CINE HISPANO-AMERICANO: MUSEU E A AVENTURA HUMANA, DO CINEJORNAL AO ROAD MOVIE COM PITADAS DE DELÍRIO + FESTIVAL ZAPATISTA, GAEL GARCÍA BERNAL + FEST MIX BRASIL 2018 (ANO 20)

*CINEMA HISPANO-AMERICANO

“MUSEU” E A AVENTURA

HUMANA: DO CINEJORNAL
AO ROAD MOVIE COM

PITADAS DE DELÍRIO

Por Maria do Rosário Caetano

Gael García Bernal protagoniza “Museu”, mais que um filme sobre roubo ao Museu Nacional de Antropologia, do México (ocorrido nas vésperas do Natal de 1985, ano de terremoto e auto-estima nacional em frangalhos), um notável mix de gêneros, que começa com cenas documentais e chega ao road movie. No frigir dos ovos, o segundo longa de Ruizpalácios é uma aventura recheada de ideias estimulantes sobre pilhagem, vida, família, amizade e delírios etílicos-drogados (vide a sequência em que a argentina Leticia Brecia, de “9 Rainhas”, interpreta a vedete decadente Sherazade Ríos).

O filme, que tem ainda o notável chileno Alfredo Castro no papel do pai de Juan, um dos ladrões (Gael García Bernal), vem recebendo críticas positivas por todos os cantos (algumas, bem poucas, negativas, o que é normal). Selecionado para a competição do Urso de Ouro em Berlim, teve seu roteiro premiado (com o Urso de Prata). Poderia ter ganho o troféu dourado, se o júri não tivesse optado pelo pretensioso romeno “Não me Toque”.

Quem for ao cinema para ver, em “Museu”, um clássico “filme de roubo” será gratificado apenas parcialmente. Afinal, o que Ruizpalácios e seu corroteirista (Manuel Alcalá) construíram foi uma formidável reinvenção de fato real, banhada em deliciosas reflexões sobre a história do México, marcada pela pilhagem de patrimônios artístico-culturais.

Já na abertura do filme, vemos um gigantesco totem, hoje exposto na entrada externa do Museu Antropológico, sendo transportado de sua região de origem para a populosa capital mexicana. Cinejornais dão conta dos dias loucos vividos pelo país e questionam a transferência da escultura de muitas toneladas, arrancada de seu povo originário. Em pauta, a pilhagem, que renderá outro poderoso diálogo na segunda parte do filme (entre o personagem Frank Graves, um receptador britânico de obras de arte roubadas, e Juan, o ladrão que Gael interpreta com paixão imensa).

O britânico discute com o jovem e inexperiente cérebro do roubo o papel das grandes potências na pilhagem de valiosos tesouros da Mesoamérica. Uma discussão que serve de paradigma para egípcios, gregos, romanos ou iraquianos. Evoca-se tesouro inca, retirado de navio naufragado no fundo do mar, por anglo-saxões. De quem é o tesouro? Dos peruanos, território dos incas? Ou dos que empreenderam e pagaram a custosa operação de resgate? Quando Juan diz que os peruanos são os donos legítimos. Frank argumenta com cinismo cristalino: se não fossem os empreendedores que buscaram o tesouro no fundo do mar, ele continuaria lá. Ou seja, não seria de ninguém. E arremata: “não há preservação sem pilhagem”.

Depois das imagens dos cinejornais, saberemos que o Museu Nacional Antropológico (inaugurado em 1964) entrará em reforma e que nele trabalha o chaparrito Juan (como iluminador de peças de imenso valor arqueológico). Iremos, então, nos familiarizar com a dupla – Juan e Benjamin (o ótimo ator Leonardo Ortizgris) – que, na véspera do Natal, empreenderá o roubo de 140 peças (de ouro e jade).

Benjamin Wilson é meio sonso, mas muito carinhoso com o pai, muito doente. Juan é mais safo e exerce (quase) total domínio sobre o amigo. Somos, então, transportados para a casa de Juan (em Ciudad Satélite, no imenso perímetro urbano da capital mexicana) e conheceremos seus familiares (em especial o pai), um homem íntegro e seguidor de preceitos rigorosos. A festa de Natal lembra a de qualquer família de classe média brasileira, com suas brigas, gritos, comentários disparatados, divergências políticas, etc). O tom é cáustico, os diálogos cortantes.

Adepto e praticante de deliciosas digressões, os roteiristas do filme abrirão espaço para que um tio de Juan rememore, o que fazia sempre e aborrecidamente, uma incrível história de incêndio na casa paterna. Mas nada é gratuito. Tudo se soma neste filme composto de tantas e tão fascinantes partes.

O roubo acontece e é mostrado minuciosamente. Quando a notícia chega aos telejornais, o pai de Juan comenta, revoltado: estes ladrões “são excrementos, que merecem ser açoitados no Zócalo” (a praça que constitui o coração arquitetônico-social da Cidade do México).

