+ BILHETERIAS BRASILEIRAS + SHEILA, MORIS E WAINER

+ BILHETERIAS BRASILEIRAS

+CONSIDERAÇÕES DE SHEILA
SCHVARZMAN, BRUNO WAINER E JOÃO MORIS
SOBRE TEXTO NA REVISTA DE CINEMA/Uol — AS
TERRIVEIS BILHETERIAS BRASILEIRAS EM 2018

*********AMIGOS:

“O CINEMA BRASILEIRO TEM

ESPECTADORES OU TESTEMUNHAS?”

Considerações de Bruno Wainer,

Sheila Schvarzman e João Moris (todas nesta remessa)

Acabo de chegar de temporada de 21 dias por São Miguel do Gostoso, Natal e Baía Formosa (Rio Grande do Norte) e por Jampa, capital da Paraíba. Como cobri dois festivais (a Mostra Gostoso e o Aruanda) trabalhei muito (e me diverti, também, pois saboreei dezenas de sapotis, tomei sorvete de tapioca, comi um “sirigado com purê de banana-da-terra” divino no Camarões, em Natal, etc, etc).

Na vépera e/ou durante a viagem, recebi textos de Bruno Wainer, Sheila Schvarzman e João Moris comentando matéria que escrevi para a Revista de Cinema/Uol, sobre “Bilheterias Brasileiras em Tempo de Auto-Estima em Baixa” (ver abaixo, depois das bilheterias da semana passada):

***BILHETERIAS

BRASILEIRAS– Data: 11-12-2018

……ESTREIAS:

. Meu Tricolor de Aço…………………………….3.773 (filme sobre o time do Ceará, o Vovô)

. Rasga Coração………………………………………3.186 (Jorge Furtado)

. Beijo no Asfalto…………………………………….2.371 (Murilo Benício)

. Tinta Bruta……………………………………………..2.338 (vencedor do Fest do Rio)

. Henfil………………………………………………………..770 (documentário)

. Mata Negra………………………………………………..202 (terror capixaba)

. CONTINUAÇÕES:

. O Doutrinador………………………………………274.321

. Exterminador do Além x Loira……………..123.000

. O Grande Circo Místico………………………….46.890

. Chacrinha, o Velho Guerreiro…………………não disponível

. Todas as Canções de Amor………………………25.018

. O Segredo de Davi…………………………………….8.568

. O Colar de Coralina…………………………………….3.561

. Sequestro Relâmpago…………………………………..não disponível

. Excelentíssimos……………………………………………1.739

. Filme Paisagem (Burle Marx)……………………….1.121

. Slam, a Voz do Levante…………………………………..702

. Carvana (Um Malandro)………………………………….234

. Picuruta, a Lenda do Gato………………………………….não disponível (sobre surf)

. ESTRANGEIROS:

. Infiltrados na Klan (Spike Lee)………………………86.997

. Uma Noite de 12 Anos……………………………………..mais de 70 mil

. Museu (México)……………………………………………….11.449 (o “meu” filme do ano)!!!!!

. Excêntrica Família Gaspar…………………………………6.250 (França, estréia)

*BREVES COMENTARIOS:

A situação de nossas bilheterias só faz piorar. As médias por sala estão apavorantes. “Rasga Coração” (31 salas) e “Beijo no Asfalto” (21 salas), ambos bem recebidos pela Crítica, não chegaram — em suas estréias — a 4 mil ingressos (cada). “Tinta Bruta”, vencedor do Festival do Rio, fez, em 42 salas, menos de 3 mil espectadores. Lançar (melhor dizer arremessar!!) filme brasileiro de empenho artístico e social em véspera de Natal e em tempo de complexo de vira-lata agudo é, na minha opinião, suicídio……

**** BILHETERIAS

BRASILEIRAS EM 2018

PONDERAÇÕES DE BRUNO WAINER (*)

(*) Distribuidor — Downtown Filmes, parceiro da
Paris Filmes em muitos lançamentos brasileiros Rosário, tudo bem? Sobre as bilheterias brasileiras:

Já é uma realidade que o filme, enquanto produto audiovisual a ser assistido em telas de cinema, está em profunda transformação.

Vários gêneros, incluídos aí filmes “adultos” “sérios” “autorais”, históricos, salvo honrosas exceções, estão sendo expulsos da tela grande por diversos fatores, alguns dos quais você citou na tua matéria.

