FLIP 2018 — BREVES (E TARDIOS) FLASHES SOBRE A FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY

+ PARATY-RJ:

FLIP 208:
HOJE (14-08-18), NA ILUSTRADA:
artigo de Josélia Aguiar, curadora da Flip,
replica artigo de Felipe Fortuna.

******** PARATY: FLIP EM DEBATE:
Sou, talvez, a pessoa menos indicada do mundo para dar opinião sobre a FLIP – Festa Internacional de Literatura de Paraty, pois só fui a uma edição, a última, e … “mobilizada” pelo Cinema. Fui convidada para moderar seis debates sobre quatro filmes exibidos no Cinema da Praça, recém-restaurado e devolvido à cidade: “Hilda Hilst Pede Contato”, de Gabriela Greeb, “Unicórnio”, de Eduardo Nunes (ambos inéditos) e “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, de Eduardo Ades & Marcus Fernando, e “Severina”, de Felipe Hirsh. Este evento, inserido oficialmente na programação da Flip, somou esforços da Casa Azul paratiense, da Petrobras e da Vitrine Filmes. Como sou muito caxias, vi e revi os filmes
e mediei os debates. Mesmo assim, tive tempo livre para assistir a várias atividades literárias (e cinematográficas). Não estive em nenhum dos debates da tenda principal, mas pude assistir a alguns deles em sua — digamos — extensão, uma imensa tenda popular, sem cobrança de ingressos, na qual se podia — graças a um imenso telão — assistir a tudo que acontecia no palco nobre. De tudo que vi-ouvi, o debate que mais me encantou somou a professora universitária Lígia Fonseca Ferreira e o poeta Ricardo Domeneck. Ela falou sobre a presença do negro na literatura brasileira, com ênfase na trajetória de Luiz Gama. Lamentou que ainda hoje não tenhamos um filme sobre personagem tão importante em nossa história (se estivesse na sala principal, contaria a ela que Jeferson De está às voltas com a produção da cinebiografia do abolicionista e advogado prático). …Ele, Ricardo Domeneck, falou de homoafetividade e literatura e deu imenso destaque à poesia da cineasta Hilda Machado. Leu dois poemas dela, que já partiu (e cedo), e encantou a todos. ***Não nego que o que mais me mobilizou, na Flip, em minhas peregrinações pela velha cidade (que visitei pela quarta vez) foi a FLIPEI – Festa Literária Pirata de Editoras Independentes, em seu curioso cenário: um barco “pirata”. Lá assisti a dois ótimos debates, um com Marcelo Freixo e outras vozes que debateram a violência urbana no Rio de Janeiro e, em especial, aquele que reuniu um coletivo de mulheres da periferia, que declama versos pelas ruas das quebradas paulistanas e as duas blacks mais badaladas do Brasil, neste momento: Djamila Ribeiro (que colocou dois livros entre os 5 mais vendidos da Flip) e Roberta Estrela D’Alva, atriz e, agora, cineasta (mês que vem ela lança o longa documental “Slam, A Voz do Levante”.
*********Por falta de tempo, registro
alguns breves flashes sobre a Flip:
1. Ouvi críticas, em Paraty, de que a Flip estaria transformando “Hilda Hilst, uma transgressora”, numa “maluca que queria falar com mortos” e numa “pornógrafa”. Vem cá: Hilda escreveu uma peça sobre Che Guevara (“Auto do Camiri”), criou versos libertários e ousados, mas
“tentou” falar com mortos sim (as provas estão no filme de Greeb) e teve vida mundana, além de conviver com a elite paulistana (até teria dedicado livro a um “amor” — platônico ou real? — por Júlio Mesquita, proprietário do vetusto Estadão. Sejamos, pois, menos seletivos na hora de compor o perfil de um escritor ou escritora. Somos todos seres contraditórios e mutifacetados.
