****FIM 2018 – FESTIVAL INTERNACIONAL MULHERES NO CINEMA — “SLAM: VOZ DE LEVANTE” E ROBERTA ESTRELA D’ALVA (na foto abaixo, de boné, com a codiretora TATIANA LOHMANN), as duas recebem o troféu REDENTOR, do FEST DO RIO 2017.

FIM 2018

Festival dedicado ao cinema feminino entrega seus prêmios nesta quarta-feira, no CineSesc

Um dos concorrentes a melhor filme

brasileiro é “Slam: Voz de Levante”

Por Maria do Rosário Caetano

“Em casa de menino de rua/ o último a dormir/ apaga a lua”. Estes versos, de aparência prosaica, constituem – pela simples troca da palavra luz por lua – o momento de maior beleza lírica de “Slam: Voz de Levante”, potente documentário-vitrine de poemas virulentos e politizados, que falam de estupro, machismo, racismo, opressão e direitos civis.

O filme, que tem os “Poetry Slam” como tema, é um dos seis concorrentes na disputa pelo prêmio de melhor longa brasileiro (pelo Juri Popular) do FIM 2018 – Festival Internacional Mulheres no Cinema. Os prêmios — inclusive o da Crítica (este de responsabilidade do Coletivo Elviras) — serão entregues nesta quarta-feira, 11, no CineSesc. Em seguida, haverá projeção de “Paraíso Perdido”, longa de Monique Gardenberg. O escolhido pelo público do FIM 2018 será exibido, excepcionalmente, às 22h00, no Espaço Itaú Augusta.

A concorrência pelo primeiro troféu do recém-criado festival feminista é forte, pois há mais cinco bons filmes no páreo. Quatro são documentários (“Baronesa”, de Juliana Antunes, “O Chalé é Uma Ilha Batida de Vento e Chuva”, de Letícia Simões, “O Desmonte do Monte”, de Sinai Sganzerla, e “Desarquivando Alice”, de Betse de Paula) e uma ficção (“Como É Cruel Viver Assim”, inteligente e moniceliana comédia sobre quatro suburbanos, engendradores de um sequestro, dirigida por Júlia Rezende).

“Slam: Voz de Levante” tem na poeta, performer, atriz MC, pesquisadora, produtora cultural, diretora de teatro (integrante do coletivo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos) e cineasta Roberta Estrela D’alva sua alma. Além de codirigir o filme com a cineasta e montadora Tatiana Lohmann, Roberta, de 40 anos, participou da escritura do roteiro, fez a trilha sonora (em parceria com Eugênio Lima) e foi a aliciante mestre-de-cerimônia das filmagens realizadas na França (Paris), EUA (Nova York e Chicago) e no Brasil (São Paulo e Rio). Formada em Artes Cênicas pela USP e com mestrado em Comunicação/Semiologia pela PUC, a jovem nascida no proletário “D” (Diadema) do ABCD Paulista tem dirigido seu olhar aos afro-brasileiros (em especial às mulheres). Sua dissertação de mestrado – “Teatro Hip-Hop: A Performance Poética do Ator MC” a qualificou-a criar e “estrelar” o longa documental.

Roberta, que é também uma slammer (praticante da poesia performática motivadora – e mobilizadora – de milhares de jovens pelo mundo inteiro), acompanha a vencedora do Poetry Slam Brasil, Luz Ribeiro, à final internacional, em Paris. Depois, com a intenção de apresentar/divulgar esta manifestação cultural ainda restrita a guetos, ela vai aos EUA, onde conversa (em inglês) com produtores e slammers, além de mostrar campeonatos norte-americanos em casas noturnas. Faz até participação num deles e ganha, em dinheiro vivo, modestos nove dólares.

No Brasil, ouvimos esta poesia que grita na voz de jovens periféricos, a maioria afro-brasileiros, da Cidade de Deus (Rio) e nas bordas de São Paulo. Sendo um filme dirigido por duas mulheres, torna-se evidente e poderoso o destaque dado a temas da pauta feminista, principalmente a luta contra o racismo, o assédio sexual e a exclusão sócio-econômica.

“Slam: Voz de Levante” fez sua estreia na competição de Documentários do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, em setembro do ano passado. Conquistou dois troféus Redentor: Prêmio Especial do Juri e melhor direção. Sua narrativa é envolvente e não esconde seu caráter militante. Tanto que no final, letreiros trazem os coletivos que, por vários estados brasileiros, dedicam-se aos “Poetry Slam”.

O documentário ganha relevância ao dar ênfase à presença feminina e negra no movimento, embora ao longo do filme vejamos mais homens interpretando performaticamente seus versos (eles ainda são maioria nesta linguagem contemporânea, que a tantos mobiliza). E abre espaço para a dissonância. Numa das conversas de Roberta, um produtor-slammer norte-americano retruca colocação feita por ela, de que a cena local assemelhava-se à de outros países. Ao que ele retruca: “não, está claro que estamos nos USA”. Afinal, pela compreensão dele, lá, tudo, por mais contestador que seja, se transforma em mercadoria capitalista.

A brasileira Luz Ribeiro perdeu a Copa do Mundo de Slam, realizada em Paris. Com sinceridade, ela conta a Roberta que ficou desapontada. Queria ganhar para sair da invisibilidade e servir de exemplo a jovens negras brasileiras. Mas o olhar cúmplice da multiartista Roberta Estrela D’alva (nome civil: Roberta Marques do Nascimento, filha de um baiano de Juazeiro e de uma paulista de São Bernardo do Campo, o “B” do ABCD metalúrgico) não está ali para melodramas. O filme segue em sua proposta de traçar um grande panorama da luta dos slammers por um mundo com menos desigualdade e mais justiça social.

SLAM: VOZ DE LEVANTE (Brasil, 2017) – Direção de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva. Fotografia de Humberto Bassanelli, Sérgio Roizenblit e Tatiana Lohmann. Montagem: Tatiana Lohmann. Duração: 97 minutos.