MOSTRA SP 2018: ALMA CLANDESTINA (fotos abaixo), RIO DA DUVIDA, BANDO, UM FILME DE:, METADE DO CEU (BRICS)

*MOSTRA SP 2018:

*”ALMA CLANDESTINA”,

* “RIO DA DÚVIDA”,

* “BANDO, UM FILME DE:”

* METADE DO CÉU (BRICS)

Tive uma segunda-feira brasileira na Mostra SP. Comecei o

dia no Cine Belas Artes, assistindo ao ótimo “Rio da Dúvida”, longa-metragem de Joel Pizzini (2h16′). O diretor, seu co-roteirista Mário César Cabral Marques, sua produtora Patrícia Civelli (do projeto Memória Civelli), a montadora Idê Lacreta (+ os espectadores Paulo Sacramento e Amir Labaki, entre outros) estavam na sala da Av. Consolação. Confesso que temia pelo resultado estético deste filme. Patrícia e Mário são apaixonados pela informação, pela memória, pela História. Já Pizzini é um cineasta do ensaio, da invenção, da pesquisa de linguagem. Em que resultaria esta soma de polos tão opostos??? Pois resultou num belo filme. Ah, eu temia também as recriações, com atores, do encontro entre o (então) Coronel Rondon (Rodolfo Vaz) e Roosevelt (Xando Batista), que no começo do século XX precorreram, juntos e por longos meses, trajeto que ia do Pantanal à Amazônia, pelo rio da Dúvida (como diz o próprio nome, um rio cercado de incertezas). Roosevelt, ex-presidente dos EUA, recebia um dólar por cada palavra que escrevia para a imprensa norte-americana, relatando suas aventuras na selva. Pois o resultado do filme é formidável. A fotografia de Luis Abramo (filho de Fernando Côni Campos) foi concebida em cores que formam um todo (muito) orgânico com as imagens de arquivo. E foram colhidas, ainda, imagens arrebatadoras da selva, de rios, de bancos de areia… Enfim, resumindo — pois há outra maratona fílmica a me esperar —

dos (des)encontros entre os pensares de Jizzini e Patrícia resultou um filme obrigatório. E com espaço generoso para Darcy Ribeiro, um dos grande sonhadores do Brasil.

******”BANDO, UM FILME DE:”

Depois de “Rio da Dúvida”, fui ao Itaú Frei Caneca assistir a mais três filmes: “Bando”, “Alma Clandestina” e “Metade do Céu” (BRICS). Fui ver o documentário de Lázaro Ramos e Thiago Gomes (“Bando, Um Filme de:”), cercada de dúvidas. Por saber que o projeto comemorava os 25 anos do Bando de Teatro Olodum, trupe black da Bahia, e que reunia dezenas de entrevistas (40, no total), temia um “cabeças-falantes” generoso, mas laudatório e cansativo. Mas o resultado é muito bom. Os dois diretores conseguiram depoimentos sinceros e fortes dos integrantes do Bando, colocaram em pauta questões essenciais e não fugiram de temas difíceis. Inclusive do “incômodo” de um grupo black ser dirigido por brancos (Márcio Meirelles e a coreógrafa Chica Carelli), dos preconceitos que cercam uma trupe black (“branco faz teatro, elencos negros fazem ação social”), de papéis sociais pre-determinados (quando “ator negro interpreta ladrão ou prostituta está se auto-representando”), dos momentos de crise aguda (com o fracasso da montagem de adaptação da “Ópera dos 3 Vinténs” (Ópera dos 3 Mirréis”), de Brecht, com a criação de meia-entrada para negros (contestada pelo Ministério Público e que resultou na separação entre o Bloco – musical e carnavalesco – Olodum e a trupe cênica) e da perda prematura da atriz Auristela Sá.