Mas sobre o filme nacional, há anos alerto que apesar do número crescente de filmes produzidos e lançados (160 só neste ano de 2018) nosso lineup anual de filmes COMPETITIVOS em termos de bilheteria é composto de pouquíssimos títulos, uns 10/15 por ano.

Consequência de uma política que privilegiou em demasia a produção de filmes sem compromisso com resultados.

Então quando estamos num ano de entressafra, como 2018, não há peça de reposição. Igual se quatro titulares do teu Santos se machucassem e não houvesse banco de reserva.

Ao menos você poderia ressalvar

também as boas notícias:

FALA SERIO MÃE (3,2 milhões de ingressos) e

TUDO POR UM POP STAR (1,2 milhão de ingressos)

confirmam Ingrid Guimãraes como campeã de bilheteria e o surgimento de uma nova geração de estrelas em potencial, Larissa Manoela, Maísa, Klara Kastanho e Mel Maia. Também há a consolidação de Thalita Rebouças como autora de livros que se adaptam muito bem à tela grande.

Teve também OS FAROFEIROS – 2, 7 milhões de ingressos. Comédia popular que surpreendeu nas bilheterias, tendo à frente o midas do cinema brasileiro Roberto Santucci (tão injustamente ignorado, comportamento clássico do meio) e nos revela mais um gênio do humor brasileiro, Paulinho Gogó.

Quanto aos filmes que você citou como exemplos de resultados “decepcionantes”, cada um tinha seu desafio específico que explica seu desempenho comercial, que não cabe analisar aqui.

Só vou comentar 1 título:

O DOUTRINADOR é um gênero novo no cinema nacional, o (anti) herói baseado em HQ, e sabíamos que não era nada óbvio que decolasse. Era um desafio vencer a desconfiança do público. Vendeu até o dia de hoje (primeira semana de dezembro) 270 mil ingressos. Segue em cartaz pela sexta semana. Seu resultado foi, claro, abaixo das expectativas, mas MUITO acima da imensa maioria dos filmes nacionais lançados esse ano. Pagou o preço do seu pioneirismo. Mas considero seu resultado um investimento que mostrou potencial suficiente pra justificar novas investidas no gênero.

E quanto à tua classificaçao de “filme fascista”, o DOUTRINADOR obteve dezenas de resenhas muito positivas (a grande maioria) de quem não vestiu a carapuça ideológica/religiosa da sua opção política (me refiro à opção do crítico), o que infelizmente parece ser teu caso.

A maioria das críticas inclusive enfatiza que o filme, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, passa ao largo da ideologia fascista. A última saiu na Folha de S. Paulo, escrita pelo Jorge Coli, professor de arte da Unicamp, autor do livro “O Corpo da Liberdade”, intelectual acima de qualquer suspeita, que te aconselho muito a ler.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-coli/2018/12/o-doutrinador-e-uma-obra-sobre-contradicoes-que-se-recusa-a-doutrinar.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

**Ponderações soltas

sobre o texto de Wainer:

Farei, sim, um balanço do ano, citando sucessos (reais ou relativos) e

fracassos no cinema brasileiro, este ano, logo, logo, pois 2018 está chegando

a termo. Não citei os “três sucessos da temporada” pois a intenção do texto era buscar razões (tentar entender) para fracassos de filmes criados para dialogar com o público, caso emblemático de “Chacrinha” (um longa-metragem digno, ao qual assisti com imenso interesse).

Não toquei no “blockbuster” que biografa parte da vida do bispo da Universal (“Nada a perder” — até Wainer evitou o assunto!!!), porque fui testemunha das salas vazias, apesar de milhares de ingressos comprados e distribuidos entre fieis. Fiz, pessoalmente, o teste. Quando “Os 10 Mandamentos” foi lançado, testemunhei, numa imensa sala do Shopping Praiamar, em Santos, todas as poltronas lotadas. Já com o Nada a Perder (ver este filme é TUDO A PERDER, tempo inclusive), fui à mesma sala e vi que nem um décimo das poltronas estava ocupado. Havia gatos pingados no Cinemark Santos Praiamar. Considerar este filme a maior bilheteria auditada do cinema brasileiro é um EMBUSTE. A maior bilheteria é (continua sendo) a de Tropa de Elite 2, que não distribuiu ingresso de graça. Quem foi vê-lo, saiu de casa por vontade própria e pagou do próprio bolso. ISTO É BILHETERIA. Ao contrário da narrativa bíblica, a história do bispo é de uma chatice sem fim, nada tem de aventuroso… mas sim de tedioso!!!!!

