OLHAR DE CINEMA — RARIDADES DOS “OLHARES CLÁSSICOS”

Filmes da Mauritânia, Japão,

URSS e de Nicolas Roeg
encantam cinéfilos no Festival

Internacional de Curitiba

Maria do Rosário Caetano

Curitiba — Nenhum, entre os festivais brasileiros, dedica tanta atenção e respeito ao cinema do passado quanto o Olhar de Cinema. Embora seja um festival que realiza três competições voltadas ao cinema contemporâneo (de orçamentos contidos e mais experimentais), o evento curitibano consagra dezenas de sessões (e ótimos horários) a filmes raros, restaurados e vindos de muitas décadas atrás.
Este ano, além de rever títulos históricos de Raul Ruiz e colocá-los em diálogo com filmes brasileiros realizados no tempo em que o Brasil vivia sob a ditadura militar, o Olhar construiu singular mostra sob a cada vez mais prestigiada rubrica “Clássicos”. O gancho foi a morte recente de muitos dos realizadores. Caso de Agnès Vardá (com seu belíssimo “Os Renegados”), Nélson Pereira dos Santos (com “Memórias do Cárcere”), Stanley Donen (“Cantando na Chuva”), Jonas Mekas (“Reminiscências de Uma Viagem à Lituânia”), e Bernardo Bertolucci (“O Conformista”).

A pioneira do pensamento e realização cinematográficos, Germanine Dulac (1882-1942) entrou na programação com um média-metragem e dois curtíssimos (“Danças Espanholas”, “Aqueles que se Fazem” e “O Cigarro”).
Julie Dash, nascida nos EUA em 1952, teve escolhido seu “Filhas do Pó”, primeiro longa-metragem de uma autora black a ganhar distribuição em amplo circuito exibidor. Está viva e pôde desfrutar da alegria de ver seu “Filhas do Pó” protegido pela Biblioteca do Congresso norte-amricano como “tesouro nacional” e, por isto, patrimônio a ser preservado.
Completam a safra Olhares Clássicos, quatro filmes que merecem destaque por sua raridade (mesmo caso do filme de Julie Dash): o mauritano (é assim que escrevemos o gentílico de quem nasce na Mauritânia africana?) “Ó Sol” (“Soleil Ô”), de Med Hondo (1936-2019), o japonês “O Funeral das Rosas”, de Toshio Matsumoto (1932-2017), “Conhecendo o Vasto Mundo”, da soviética Kira Muratova (1934-2018) e “A Longa Caminhada”, do britânico Nicolas Roeg (1928-2018).
Quatro filmes, além de raros, muito ousados e instigantes. “Ó Sol”, restaurado por franceses e italianos (graças ao magnífico projeto L’Imagine Ritrovata, da Cinemateca de Bolonha), é um dos grandes momentos do cinema noir, não de gênero “noir”, mas black movie. Ele chega ao Brasil graças aos estudos da professora universitária e cineasta baiana Amaranta César. Por ter feito pros-graduação na França, interessada no cinema africano, Amaranta mergulhou em ricos acervos e pôde descobrir tesouros de grande relevância e ousadia formal e temática.

Med Hondo, sintético nome artístico de Mohamed Abid Hondo, consumiu quatro anos para construir este filme, nos intervalos de sua labuta como garçom em Paris. De forma fragmentada, somou narrativas protagonizadas por um jovem, alto, belo, bem-formado e… negro de origem mauritana. Vemos o personagem em suas perambulações em busca de emprego e respeito pela capital francesa, depois de prólogo alegórico (no qual um militar branco comanda “cristãos negros” e cruzes se transformam em espadas). Nossos pensamentos nos levam, na hora, ao martinicano Frantz Fanon (1925-1961), a mais forte voz black a erguer-se contra o colonialismo e o rascimo.
O filme, de 1967, vem embalado em trilha sonora das mais inventivas e atrevidas. E traz imagens banhadas em sátira corrosiva, somadas a poderosos ícones dos ‘sixties’ (Malcolm X e Che Guevara são alguns deles). O distanciamento brechtiano se faz presente e o filme nos chega cinco décadas depois de sua difícil realização. Por sorte, segue moderníssimo e digno de figurar, junto com “Garota Negra”(do senegalês Osmane Sembene, 1966) entre os momentos mais luminosos da história do cinema africano.
Raro, original e moderníssimo é também “O Funeral das Rosas”, de Matsumoto. O artista, morto há dois anos, notabilizou-se por seus experimentos (com videoarte e neo-documentarismo). Para ele, registros documentais poderiam (e deveriam) ser usados para “expressar estados emocionais subjetivos”. Estava certíssimo, pois em sua ficção “Funeral das Rosas”, os registros documentais (passeatas do Maio de 1968 japonês, depoimentos de travestis colhidos nas ruas ou em clubes gays) nos encantam de forma perturbadora e enigmática.
Se, ainda hoje, filmes com personagens transexuais surpreendem aos conservadores, imaginemos o impacto deste filme no Japão, cinco décadas atrás (foi lançado em 1969). A protagonista deste longa-metragem é Eddie, uma linda e delicada travesti nipônica, com cara de boneca de porcelana. Interpretada por Peter, famoso artista gay, Eddie chega ao cabaré Genet e transforma-se na mais cobiçada de suas estrelas. A responsável pelo Genet, uma transexual bela, mas já idosa, sente-se ameaçada pela jovenzinha. Forma-se triângulo com homem poderoso num dos vértices. Dentro (e fora) daquele espaço voltado a outras formas de amar, eles viverão seus dramas.
A trama de Matsumoto, também autor do roteiro, desenvolve-se como um filme dentro do filme. Ancorado na liberdade da ficção, O inventivo japonês  dá asas à imaginação e usa de total liberdade criativa, misturando gêneros (policial sangrento, musical, documentário e, até, tragédia grega, que evoca Édipo Rei). O resultado é espantoso. E as travestis de “O Funeral das Rosas” são as mais lindas já mostradas pelo cinema. Há que se fazer muito esforço para encontrar o pomo de Adão, marca masculina difícil de esconder, nos delicados pescoços de Eddie e suas colegas. E, até na emissão vocal, elas conseguem disfarçar bem (pelo menos para nossos ouvidos ocidentais). A turma do Mix Brasil tem que correr atrás deste filme de raro poder de invenção.
Cinéfilos conhecem bem a obra de Kira Muratova, nome feminino dos mais respeitados da era soviética. Mas o grande público brasileiro talvez nunca tenha ouvido falar dela e de sua obra.