Atores como Val Soriano (dos premiados “Café com Canela” e “A Ilha”), Luciana Souza, Tânia Toko e Érico Brás (os três do filme “Ó Pai Ó”), Rita Bibelô, a cantriz Virgínia Rodrigues, Lázaro Machado, Sérgio Laurentino, Merry Batista, entre muitos outros, com destaque para o coreógrafo Zebrinha (com intervenções de rara potência) nos enriquecem com seuas ricas vivências e ideias.

O filme dura 105 minutos. Podia manter o bloco final – a parte comemorativa das resistentes-insistentes quase três décadas de existência – somente na versão para TV (parceria com o Canal Brasil). Aos cinemas chegaria uma versão mais enxuta. Mesmo assim, seja em versão mais elástica, ou sintética, “Bando” é um filme que soube se construir com depoimentos, sem cair na declaração óbvia (não-vivenciada), nem no falatório acumulativo, que nos soterra com excesso de informação. Um belo filme, um canto de amor à trupe baiana, que em 28 anos de história, montou 30 espetáculos, três deles históricos: Essa é Nossa Praia, O Paí Ó e Bai Bai Pelô, um deles transformado em filme de sucesso por Monique Gardenberg (quase 500 mil espectadores e vem aí o “O Pai Ó 2”). O longa de Gardenberg é evocado com um de seus trechos mais contundentes (a evangélica interpretada por Luciana Souza correndo em busca dos filhos, duas crianças assassinadas, em citação à corrida de Anna Magnani em “Roma Cidade Aberta”). Aliás, no documentário de Lázaro & Tiago, constata-se que o Bando só passou a ser respeitado como grupo teatral (era visto como uma ONG que “recuperava ladrões e prostitutas do Pelô”) quando virou filme e série na TV Globo, e foi elogiado por Caetano Veloso. Aí, sim, “mesmo com elenco composto de pretos”, passou a ser visto como uma verdadeira companhia de montagens teatrais. Um bando que fazia arte e não trabalho social (no sentido estrito desta palavra). Programa obrigatório.

  • METADE DO CÉU (BRICS)

    Depois de um longa-metragem (“Onde a Terra Treme?”) dirigido por homens originários dos cinco países que compõem o BRICS, Brasil-Rússia-India-China-África do Sul), o chinês Jia Zhang-Ke, um dos mestres do cinema contemporâneo, resolveu repetir a experiência com cinco realizadoras e temática feminina.

  • No primeiro filme, o Brasil fez-se representar por Walter Salles, que realizou belo episódio (escrito por Gabriela Amaral Almeida) ambientado na lama e ruínas de distrito da histórica e barroca Mariana-MG, onde se dera tragédia ecológico-social de grande monta. Agora, a convidada brasileira é Daniela Thomas. Parceira de Walter em Terra Estrangeira, O Primeiro Dia e Linha de Passe, a cineasta acerta contas com vozes black que a acusaram, no Festival de Brasília, de “não dar voz e subjetividade” a personagens negras em “Vazante”. Pois agora, Daniela realiza história curta e lacunar, protagonizada por três gerações de mulheres negras. A protagonista, Helena (Maria Helena Dias), vive em São Paulo, num prédio (uma ocupação popular) sem elevador. Depois de subir muitos degraus, e já sem fôlego, recebe um telefonema: a mãe está morrendo e quer vê-la. Helena, que teve um passado familiar difícil, não quer reencontrar-reviver tais dores, mas acaba indo ao interior de MG rever a mãe, atendendo ao insistente convite da irmã mais jovem (Jai Batista, de “Vazante”).

    Um personagem masculino, muito idoso, entra na história e tem a ver com as dores do passado de Helena. A mãe agonizante e a irmã – concluímos sutilmente — devem ser evangélicas. A filha, que voltara para a visita à mãe, utilizará vestimenta de densa carga simbólica (que não vale revelar).