Dali em diante, a narrativa acontecerá em clima de road movie, pois os dois ladrões, Juan e Benjamin, necessitam encontrar compradores para as 140 peças roubadas (pequenas, em tamanho, mas de valor arqueológico-cultural imensurável). Os dois não têm um receptador. O que a eles foi indicado, Pepe Soto, eles não localizarão. Maravilhosa e delirante sequência, que unirá Juan e a atriz decadente Sherazade Ríos (interpretada por Leticia Brecia), movidos a cocaína e álcool, explicará porquê. A boate onde ela trabalha tem o sugestivo nome de Portas do Paraíso. O filme dialoga abertamente com a obra de Carlos Castañeda. E com Roberto Bolaño e muitos escritores e pensadores de Nuestra (saqueada) América.

No carro “emprestado” do pai, Juan conduzirá Benjamin, às vezes contrariado, por sítios históricos (Palenque) e cidades turísticas (Acapulco, com seus intrépidos mergulhadores, é a principal). Viverão, irresponsavelmente, momentos felizes e loucos, refletirão sobre a vida e a morte, se desentenderão. Mas continuarão juntos até o momento derradeiro.

Quem acompanhou a história do roubo, nos anos 1980, sabe que os inexperientes ladrões não se deram bem. As valiosas peças de ouro e jade foram devolvidas ao Museu Antropológico. E isto é o que menos importa ao filme. O que Ruizpalácios & Alcalá queriam com seu brilhante roteiro era, ao invés de fazer suspense, compor um vibrante, lisérgico e irresistível filme de ideias. Seus 127 minutos na tela voam prazerosamente. Em todos os momento somos estimulados a fazer o que é característica dos grandes dos grandes filmes: divertir e estimular a reflexão.

Saímos da sala, levando conosco uma deliciosa provocação dos criadores deste notável “Museu”: “Prá que arruinar uma boa história contando a verdade?!”.
* FESTIVAL ZAPATISTA,
GAEL GARCÍA BERNAL

GAEL GARCÍA BERNAL recebeu, no FESTIVAL ZAPATISTA DE CINEMA, no sul do México, trofeu por seu apoio ao evento. Também foi premiado com claquete e boneca indígena o cineasta Alfonso Cuarón, que apresentou seu filme ROMA (nome do bairro onde ele nasceu, na Cidade do México), protagonizado por uma jovem indígena da etnia Mizteca (Mixteca).

***MIX BRASIL COMEÇA
NESTA QUINTA-FEIRA
(HOJE) COM 110 FILMES
BRASILEIROS E INTERNACIONAIS

Com ampla programação de
filmes nacionais e internacionais

O 26° Festival Mix Brasil acontece de

hoje, 15, a 25 de novembro, em São Paulo.

Serão exibidos 110 filmes nacionais e internacionais como

A Pé Ele Não Vai Longe”, novo filme de Gus Van Sant, “Colette”, “Um Garoto como Jake” de Silas Howard, “Conquistar, Amar e Viver Intensamente”, de Christophe Honoré, “Faca no Coração”, do francês Yann Gonzalez (com Vanessa Paradis), “Skate Kitchen”, de Crystal Moselle. “Meus Dias de Compaixão” de Tali Shalom Ezer, com Kate Mara e Ellen Page, “O Príncipe Feliz” de Rupert Everett, com Colin Firth e Emily Watson, entre outros.

O Festival apresenta a maior seleção de longas-metragens nacionais de sua história. No total são 20 trabalhos,

incluídos na Mostra Competitiva e Panorama Brasil,

45 Dias Sem Você”, de Rafael Gomes,

“Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman,

“Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio,

“Inferninho” de Guto Parente e Pedro Diógenes,

“Lembro Mais dos Corvos”, de Gustavo Vinagre,

O Segredo de Davi“, de Diego Freitas,

O Sussurro do Jaguar“, de Simon(é) Jaikiriuma Paetau e Thais Guisasola,

Sócrates“, de Alex Moratto,

Sol Alegria“, de Tavinho Teixeira, e

Tinta Bruta“, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

O comando do Festival Mix Brasil registra que, dos 110 filmes nacionais e internacionais programados, 44% são dirigidos por mulheres. Haverá, além de atrações cinematográficas, atividades que envolvem teatro, música, literatura, laboratório audiovisual, conferência e o BIG MIX Jam 4 Diversity – 1º Game Jam da Diversidade. Já na abertura, hoje, feriado do dia 15, show do cantor Johnny Hooker para o público no Ibirapuera e o filme “Bixa Travesty”, para convidados.

Na programação, longas internacionais que fizeram parte da Seleção Oficial dos Festivais de Berlim, Toronto, Sundance, Cannes, alguns inéditos no Brasil,