TEXTO DE CACÁ DIEGUES SOBRE A BILHETERIA DE “GRANDE CIRCO MÍSTICO” (LISTA CINEMABRASIL)

. TEXTO DE

CACÁ DIEGUES:

Ao das “vantagens”

Meus amigos,
O Marcos Manhaes vive querendo me envolver nas discussões da lista dele, mas sempre escapo em silêncio. Não por falta de respeito ou por desinteresse, mas por cansaço. Dessa vez ele conseguiu (o que é que Fabiano Canosa tem a ver com isso??? porque é que o nome dele aparece lá em cima, como destinatário principal da mensagem???). Embora ela não acredite, faço isso em homenagem a Maria do Rosário Caetano.

Não sei porque Rosário me odeia tanto. Só sou notícia negativa nas páginas dela, na internet ou na Revista de Cinema. E sempre com uma versão conspiratória da realidade, que não tem nada a ver com o que é de fato verdadeiro. O filme “O Grande Circo Místico” não “demorou anos para ficar pronto”. Eu, Renata Magalhães, George Moura, Gustavo Hadba e outros colaboradores, demoramos um tempo foi conversando e escrevendo em torno de sua concepção. Enquanto isso, dirigi dois documentários de longa-metragem, escrevi um livro de 700 páginas sobre minha geração de cinema, produzi o único filme dirigido por José Wilker e, ainda, o “5XFavela, agora por nós mesmos”, totalmente concebido e realizado apenas por jovens cineastas moradores de favelas cariocas, que estreou mundialmente na seleção oficial do Festival de Cannes. Me orgulho muito disso tudo, sobretudo desse último projeto, o prazer de descobrir uma coisa inédita valor .

Não é porque tenho uma coluna no Globo (onde quase nunca falo de cinema) que esse jornal me defende de eventuais ataques. Ancelmo Gois, por exemplo, é um velho amigo, anterior à coluna dele e à minha atividade como jornalista. Rosário implicou com ele em relação ao “Circo Místico”, por causa de um texto meu que Ancelmo publicou na íntegra em sua coluna. Acontece que escrevi esse texto em defesa de “Chacrinha”, um belo filme que não agradou ao público e pouco à crítica. Na parte final desse texto, cometi alguns enganos devido ao entusiasmo da primeira semana do “Circo Místico” (a própria Rosário se refere ao sucesso daquela semana e da semana seguinte). E não poderia corrigir esses enganos posteriormente, sob pena de desmoralizar o filme recém-lançado. Qualquer outro cineasta brasileiro teria a compreensão generosa de Rosário; menos eu. Quanto a Ascanio Seleme, ele viu o “Circo Místico” numa sessão privada, no meio do ano, e se encantou com o filme, defendendo-o publicamente desde então, em duas notas de sua coluna, muito distantes uma da outra. Nos dois casos, o jornal, sua orientação, edição e direção, não tem nada a ver com isso.

Curioso é que outros jornalistas, em outras publicações ou em outros espaços dessas mesmas publicações, também defenderam o “Circo Místico” e não foram citados por Rosário. Naief Haddad, Artur Xexeo, Carlos Bozzo Jr, Luis Carlos Merten, Rubens Ewald Filho, Arnaldo Bloch, Rodrigo Fonseca, Ely Azeredo, Pedro Bial, Luis Antonio Mello, Fernanda Torres, Arthur Dapieve, e outros, gente do Globo, da Folha, do Estadão, do Jornal do Brasil, de Brasilia e do Rio Grande do Sul, de Minas e de Pernambuco, da França e dos Estados Unidos, de países, estados e cidades por onde o filme andou, e também de redes da internet, elogiaram o “Circo Místico” e nem por isso foram implicados por Rosário na “conspiração” a seu favor. É claro que também aconteceu a mídia do contra (inclusive um ignorante que chamou Jorge de Lima de “parnasiano”, imagine só!). Sempre acontece. Sobretudo num filme que reconheço estar cheio de aspectos complexos (e pouco parnasianos). A mídia do contra foi rasteira e cruel, não quis saber de nada. É pena, porque o cinema brasileiro, nessa mudança de governo, está precisando mais de debate compreensivo do que de porrada, para poder enfrentar a barra de Conselhos Superiores de Cinema compostos por representantes de grandes empresas estrangeiras e seus aliados internos.

Quanto à bilheteria, não se preocupe, Rosário. Estou autorizando formalmente a nossa distribuidora, a H2O, a lhe fornecer todas as informações que você achar conveniente sobre a bilheteria do “Circo Místico”. Acho que, no cinema, a renda é importante, sim. Mas nunca julguei um filme, ou qualquer outra obra de arte, apenas pelo seu valor de mercado.