  • O filme “Metade do Céu” completa-se com tocante história feminista indiana, assinada pela diretora Ashwiny Iyer Tiwari (que deveria ser projetado em todas as escolas do mundo), uma chinesa, de Yulin Liu, de rara delicadeza), uma sul-africana, de Sara Blecher (sobre atleta feminina que teria muita testosterona em seu organismo e por isto deveria ter sua carreira de campeã olímpica interrompida) e uma russa, de Elizaveta Stihova (pouco sútil, mas um hino à tolerância). No cômputo final, um bom filme, que merece chegar ao nosso circuito exibidor, de preferência junto com o primeiro, dirigido por realizadores homens. Ou os dois filmes serão o carro-chefe do prometido Festival de Cinema dos BRICS, que acontecerá em 2019, em Niterói?

+ “ALMA CLANDESTINA”,

O que se viu na Mostra SP 2018, no Itaú Frei Caneca 2, na noite da última segunda-feira, lembrou, em escala menor (800 espectadores no Cine Brasília e quase 200 no cinema paulistano), o que se passou, um mês atrás, na capital brasileira quando da exibição de “Torre das Donzelas”, documentário de Susanna Lira. Ou seja, aplausos calorosos e impressionante comunhão com o filme luso-brasileiro “Alma Clandestina”. Nome, aliás, revelador e de rara contundência.

O diretor do longa-metragem, o português José Barahona, de 49 anos, não pôde comparecer, mas se fez representar por seus atores, a paulistana Sara Antunes e o mineiro Paulo Azevedo, e pelo assistente de direção Henrique Landulfo.

Como está dedicado, em Lisboa, ao lançamento de “Alma Clandestina” no circuito comercial, Barahona enviou carta para ser lida por sua equipe (ver íntegra do texto abaixo). Vale lembrar que o cineasta já comandara uma produção luso-brasileiro, mostrada na mesma Mostra SP, três anos atrás: “Estive em Lisboa e Lembrei-me de Você”, adaptação de romance de Luiz Ruffato, protagonizada por Paulo Azevedo (ele interpreta um operário que deixa sua cidade, no interior de MG, para viver precariamente em Lisboa).

Já “Alma Clandestina”, este título que diz tudo em duas palavras, vem de escrito de Maria Auxiliadora Lara Barcellos” (MG, 1945, Berlim, 1976), estudante de Medicina e guerrilheira brasileira, presa e banida do país. Define-se ela — num dos muitos textos (maioria cartas) que deixou depois de sua curta existência (31 anos), abreviada pelo suicídio – como “uma alma na clandestinidade”.

O belo documentário poético-sensorial de José Barahona constrói-se com trechos de filmes em que Maria Auxiliadora (Dórinha, apelido pronunciado com “a” aberto pela família, e Dôdôra, com “ôs” fechados pelos companheiros de guerrilha urbana, banimento e exílio errante) teve presença marcante, com depoimentos de amigos e familiares e com encenação de “peça teatral” – criada para o filme – encenada por Sara Antunes (como Dôdôra) e Paulo Antunes, o diretor.

A estudante de Medicina mineira, terceiro lugar em disputado vestibular, abraçou a luta armada e pagou com prisão, tortura, banimento (foi para o Chile de Allende, no grupo de 70 presos trocados pela libertação do embaixador suíço Büchner) e com andanças por muitos outros países. Em 1976, dilacerada emocional e mentalmente, jogou-se nos trilhos de um trem, em Berlim.

Dôdôra teve participação singular e apaixonante em “Brasil – Relatos da Tortura”, documentário os norte-americanos Haskell Wexler e Saul Landau realizaram no Chile. Depois, um brasileiro, Luiz Alberto Sanz, realizou outro documentário (“Quando Chegar o Momento”) sobre o trágico desfecho da curta existência da militante mineira. E Emília Silveira abriu espaço significativo para Dôdôra no longa-metragem “70”.