E por que estou tocando neste assunto, se nem Bruno Wainer, distribuidor do filme junto com a Paris, o fez??? Porque quero assegurar a Wainer que não USO CARAPUÇA IDEOLOGICO/RELIGIOSA.

Ele escreveu: “quem não vestiu a carapuça ideológica/religiosa da sua opção política (me refiro à opção do crítico), o que infelizmente parece ser teu caso”…

ao referir-se a “O Doutrinador”, um imenso fracasso, volto a repetir. O filme foi lançado em 453 salas e vendeu míseros 110 mil ingressos. Média de 253/sala. Um candidato a “blockbuster” lançado em circuito tão grande, quando acontece!, passa dos mil ingressos/sala. E a cada nova semana o filme só faz despencar. Nesta última, teve a lamentável média de 44 espectadoressala. Li o texto de Jorge Coli na Ilustríssima, professor da Unicamp, no papel. E, na minha avaliação, ele se entusiasmou com a tecnologia do filme e não se aprofundou em suas significações e relações com nosso (terrível) tempo. (…) Mas, voltando a Nada a Perder e ao projeto Record: Bruno Wainer é testemunha de que não neguei o sucesso de Os 10 Mandamentos (na telinha e nas telonas). Na minha infância, ia assistir a filmes bíblicos e via o fascínio nos olhos dos meus pais, tios, primos e amigos quando viam o Mar Vermelho de Cecil B. DeMille se abrir. E as PRAGAS DO EGITO, então!!!! Sucesso garantido!!!! Não sou religiosa (não tenho religião e estou preocupadíssima com a República Evangélica que está se instalando no Executivo, pois sou defensora juramentada do ESTADO LAICO).Se um filme faz sucesso, goste dele ou não, NÃO POSSO TAPAR O CEU COM UMA PENEIRA. Não tenho prevenção contra o “midas” Roberto Santucci. Vi com imenso interesse a comédia “Os Farofeiros”. O filme tem qualidades e que bom que passou dos dois milhões de ingressos. Me interessei também por “Fala Sério Mãe”, com Ingrid Guimarães, uma boa comédia. Já “Tudo Por Um Popstar” achei bem fraquinho….. Ingrid, Paulo Gustavo e outros comediantes brasileiros são, sim, muito talentosos. Que sigam fazendo filmes com zelo e cuidado. Paulo Gustavo, por exemplo, não é de matar a galinha dos ovos de ouro atrás de grana fácil. ****Cadê o Minha Mãe é Uma Peça 3?? Tenho certeza que ele só protagonizará um novo filme desta série quando sentir que vale a pena…. Já Leandro Hassum, parece ser menos exigente/rigoroso que o colega, foi somando filmes e filmes descuidados e está aí com bilheterias reduzidas a um quinto das atingidas por seus primeiros filmes…. (NESTA REMESSA SEGUEM CONSIDERAÇÕESA DE SHEILA SCHVARZMAN E JOÃO MORIS, OK???)

****CONSIDERAÇÕES DE
SHEILA SCHVARZMAN
SOBRE BILHETERIAS BRASILEIRAS

Troquei, ao longo
das últimas semanas,
alguns e-mails com a professora
Sheila Schvarzman, autora,
com Fernão Ramos, do livro
(em dois volumes, Editora Sesc)
“Nova História do Cinema Brasileiro”,
que a todos recomendo):

Primeiro Sheila ponderou que minhas considerações (no artigo publicado na Revista de Cinema/Uol) a preocupavam muito, pois poderiam servir de álibi a um governo (o que será empossado) obcecado por enxugamento, auditoria de contas, revisão e expurgo nas agências reguladoras.

