OSCARITO DE ESPAÑA E DO BRASIL: DOCUMENTÁRIO, EXPOSIÇÃO E REEDIÇÃO DE “O RISO E SISO”

OSCARITO DE

ESPAÑA E DO BRASIL

Astro da chanchada será tem

de longa documental. E mais:

sua biografia será relançada e sua carreira revista em exposição de fotos e objetos

na semana do Grande

Prêmio do Cinema Brasileiro

Dois netos do parceiro de Grande

Otelo estão empenhados na difusão

de sua memória

Maria do Rosário Caetano

O ator Grande Otelo (1915-1993) ganhará, em breve, uma cinebiografia dirigida por Lucas H. Rossi e produzida por Ailton Franco Jr. Seu parceiro mais famoso – Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Thereza Díaz, o Oscarito (1906-1970), também terá sua vida narrada num longa documental.

Quem garante o pacote de homenagens ao grande artista brasileiro, nascido na Espanha, é seu neto, o publicitário Paulo Loffler, 56 anos. Ele cuida, junto com o irmão, o ator e cantor Carlos Loffler, 58, da memória do avô, um dos maiores cômicos da história artística brasileira.

O longa de Grande Otelo conta com apoio da GloboNews, GloboFilmes e Canal Brasil. Paulo & Carlos, que levam em seus nomes civis somente a assinatura do pai, o publicitário Oriovaldo Vargas Loffler, são filhos da atriz e dubladora Myrian Thereza, de 83 anos. Ela e o irmão José Carlos Díaz são fruto da união matrimonial de Oscarito com a atriz Margot Louro (1916-2011).

Os dois netos do grande cômico vão produzir o documentário, mas o nome do diretor (ou diretora) ainda encontra-se em fase de definição. Além do filme, os netos de Oscarito estão trabalhando, junto à Academia Brasileira de Cinema – responsável pela entrega do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (Troféu Grande Otelo) — na organização de exposição com centenas de fotos e objetos legados pela memória de Oscarito & Margot Louro.

Para fechar o pacote, os irmãos Loffler vão sugerir, à Editora Record, nova edição do livro “Oscarito – O Riso e Siso”, do dramaturgo e pesquisador Flávio Marinho. A elogiada biografia de Oscarito foi lançada em 2007, num volume de 336 páginas, mas está esgotada.

Durante a quinta edição da Mostra de Cinema de São Miguel do Gostoso, no litoral do Rio Grande do Norte, Paulo Loffler foi o primeiro convidado do “Momento Gostoso”, projeto que abre espaço a pessoas que tenham o que contar, sejam artistas ou não. Depois do neto de Oscarito, o segundo convidado deste segmento do festival potiguar foi o artista plástico Sérgio Cezar, autor dos casarios transformados em grande favela na abertura da novela “Duas Caras” (Rede Globo, 2007).

Paulo Loffler lembrou, no “Momento Gostoso”, que teve “pequena convivência” com o avô Oscarito, pois este morreu muito cedo (aos 63 anos). “Eu tinha oito anos e foi muito triste perder aquele avô que víamos nas tardes da TV, em reprises dos filmes da Atlântida, e ao vivo, em casa”.

O neto lembra que o avô era, na vida doméstica, “um homem muito sério, estudioso, compenetrado”. Um pai que incutia nos dois filhos (José Carlos Díaz e Myrian Thereza) valores de rigor e muita dedicação à família e ao trabalho. Exigia que levassem seus ofícios a sério como ele levava o dele. Era um homem de hábitos contidos. “Lembro-me que íamos à praia, na Avenida Atlântica, com minha mãe (Myrian Thereza) de bikini. Se dependesse da vontade dele, ela iria de maiô” (risos).

Paulo Loffler sabe que Oscarito é uma glória do cinema brasileiro. Mas, realista, lembra que a carreira do avô foi mais curta (ele morreu 23 anos antes de Grande Otelo) e menos variada que a de seu parceiro (os dois arrasaram em parodia de “Romeu e Julieta” e como cowboys em “Matar ou Correr”).

“Otelo foi além da chanchada” – pondera Loffler — “participou do Cinema Novo, do chamado ‘Cinema Marginal’ e fez muitas novelas (a mais famosa, “Feijão Maravilha”, de Bráulio Pedroso, 1979) e muitos programas humorísticos, incluindo a famosa Escolinha do Professor Raimundo”.

“Meu avô teve passagens maravilhosas pelo Teatro de Revista e pela chanchada” – relembra — mas não fez carreira na TV”. Então, “a memória dele, se não for cultivada”, poderá “diluir-se com o passar do tempo”. Ponderação digna de registro, pois com a proliferação de novas tecnologias, a produção audiovisual planetária multiplicou-se de forma avassaladora”. Nas décadas de 1940 e 1950, quando Oscarito & Grande Othelo eram os grandes astros das comédias de Watson Macedo, José Carlos Burle e Carlos Manga, a média de longas-metragens brasileiros variava de dez a 15 filmes/ano. Hoje, são mais de 150.

Paulo Loffler, que é casado com Maristela Pereira, da equipe do Canal Brasil, lembra que o avô nasceu em Málaga, na Espanha (cidade natal de Pablo Picasso e Antonio Banderas) no seio de uma família circense. “Meus bisavós viviam de cidade em cidade, na Península Ibérica, com seu circo. Prepararam o filho para seguir a tradição familiar. E ele seguiu, aprendendo tudo no circo”.

Provocado a usar o nome Oscarito, passando a assinar Paulo Oscarito Loffler, assim como o irmão (Carlos “Oscarito” Loffler), o neto sorri. “Meu avô tinha tantos nomes, que ficou difícil escolher um. Minha mãe, ao casar-se com um Vargas Loffler, adotou este último sobrenome e foi foi o que passou adiante. Mas minha mãe, que no registro civil é Miriam Teresa Dias (nome aportuguesado) preservou a memória do pai em seu nome artístico: Myrian Thereza. Afinal, ele era Thereza Díaz.

Paulo vive no meio audiovisual, trabalhando em emissora de TV do grupo Bandeirantes. Já Carlos Loffler, além de cantor, tem em seu currículo inúmeros trabalhos cinematográficos. Ele integrou os elencos dos filmes “Urubus e Papagaios”, de José Joffily, “Tropclip”, de Luiz Fernando Goulart, “Ópera do Malandro”, de Ruy Guerra, “Feliz Ano Velho”, de Roberto Gervitz (na pele de Klaus, amigo do protagonista, interpretado por Marcos Breda), “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude”, de José Alvarenga Jr, e “Navalha da Carne”, a versão de Neville D’Almeida. Neste filme, protagonizado por Vera Fischer (Neusa Suely) e pelo cubano Jorge Perugorría (Vado) coube a Loffler interpretar Veludo, o faxineiro gay. No teatro, Carlos Loffler homenageou o avô com espetáculo montado em 1990.

Detalhe final: se Grande Otelo dá nome ao prêmio da Academia Brasileira de Cinema, Oscarito batiza o mais belo dos troféus do Festival de Cinema de Gramado. Aquele que, anualmente, destaca a trajetória de uma personalidade do audiovisual brasileiro (o receberam Anselmo Duarte, Marília Pera, Marieta Severo, entre muitos outros).