MURILO SALLES E O NANDO DE CAIO JUNQUEIRA EM “SEJA O QUE DEUS QUISER!” (SQDQ!”)

+ MURILO SALLES

+ CAIO JUNQUEIRA (SQDQ!)

+ Pedi ao cineasta e fotógrafo Murilo Salles, que me mandasse um depoimento sobre o trabalho de Caio Junqueira, o Nando, de SQDQ!. Afinal, neste filme Caio interpreta um papel muito raro na trajetória dele. Divide o protagonismo com Rocco Pitanga. E só me lembro dele, como protagonista, na novela “Ribeirão do tempo”, de Marcílio Moraes. Abaixo, o depoimento de Murilo.

CAIO JUNQUEIRA
“SEJA O QUE DEUS

QUISER!” (SQDQ!)

Por Murilo Salles
Cineasta e diretor de fotografia

Nenhum obituário foi digno da dimensão e da qualidade do Ator Caio Junqueira. Dos melhores atores de sua geração, senão o melhor. Caio era uma pessoa muito especial, sua alegria, seu encanto, seu carisma eram contagiantes. Ninguém escapava de ficar cativado por ele. Mas principalmente e antes de tudo Caio foi um grande ator. Trabalhei com ele no Seja o que Deus Quiser!, no qual ele compôs um personagem sem precedentes. Fora de registro, fora de qualquer tentativa de enquadrá-lo a um gênero de personagem. As pessoas achavam que ele estava caricatural porque não entendiam aquele personagem que as irritava, era um sátiro que ridicularizava aquilo que as pessoas, tentando se agarrar a um sociologismo, tacharam como caricatura. Ele fez um personagem para além de qualquer definição, numa composição surpreendente e corajosa. Vejam o filme hoje! O trabalho do Caio é uma coisa arrebatadora! Consegui montar uma “turma de atores” muito especial, fui muito feliz nas escolha de cada um deles, todos necessários ao filme que estava querendo chutar o pau da barraca, uma sátira quase barroca (essa foi boa!), uma ironia com cariocas e paulistas, invertendo os clichês, uma zombaria, até mesmo com Gilberto Freyre. Uma fábula sem moral como bem definiu José Geraldo Couto em sua maravilhosa crítica do filme. Voltando ao Caio, quando ele leu o roteiro, como de praxe discutimos a composição do personagem, e como gosto sempre de fazer com os atores que trabalham comigo, propus a ele uma imersão no mundo daquele personagem. O meu assistente à época, Pedro Paulo de Souza, introduziu Caio na noite paulista, mas principalmente nos lugares que aquele “tipo” de personagem frequentava. FOI. Caio sumiu! Mas sumiu mesmo. Abduzido. Pensávamos: ele não é louco, qualquer coisa vai gritar. Foi chegando perto de começar a filmar, onde estava o Caio? Sim, vez ou outra ele aparecia no Hotel, o que nos tranquilizava. Achei que ele tinha encontrado o Amor de sua vida, que bom. Mas, nada de Caio… Se não me falha a memória, na véspera de começarmos a filmar, ele aparece com o cabelo cortado como está no filme! Foi angustiante até, pois na prova de figurino, ele simplesmente se transubstanciou no Nando. Resumindo, foi o “Nando” que escolheu o seu figurino. E foi assim durante toda a filmagem. Não era o Caio que estava no set, era o Nando. Confesso que nunca tinha vivido uma experiência tão radical e intensa de imersão de uma ator assim. O elenco todo se afetou com a vibe do Caio e o filme ficou tão incrível graças a essa afetação que nos contaminou. E acho dos meus melhores filmes. Aprendi muito com o Caio. Ele desarmou minha racionalidade cartesiana. Era tão surpreendente sua atuação que me forçava admitir que estava diante de um fenômeno que tinha que ser respeitado. E depois, na sua carreira, Caio sempre escolheu estar onde quis estar e se sentisse bem. Nunca foi viciado de mainstream. Isso me fazia respeitá-lo cada vez mais e era sempre um prazer encontrá-lo. Pena que foram poucas vezes. Essa tragédia que usurpou uma vida tão jovem, ainda cheio de potencialidades e angústias criativas que fervilhavam no Caio. UMA TRISTEZA, profunda tristeza! Fui ao velório, e me aproximei dele, que, se não estou louco, estampava um sorriso Mona Lisa em seus lábios. Até morto ele interpretou e nos intrigou. Adeus Caio.

“Seja o Que Deus Quiser” (Brasil, 2002), comédia satírica de Murilo Salles. Com Rocco Pitanga, Caio Junqueira, Débora Lamm, Elisa Lucinda, André Mattos, Ludmila Rosa, Jonathan Haagensen, Marcelo Serrado, Márcio Vito, Sabrina Greve, Nildo Parente, Silvio Guindane, Antônio Pompeo, Guti Fraga, Marcelo Serrado, Roberto Frejat, Nicette Bruno e participação especial de Marília Pera. Fotografia de Gustavo Hadba. Duração: 90 minutos.