Eduardo Galeano no Cine Show, complexo de salas catarinenses que sedia o FAM, e depois, atendendo a convites, iniciou exibições em universidades e escolas, sempre seguidas de debate.
Outro filme que vem fazendo dos debates em escolas mecanismo para ganhar maior visibilidade é “Espero Tua (Re)Volta”. Sua diretora, Eliza Capai, não pôde vir ao FAM. Fez-se representar pelo montador Yuri Amaral (foto), peça-chave na condensação desta narrativa sobre as ocupações de escolas comandadas por estudantes secundaristas de São Paulo, ocorridas em 2015. Afinal, diretora e montador trabalharam com 90 horas de imagens (a maioria produzida por midioativistas, em especial pelo fotógrafo e videomaker Caio Castor).
O filme, que teve sua première mundial na sessão Generation, do Festival de Berlim, em fevereiro, passou, nestes oito meses, por mais treze festivais. Em Berlim, conquistou dois prêmios paralelos (o da Anistia Internacional e o Prêmio da Paz, atribuído pelo Partido Verde Alemão). No Brasil, recebeu, entre outros, quatro prêmios no Cine PE-Recife (incluindo o da Crítica-Abraccine). No total são 14 prêmios.
“(Re)Volta” já foi lançado no circuito cinematográfico de algumas cidades brasileiras. Não fez bilheteria significativa, mas segue disponível para exibição em escolas e universidades, graças a projeto de “Distribuição Social” montado pela Taturana. Como o filme integra pacote de documentários (que já soma 60 títulos) apoiado pela GloboNews, Rede Globo e Canal Brasil, deverá chegar à tela do “canal que toca notíciais” a qualquer momento.
Yuri Amaral não sabe se o filme será exibido pela GoboNews (em horário nobre, num sábado), mas torce para que seja. “Creio que eles estão esperando a conclusão do ciclo de festivais, pois já participamos de 14″. O montador de “Espero Tua (Re)Volta” não acredita que a emissora tenha se desinteressado pelo filme de Capai, por privilegiar o ponto de vista dos ocupantes de escolas e ser crítico à grande mídia. Um filme, afinal, que se construiu com imagens de mídias alternativas. Ele faz questão de lembrar que o acordo assinado pela produção do documentário com seus parceiros do sistema Globo torna facultativo o interesse das três emissoras em exibir (ou não) o filme.
“Espero Tua (Re)Volta” foi construído num tempo conturbado (aquele que abarca as manifestações de Junho de 2013, as ocupações de 2015, o impeachment de Dilma Roussef e encerra-se com cartela que registra a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições) e concluído no momento em que, pela primeira vez, “o Brasil elegeu um presidente de extrema-direita”.
Yuri Amaral conta que Eliza Capai e seus colaboradores construíram o filme com a intensão de “desconstruir a imagem dos secundaristas, vistos como um bando de bagunceiros ou jovens a serviço de algum partido político”. Para atingir este objetivo, ela entrevistou centenas de pessoas envolvidas com as Ocupações. Entre elas, as jovens Nayara Souza, Marcela de Jesus e o “poetry slamer” Lucas ‘Koka’ Penteado. A desenvoltura, o carisma e as histórias dos três secundaristas a fizeram ver que eles deviam ser o fio condutor da narrativa. Mergulhada nos registros visuais de reuniões, assembleias e ocupações (de escolas e, também, da Assembleia Legislativa de São Paulo) ela começou a escrever o roteiro do documentário.
O montador lembra que Eliza mostrava o texto aos três secundaristas, que sugeriam mudanças e davam o tom, cheio de gírias, de suas falas. Marcela de Jesus, por exemplo, lembrou que ela, jovem black e pobre da periferia, não fôra ao Congresso de Estudantes em Belo Horizonte, porque não tinha dinheiro para pagar a passagem. E sugeriu que Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) aparecesse no filme, pois “a luta por moradia tem tudo a ver com a vida dos estudantes de escolas públicas, em maioria pobres”.
Durante um ano, Eliza Capai e Yuri Amaral trabalharam a montagem do filme. As cenas de enfrentamento entre secundaristas e policiais são impressionantes. A narrativa dos três secundaristas é calorosa, vibrante, épica em alguns momentos, íntima em outros. Além da luta em defesa da escola pública, eles falam de temas como racismo, amor homoafetivo e feminismo. Afinal, nas quase 200 escolas ocupadas na Grande São Paulo, os rapazes faziam corpo mole ao executar tarefas como cozinhar e lavar vasilhas. No fundo, desejavam que elas ficassem com as meninas. Estas se rebelaram e os meninos tiveram que cascar legumes, cozinhar, lavar pratos e fazer faxina. Junto, ou seja, em parceria com as jovens empoderadas.
O espanto se impõe, finda a exibição de “Espero Tua (Re)Volta”: como aqueles jovens que conquistaram, com muita luta, sua principal reivindicação — impedir o fechamento de dezenas de colégios e a transferência para outros prédios, distantes de suas casas, o que acarretaria gastos com transporte — sumiram das ruas? Por que a apatia, hoje, parece tão grande? Que fim levaram aqueles estudantes?
O destino dos três narradores de “(Re)Volta” é explicitado por Yuri Amaral: Marcela de Jesus, que alisava os cabelos desde pequena e, na luta, que aprendeu a valorizar sua beleza black, tornou-se atriz. Ela atua no grupo teatral que mantém em temporada o espetáculo “Quando Quebra Queima”, que já se apresentou na Inglaterra (em Londres) e Portugal e segue rodando o as cinco regiões brasileiras. Está escalada para o elenco de uma série feita para o streaming.
O slamer Lucas ‘Koka’ Penteado atuou, com um bom personagem, na telenovela juvenil “Malhação”(na fase dirigida pelo cineasta Cao Hamburger). Segue com suas apresentações de poetry slam (ele arrasa ao mostrar poema cantado no filme) e tem novos convites para fazer TV e teatro.
Mayara Souza foi eleita presidente da UEES (União Estadual de Estudantes Secundaristas) e pretende seguir carreira política. Seja como vereadora ou deputada. Está se preparando para participar das próximas eleições e fazer política pela via parlamentar.