“Conhecendo o Grande e Vasto Mundo”, de 1978, nos encanta em seus sintéticos 75 minutos. Primeiro filme em cores da realizadora, ele nos transporta para uma viagem de visual hippie, com sua história de amor, uma espécie de “Jules et Jim” truffatiano, só que mais solar, portanto, menos angustiada. Estamos na URSS, onde o coletivismo dá as cartas. Mutirões constroem conjuntos habitacionais, fábricas, usinas, organizam colheitas de cereais. Um grupo de jovens vai dedicar-se a um projeto de construção civil em área rural. A bela Lyuba é uma estimuladora coletivista e oradora, encarregada de manter mobilizado o espírito dos jovens trabalhadores. Dois pretendentes disputam seu amor: o tímido Misha e o esquentado Kolia. Suas vidas correm, sem grandes reviravoltas, em meio à lama, vigas e tijolos. Um poema visual, que imanta nosso olhar e nos estimula a correr atrás de outros filmes desta realizadora, morta ano passado.
Por fim, uma última surpresa. Primeiro, registre-se que não me incluo no time de admiradores de Nicolas Roeg. Nem seu filme mais festejado — “Inverno de Sangue em Veneza”(1973) — me tem entre seus cultores. Morto ano passado, aos 90 anos, este longevo diretor de fotografia (trabalhou com Truffaut, em “Fahrenheit 451″) e diretor de quase 20 filmes, teve poucos títulos lançados no circuito comercial brasileiro. Um deles — “O Homem Que Caiu na Terra”, 1976) — ganhou notoriedade mais por seu protagonista (o astro David Bowie), que por sua manufatura.
Por que ir, então, atrás de um filme de Roeg num festival como o Olhar de Cinema, com dezenas de ótimas opções diárias? Ao ler a sinopse de “A Longa Caminhada” (Walkabout, 1971), coloquei meus prejulgamentos de lado e resolvi arriscar. Valeu a pena. O filme, o segundo longa do britânico, causa boa impressão por seu grande impacto visual (não tive tempo de conferir se ele é o autor da bela fotografia ambientada no deserto australiano).
No começo, vemos três personagens ingleses: um senhor de idade que dirige um carro, uma jovem de imensa beleza e um menino inquieto. Todos vestidos como se fossem a uma festa de gala. Eles estão com um farnel de comidas, geleias e frutas, prontos para um piquenique no tórrido deserto australiano. A moça usa meias finas, o garoto um terninho mais british impossível. Ninguém ali parece estar de férias. Mas eles estão. Algo de muito inusitado acontecerá. Dois dos personagens seguirão, com sede e fome, pela imensidão desértica, até encontrar um aborígene. Ele é jovem, domina a natureza, sabe caçar e dançar. Sua pele muita negra contrasta com a dos britânicos brancos leitosos. O que veremos dali em diante é a convivência entre os “civilizados” e o “bárbaro”.       Soubemos, no Olhar de Cinema, que o rapaz aborígene — na época das filmagens ele tinha 16 anos — teve trajetória conturbada. Trajetória que está sendo registrada num longa documental.
“A Longa Caminhada” é um filme de grande beleza plástica. A trama não se aprofunda nas relações entre europeus e aborígenes, mas Roeg faz da natureza agreste, atento aos movimentos da fauna (em especial estranhos lagartos), o quarto principal personagem do filme. Ver “Walkabout” é um estímulo (a quem não tem Nicolas Roeg como um grande diretor) a nos arriscarmos na busca de outros de seus primeiros filmes.