BILHETERIAS BRASILEIRAS
POR Sheila Schvarzman

Rosário,
Digo só uma coisa, que O Doutrinador não tenha uma bilheteria muito grande me conforta. Agora os filmes
miram a garotada que fica na internet (que faz
as novas bilheterias). Ir ao cinema é alguma coisa.
Carvana, ótimo. Quem sabe quem é o Carvana?
E com o preço dos ingressos e os horários minguados,
quem consegue ver o filme que quer?
Sem falar do fim daquele
acordo da monocultura.
Abraços, Sheila

******RESPONDI: Sim, Sheila, o risco existe. Mas
eu mostro que o ESTADO DE ESPIRITO atual,
de depreciação do Brasil, que vem refletindo na
BILHETERIA dos filmes, tem a ver com este momento terrível…
E isto começou alguns anos atrás, talvez no momento em
que Dilma foi reeleita… Dali em diante o país
EMPERROU… Nada ia em FRENTE. Um freio foi puxado!!!
Tudo foi se formando até chegar ao estado
calamitoso em que estamos. O HORROR estava se
formando… Veja onde foi parar o MinC, junto com
COMBATE ÀS DROGAS. A fragilidade das bilheterias é um grão de areia
neste processo terrível!!!!!! Na CARTA CAPITAL, Jotabê Medeiros mostra o que é a ESSÊNCIA DO MinC (museus, Biblioteca Nacional, etc, etc, Ancine… e cita os dois filmes do ‘BISPO boçalnariano’ como exemplos de sucesso de bilheteria!!!)… Confira!!! Minha matéria não é irresponsável. Nem destrutiva. Não tenho esta
ÍNDOLE. A matéria é só constatativa!!!! Minha fama é de missionária (uma Madre Teresa
de Calcutá) do cinema brasileiro……….Bjs rô

SHEILA RESPONDEU:
Rosário querida,
Claro que isso não é uma crítica ao que você tão bem escreveu. E quem não sabe de suas melhores intenções? E também as minhas, por favor.
O meu temor, que divido com todos é que esses números podem servir de álibi para operações arrasa-quarteirão. É esse o meu temor. Claro que não critiquei você. Pelo contrário, mostrei como você aponta a partir da frase do Sabadin e de tantas outras coisas mais em seu pertinente artigo, o risco enorme que corremos. É disso que nós estamos todos falando e nos sensibilizamos. Claro que não há nível de comparação, mas é como se nessa altura tivéssemos que fazer o que está fazendo o Luís Schwarcz com os livros. Pedir ao público que não deixe o nosso cinema que está tão bom, tão bom, naufragar.
Esperemos que grandes interesses econômicos que fazem parte desse cinema possa falar mais alto e que as coisas se mantenham da melhor forma possível para todos.
Espero que você tenha me entendido bem.
Beijo grande
Sheila

****CONSIDERAÇÕES DE

JOÃO MORIS (BILHETERIAS
BRASILEIRAS/SITE DO
COLETIVO “CINEMA PARADISO)

POR JOÃO MORRIS

Do Grupo CINEMA PARADISO (SÃO PAULO)

Salve Rô, tudo bem? Faz um tempinho que estou querendo escrever para agradecer por você ter cedido (com a devida fonte, a Revista de Cinema/Uol) o seu ótimo artigo “Bilheterias Brasileiras Vivem Momento Desesperador” para publicação no site do Grupo Cinema Paradiso.

Seu artigo é muito oportuno, pois temos nos debruçado sobre a questão da distribuição e exibição de filmes brasileiros no cinema. Está cada vez mais difícil para nós do Grupo escolhermos filmes brasileiros para debater, pois eles raramente ficam mais de duas semanas em cartaz e, quando ficam, são exibidos em apenas um horário. Então, dos 25 filmes que debatemos por ano, conseguimos eleger apenas uns 4 ou 5 para discutir e olhe lá. Uma lástima!

Como uma das “testemunhas” assíduas do Cinema Brasileiro, o que mais me intriga é que sinto que a qualidade e diversidade dos filmes lançados durante o ano em circuito comercial melhorou muito nos últimos 10 anos, sem falar da visibilidade que nosso cinema tem alcançado nos principais festivais do mundo (só no Festival de Havana deste ano, contei quase 30 filmes e na programação preliminar de Rotterdam 2019, ao qual irei, já tem 2 filmes brasileiros escolhidos).

É triste ver um filme ser superbadalado em festivais brasileiros e internacionais, com sessões lotadas, e pouca gente sequer sabe da existência deles. E, apesar de muitos serem lançados em plataformas digitais, fico pensando quantas pessoas realmente os acessam.

Mas, acho que você matou a charada entre as muitas razões e variáveis para este estado lamentável do cinema brasileiro: a nossa baixa autoestima e complexo de vira-lata.

Bjs e obrigado, João