Para garantir a permanência, graças ao poder de armazenar memórias do cinema, Dôdôra foi tema, ainda, de média-metragem de sublime beleza, “Retratos de Identificação”, de Anita Leandro (estudado em texto obrigatório no Livro “Feminino e Plural – A Mulher no Cinema Brasileiro”). Agora, acaba de ganhar um longa-metragem inteiro, e também ótimo, para que sua memória nunca seja esquecida.

Durante o debate do filme, na Mostra SP, uma espectadora lembrou que existe, em São Paulo, na Cidade Tiradentes, bairro periférico, instituição de atendimento médico à mulher, que leva o nome de Maria Auxiliadora Lara Barcellos. Afinal, ela estudou Medicina no Brasil, no Chile e na Alemanha. Estava se especializando em Psiquiatria, quando interrompeu a própria vida. Outra debatedora levantou-se com um buquê de flores artesanais para presentear a atriz Sara Antunes (além de grande atriz, Sara companheira e mãe de dois filhos do também ator Vinícius Oliveira, o menino Josué, de “Central do Brasil, hoje com 33 anos). Os dois atuaram juntos no longa “Se Deus Vier, que Venha Armado”, de Luis Dantas.

Abaixo a carta de José Barahona, escrita no dia seguinte ao triunfo de Jair Bolsonaro, representante da extrema-direita e favorável à tortura, nas eleições brasileiras:

Boa noite e obrigado por terem vindo, apesar de tudo…Tinha pensado em escrever estas palavras sem ter em conta a eleição do domingo (28 de outubro) porque afinal de contas estamos numa democracia e numa democracia qualquer que seja o poder vigente podemos sempre dizer o que pensamos.

Eu não escolhi estrear o filme neste momento. Quando o fiz estava aflito e preocupado com o processo de Dilma e mais tarde com o julgamento e prisão de Lula e achava que por isso o filme era muito urgente. Mas afinal foi outra coisa que o tornou decisivo: Dora decidiu voltar e nos inspirar na resistência que vamos precisar fazer nos próximos tempos.

Brincando com a minha querida Sara Antunes e com o meu amigo Paulo Azevedo, que fizeram o magnífico trabalho que vão assistir, Sara me dizia que tinha de certa forma “incorporado” Dora, o que sua mãe de santo já lhe havia confirmado. Eu não acredito nessas coisas, desculpem sou cético por natureza. Sara trabalhou muito, e bem e não teve nada de divino nisso, mas sim todo o seu enorme talento. Acredito que o exemplo de coragem de Maria Auxiliadora nos pode ajudar. E vai-nos ajudar muito na nossa luta pela liberdade e pela preservação da nossa querida democracia. Dorinha quer ser ouvida. Ela procurou a câmara de filmar no Chile e a câmara não mais a largou porque ela tinha algo para nos dizer. Esse algo está aqui, neste filme. Dora nos diz sobre a forma como decorreu a delação que conduziu à sua prisão: “ Medo? Não tive medo. Eu fiquei triste por me sentir enganada”.

Não estou aí convosco porque o filme estreou há dois dias em Lisboa numa sala com mais de duzentas pessoas onde no inicio da sessão descerramos uma faixa pedindo menos violência no Brasil e mais democracia. Foi uma sessão muito forte e emotiva cheia de brasileiros e portugueses.

Este filme agora é vosso e deixa de ser meu. É o filme que eu devia ao Brasil, que tanto me deu e que tanto me dá. Poderia ter sido um filme da festa da vitória? Talvez não. Mas eu espero que a realidade do Brasil não chegue nunca mais ao extremo daquilo que vão ver e ouvir aqui hoje. Este pode ser sim um dos filmes da resistência.

Nos dois casos, da vitória ou da derrota, que é o que hoje temos em cima das costas, eu sempre diria sobre o filme resumidamente isto: Nós fazemos estes filmes para que estas coisas nunca mais voltem a acontecer. Estas coisas não podem voltar a acontecer. Nunca mais.

Muito obrigado e boa sessão” (José Barahona, diretor de “Alma Clandestina)