2. Outra crítica que ouvi: a Flip é um convescote da elite paulistana endinheirada, que aqui (lá) tem casas de veraneio e aqui (lá) se diverte. Creio que é isto, também. Mas é muito mais. Vi a Tenda “do Telão” lotada todos os dias, por pessoas sem ingresso, que ouviram Iara Jamra declamar versos “pornográficos” de Hilda, canções de Zeca Baleiro (fruto de parcerias com Hilda), Eder Chiodetto falar de fotos (de dezenas de escritores, incluindo Hilda, que ele realizou)…. Vi mais de mil pessoas ouvindo uma russa octogenária (não guardei o nome dela) de imagem estranhíssima (pensei tratar-se de uma condessa inglesa do século XIX!!!), autora de livros “de supense ou fantástico-fantasmagóricos” e… muita gente curtindo o eruditíssimo e “vanguardista” papo da compositora Jocy Oliveira e do designer de som (de Wenders e outros craques) lusitano Vasco Pimentel… A caminho do cinema, passava em frente à Tenda do Telão e ela estava sempre lotada…. Aliás, tudo fica lotado na Flip.
3. Outra crítica que ouvi: a Flip custa milhões: este ano, perto de 6 milhões. Vem cá, a montagem de ” O Fantasma da Ópera”, um arremedo da Broadway, pôde captar quase 29 milhões de reais para vender ingressos a caravanas de turistas que lotam ônibus (para sonhar/pensar que estão nos EUA, a meca planetária)??????. Quem dá mais frutos, mercado de trabalho e difusão à cultura brasileira (e internacional): os organizadores da FLIP ou os imitadores da Broadway?? Com o dinheiro do “Fantasma” poderiam ser feitas quase CINCO Flips.
4. Quase 20 “casas” agregadas — Outra característica da Flip que me encantou: as instituições agregadas – a Flipei (da qual tanto gostei e que “causou” com sua original ambientação num navio “pirata”), a Casa Sesc, a Casa Globo-Época-Vogue, a Casa Folha de S. Paulo, etc, etc. Vi na lista uns 18 nomes de editoras, jornais-revistas, centros culturais, etc, etc, agregados à Festa de Paraty…. Ah, me disseram, mas “eles são off-FLIP”. Como off, se os espaços eram abertos e contíguos, numa miscelânia livre e saudavelmente agitada, com acesso à escolha do frequentador (não vi nenhum destes espaços cobrando ingresso)??? E lembremos: se não estivesse no espaço badaladíssimo da FLIP, a Flipei não teria encontrado tantos interessados reunidos (torçamos para que ano que vem haja um “tapume-teto” mais generoso na “casa-pirata”, pois quase fritamos de calor na beira do mar e sem um “amortecedor” sobre nossas cabeças)….
5. Ligação com a comunidade de Paraty — Notei que a Flip tem atividades que mobilizam a comunidade local. Vi um grupo de estudantes-adolescentes de câmaras em punho, cobrindo a Flip para o telejornalzinho que, no domingo, dia de encerramento, foi exibido com registros dos principais momentos da Festa Literária Internacional de Paraty. Tudo feito por eles. No casa da Rede Globo, assisti a palestras-debates de Maria Adelaide Amaral, Marçal Aquino e do ator Renato Góes + palestra do escritor e roteirista Paulo “Cidade de Deus” Lins, que supervisionou os roteiros de pequenos documentários (sobre Paraty, sua gente, seus ofícios, sua cultura) produzidos para serem apresentados na mobilizadora festa literária. Pescadores e integrantes de grupos folclóricos foram prestigar a exibição dos filmes e lotaram o auditório (da Casa de Cultura de Paraty, salvo engano).
6. Os debates no Cinema da Praça (com acústica e projeção de ponta, graças a recursos do BNDES) foram bons e mobilizaram pelo menos um terço da platéia que lotou todas as sessões. Torço para que, a cada ano, a FLIP promova lá mostras de filmes brasileiros baseados em obras literárias ou cinebiografias de escritores. Afinal, o diálogo Literatura & Cinema é, historicamente, dos mais férteis. “Vidas Secas”, de Nelson Pereira (e Graciliano) está aí para provar….