FEVEREIROS, MARIA BETHÂNIA EM UM FILME SOBRE RELIGIOSIDADE + “QUEM É ATEU E VIU MILAGRES COMO EU”… MILAGRES DO POVO, DE CAETANO VELOSO

+Squel, porta-bandeira da Mangueira, aparece no filme de Marcio Debellian:

“FEVEREIROS”

(MARIA BETHÂNIA):

Já assisti a muitos filmes com (ou sobre) Maria Bethânia:

“Bethânia Bem de Perto”, de Bressane & Escorel, “Saravah”, de Pierre Barouh, “Quando o Carnaval Chegar”, de Cacá Diegues, “Os Doces Bárbaros”, de Jom Tob Azulay, “Maria Bethânia, Música é Perfume”, de Georges Gachot, “Maria Bethânia, Pedrinha de Aruanda”, de Andrucha Waddington, “Karingana – Licença Para Contar”, de Mônica Monteiro (este, ainda não vi, mas vou ver!), “O Vento Lá Fora”, de Márcio Debellian… E, como brinde milionário, vimos a cantora em “O Desafio”, de Paulo Cezar Saraceni (inserção documental de “Opinião, o Show”) e dando depoimentos em muitos outros filmes, de outros artistas (neste caso, destaque especial para o delicioso depoimento dela em “Pitanga”, de Beto Brant e Camila Pitanga).

Daí que, ao ouvir falar de “Fevereiros”, outro filme de Márcio Debellian, pensei: mas há assunto para mais um filme sobre Bethânia, por mais interessante que ela seja?

Acabei não vendo o filme. O vejo só agora, quando ele chega ao circuito exibidor (nesta quinta-feira, 31 de janeiro). E a resposta é sim, há razão para ver mais um filme sobre Bethânia, pois “Fevereiros” é um ótimo documentário, com muito a dizer. Trata-se de um dos 60 longas documentais que a GloboNews, Canal Brasil e GloboFilmes produziram (estão produzindo) nestes últimos quatro/cinco anos.

“Fevereiros” aproveita um acontecimento carnavalesco para falar de religiosidade. Maria Bethânia foi tema-enredo da Mangueira em 2016 (Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá”). A escola sagrou-se campeã. Mas a força do filme vai além do poderoso carnaval mangueirense, que apresentou a mais bela porta-bandeira já vista na avenida (Squel, como a cabeça “raspada” e pintada em branco para fazer o santo e envolta em muitas plumas, também brancas) e revelou, pelo menos para mim, o genial e politizado carnavalesco Leandro Vieira (na época companheiro de Skell).

Debellian construiu o filme em dois cenários (Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia, e no Sambódromo do Rio) e com dois sólidos blocos de depoimentos (o núcleo baiano, mais forte, e o carioca, complementar).

Bethânia e os irmão Mabel e Caetano são as vozes mais poderosas do bloco santamarense. Têm muito a dizer. Jorge Amado entra em participação especialíssima, com imagens arrebatadoras (dele com Mãe Menininha do Gantuá), que só podem – pela qualidade – serem francesas (do acervo do INA, hoje o maior banco de imagens do Ocidente).

O bloco carioca se compõe com depoimentos de Squel e Leandro Vieira, sintética e poderosa participação Marco Antônio Simas e depoimento inesperado de Chico Buarque. O que faria Chico num filme sobre a religiosidade de Bethânia, sendo ele um agnóstico? No começo, ele parece um peixe fora d’água, mas logo engrena um depoimento revelador. Diz ser uma pessoa não-religiosa. Se religioso fosse, escolheria o candomblé como caminho. Fala do respeito que tem pela fé de Bethânia (uma cena de “Quando o Carnaval Chegar” mostra depoimento dela sobre sua religiosidade e ele escuta, em silêncio).

Caberá a Caetano Veloso dar organicidade aos “peixes fora d´água” Jorge Amado e Chico Buarque. O autor de versos de beleza epifânica – “Quem é ateu e viu milagres como eu/Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar, nem cansam de esperar” — ao explicar a origem desta canção torna tudo luminoso. Caetano conta que, nos anos 1970, o Pasquim o convidou para participar, coletivamente, de entrevista com Jorge Amado. Como tinha compromisso inadiável, não pôde comparecer. Pediram que ele enviasse uma ou duas perguntas. O compositor enviou e o assunto escolhido foi religião. Perguntava se Jorge acreditava nos cultos afro-brasileiros.

Jorge respondeu que não acreditava em nada, pois era ateu, ao contrário do amigo Dorival Caymmi. Pensando na resposta de criador de “Tenda dos Milagres”, Caetano criou “Milagres do Povo”. Só por esta sequência, “Fevereiros” já se constituiria como programa obrigatório. Mas os méritos são muitos: as imagens de Santo Amaro são belíssimas, o depoimento de Mabel é de merecido protagonismo, pois ela é muito articulada e franca, as filmagens do sambódromo perpetuam Skel em sua dança-vôo, as imagens de arquivo só enriquecem a narrativa (embora muitas estejam bem desbotadas ou sejam precárias).

Sobre Mabel Velloso (só ela tem dois elles?), um registro: ela conta que nunca foi escolhida para ser “anjo”, menos ainda arcanjo, nas atividades religiosas santamarenses. “Creio que me achavam muito escurinha para ser um anjo”. Já Bethânia, desde pequena, foi anjo, subiu os degraus da igreja, chegou ao céu dos arcanjos. Desde aquela época, as festas religiosas de fevereiro são aguardadas fervorosamente pela cantora, que vai para Santo Amaro, participar ativamente de missas e procissões.

Mesmo quem não é religioso (meu caso) há de interessar-se e muito pelo que Bethânia vive a cada fevereiro. Só uma restrição: os créditos de imagem (fruto de pesquisa de Antonio Venancio) podiam ser mais exatos e esclarecedores. Num caso, em especial, há omissão grave: “Saravah”, de Pierre Barouh, o seminal documentário do ator e documentarista francês, não integra a lista de fontes de imagens. E a fonte é óbvia demais: João da Bahiana, que aparece dançando, foi registrado por Barouh. O francês aparece em cena, ao lado de Baden Powell (alma do filme, que tem em Bethânia e Paulinho da Viola dois de seus astros mais brilhantes).

Pierre Barouh (1934-2016) legou ao Brasil, com “Saravah”, um dos mais belos registros de nossa música popular, indo de João da Bahiana e Pixinguinha até os jovens Bethânia e Paulinho, sob o olhar tímido e poderoso de São Baden Powell. Um filme que merece um making of póstumo. Póstumo e urgente. Já tentei convencer muitos cineastas brasileiros a realizarem este filme, nenhum se interessou. Agora tenho dois outros em mira e vou me dedicar mais uma vez a esta missão. Alma missionária – mesmo uma agnóstica como eu! – todo mundo sabe que eu tenho.