Ainda na linha “conspiratória”, Rosário já disse ou insinuou diversas vezes, a mim pessoalmente ou em seus textos diversos, que sou “protegido” do ministro Sá Leitão e do presidente da Ancine. Para não estender muito minha resposta, lembro apenas que, durante a gestão de Christian de Castro, tive meus dois projetos para 2019 recusados pela Ancine: um roteiro sobre a Proclamação da República, que ganhei de Nelson Pereira dos Santos semanas antes de seu falecimento; e uma sequela de “Deus é Brasileiro”, um de meus filmes mais bem sucedidos de público e crítica. Diga-se de passagem, a Ancine de meus “protetores” não me deu nenhuma explicação, não me procurou para conversar, nunca me perguntou nada sobre os aspectos desses projetos, antes de recusá-los sumariamente. Assim, sem poder fazer “O último imperador do Brasil” e “Deus ainda é Brasileiro”, me preparo para filmar, em 2019, um thriller político bem baratinho, que se passa num só dia, num só cenário e com apenas cinco atores. E não sei ainda como vou financiá-lo. Por enquanto, tenho apenas o apoio da Globo Filmes, como a maior parte da produção nacional de hoje em dia.

Em relação às distribuidoras citadas, o filme seria distribuído originalmente pela Downtown, sim. Mas, no meio do caminho, perdi a confiança em Bruno Wainer, um mero comerciante avaro que não agiu corretamente conosco. Me desentendi com ele, abri mão do poder da Downtown no mercado e tratei de cancelar nosso contrato já assinado. A H2O, que acabou distribuindo o filme, não é uma “pequena distribuidora”, como Rosário afirma, mas a terceira ou quarta empresa do ramo no país, que compreende o valor do cinema além da grana.

A má vontade de Rosário comigo e com o “Circo” a faz cometer equívocos de avaliação. Não é porque ela é filha de um exibidor do interior de Minas Gerais e tem “40 anos de jornalismo” que Rosário tem autoridade para dizer o que bem entender sobre nosso cinema e ser ouvida. Nunca proclamo isso como vantagem. Mas, nesse caso, não posso deixar de lembrar que tenho quase 79 anos de idade e 57 de cinema, onde comecei profissionalmente com 22 anos, sem possuir sala de exibição. Sou de uma geração que inventou o cinema brasileiro moderno. Não tenho a pretensão de achar que todos os meus filmes são perfeitos ou geniais, embora me orgulhe de contrariar sempre o consagrado. O “Circo Místico” é um filme barroco e cheio de símbolos existenciais e culturais, na direção oposta do naturalismo gentil e globalizante que domina o mundo intelectual e acadêmico, para facilitar a vida de todos. Não quis praticar a demagogia do psicologismo, para que os personagens criem “relações de afeto” com os espectadores. Não desejava conquistar ninguém com malandragens sentimentais. Se o público não entende e não se convence (o que, aliás, não é verdade), estou acostumado a esperar que um dia a verdade apareça. Pessimista? Talvez, a barra está mesmo pesada. Mas acho que a cena final contém um recado de esperança que é comum a tudo que faço: “a graça é mais veloz que tudo”, como declarou Jorge de Lima em sua obra. O que acho insólito é a mídia, qualquer uma, exigir o filme que ela faria, sem se dispor a examinar e entender o que se faz de diferente do que ela (a mídia) está acostumada a ver. Não existe inteligência nisso.

Para fazer seus filmes, minha geração enfrentou os jornalistas que só pensavam em Hollywood; o público que só se importava com a caricatura da chanchada; os militares censores e carcereiros da ditadura; o fim dado pelo Collor à Embrafilme, a maior empresa de cinema da América Latina, que nós criamos. E ainda tivemos fôlego para colaborar um pouco com o que é hoje o cinema brasileiro, vivendo o melhor momento quantitativo e qualitativo de sua história, com uma diversidade equivalente à diversidade do próprio país. Tenho um orgulho consolador dessa nova geração de cineastas espalhada por todo o país, que está reinventando o cinema brasileiro.

Como não converso com Rosário há muito tempo, acho que acabei me excedendo no espaço. Me perdoem o excesso. Se tenho direito de pedir alguma coisa, peço que tomem esse excesso por homenagem a ela. Já disse, e continuarei a dizer sempre, que Rosário exerce um papel notável na cultura cinematográfica brasileira. Na última vez que ela brigou comigo, lhe pedi que, apesar de tudo, não deixasse de me enviar seus textos, almanakitos, etc. O que ela fez regularmente e espero que continue a fazer.

Desejo a Rosário, aos seus e a todos um Natal muito feliz, em paz. E que 2019 seja mais doce e suave para todos nós. O cinema brasileiro sobreviverá sempre a todos os males que o afligem. Isso eu sei.

Um abraço,

cacá

Marcos Manhaes, se você vai reproduzir esse texto em sua lista ou em outro lugar qualquer, reproduza-o na íntegra. Se for para publicar apenas trechos, prefiro que não publique nada. Essa é uma decisão legal. Obrigado pela compreensão.