MOSTRA SP 2018

RAY & LIZ + MERCEDES MORÁN

O cinema lúmpen-proletário

britânico e Mercedes Morán, uma grande atriz argentina

RAY & LYS – Quem viu, na Mostra SP 2018, o longa-metragem “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, teve mais uma reiterada demonstração do que os britânicos (neste caso comandados por um cineasta grego) sabem fazer em filmes sobre a realeza. Grandes atores (como a incrível Olívia Colman, premiada com a Copa Volpi em Veneza e com vaga quase certa no Oscar), tramas complexas (afinal, os ingleses têm Shakespeare como poderosa matriz), e cenários incríveis (fora os EUA, a Inglaterra deve ser o país com mais estatuetas em direção de arte, não? Ou perde para a Itália?). Mas a Grã-Bretanha tem, também, um “cinema (lúmpen) proletário” dos mais poderosos. Ken Loach está aí com sua poderosa filmografia para comprovar. Este ano, não há filme do diretor de “Terra e Liberdade” na Mostra. Mas há um longa – “Ray & Liz”, de Richard Billinghan (108 minutos) – que há de fascinar a quem gosta de filmes de temática social e política, realizados com sólidos roteiros, ótimos atores e nenhum academicismo. O estreante (em longa ficcional) Billinghan, cujo filme conquistou o Prêmio Especial do Júri, em Locarno, constrói intrincada narrativa em dois tempos (separados por sete anos, na época do triunfo neo-liberal de Margareth Tatcher, protagonizada por deserdados da sorte (financeira, em especial). E regados a álcool, muito álcool (não temam desagradáveis excessos etílicos na tela, pois a contenção e a ausência de sentimentos piedosos são as marcas do vigoroso filme britânico). As crianças têm papel central na narrativa. Um personagem de nove anos (que conheceremos, primeiro, aos dois) inscreve-se, desde já na história do cinema social como inesquecível. A reação dele, depois de uma noite dormida ao ar livre e quase congelado por frio arrasador, é antológica. Nenhum vestígio de piedade, nenhum estímulo a lágrimas fáceis. Personagem duro, lúcido, realista ao extremo. E aos nove anos!!! Um filme notável. O diretor, de 48 anos, que é também fotógrafo e professor de artes, é pois autor de uma das boas surpresas da Mostra SP 2018.

MERCEDES MORÁN – Uma atriz argentina, a cordobesa Mercedes Morán, de 63 anos, está presente em pelo menos três filmes da Mostra SP 2018. 1. Como protagonista absoluta de “Família Submersa”. 2. Uma das protagonistas de “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, que rendeu a ela o prêmio de melhor intérprete no Festival de Karlovy Vary, na República Tcheca. 3. Ela está, também, no “tanque” “El Angel”, indicado da Argentina ao Oscar estrangeiro (já visto por 1.327.000 espectadores em seu país). O longa argentino “Sueño Florianópolis”, filmado, como diz o título, na capital catarinense, chega às nossas telas no próximo dia 15 de novembro. Ano que vem, além de “El Angel” e “Família Submersa”, um terceiro longa colocará a grande intérprete em nossas telas: “El Amor Menos Pensado”. Este, um Darín movie. Ela e o astro portenho protagonizam esta comédia de Juan Vera. Ana Luíza Beraba, da distribuidora Esfera, cujo catálogo abre espaço nobre para o cinema latino-americano, promete trazer Mercedes Morán ao Brasil, ano que vem, para lançar o lucreciano “Família Submersa”, ótimo filme dirigido por María Alché. María é a protagonista de “A Menina Santa”, de Lucrécia Martel. A jovem atriz, hoje com 35 anos, tornou-se, também, diretora. E das mais promissoras. Já na coprodução argentino-brasileira “Sueño Florianópolis”, Mercedes Morán faz par com o argentino Gustavo Garzón e tem como companheiros de férias no balneário catarinense a dupla Andréa Beltrão e Marco Ricca.