FILME CULT DE JEAN
VIGO – L’ATALANTE, EXIBIDO
SEM “O UMBIGO QUE FUMA”,
NA MOSTRA CINEOP 2018

JEAN VIGO – L’ATALANTE

CINEOP EXIBE COPIA

RESTAURADA DE “L’ATALANTE” SEM
CENA FAMOSA NA QUAL MICHEL SIMON FUMA PELO UMBIGO

Maria do Rosário Caetano
De Ouro Preto-MG

O que você sentiria se fosse assistir ao filme “O Encouraçado Potenkin”, de Sergei Eisenstein, e não se deparasse com a clássica sequência do massacre na Escadaria de Odessa?
Decerto, ficaria muito decepcionado. Pois este foi este o sentimento dos cinéfilos que foram assistir, em noite nobre na Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP, Ano XIII), à cópia restaurada de “O Atalante” (Jean Vigo/1934). Dela desapareceu a cena que tornou-se cult e povoou o imaginário cinéfilo por décadas. Aquela em que Père Jules (interpretado pelo magnífico ator Michel Simon) fuma pelo umbigo. E por que ele comete tal extravagância? Para atenuar o tédio de Juliette (a atriz alemã Dita Parlo), que passa sua lua de mel num barco (o Atalante do título) do qual seu jovem marido (Jean Dasté) é comandante.
Michel Simon, que na época das filmagens tinha apenas 38 anos (sua perfeita caracterização o transforma em um velho), é o principal e experiente marinheiro do Atalante. Já viajou por outros mundos e sua cabine é um repositório de lembranças do Oriente e do Novo Mundo. Seu corpo traz diversas tatuagens, inclusive de mulheres nuas. Em torno de seu umbigo foi tatuado um rosto humano. A boca de tal ser desenhado está justo na região umbical. É nela que Père Jules introduz o cigarro aceso, extravagância que faz sorrir a melancólica recém-casada.
E por que esta sequência, que o historiador e crítico francês George Sadoul (1904-1967) tinha como um dos momentos mais luminosos (e surrealistas) do filme, foi cortada da nova versão, realizada pelas Cinematecas da França, Bélgica, Bolonha/Itália e pelo BFI (Instituto Britânico de Cinema)?
A resposta foi dada por Céline Ruivo, 40 anos, diretora da Cinemateca Francesa e integrante da FIAF (Federação Internacional de Arquivos Fílmicos), em palestra na CineOP: “realizamos, a partir de cópia base do BFI e de profundo estudo, restauro que é o mais próximo possível da montagem desejada por Jean Vigo. E nela inexistia esta sequência”. E disse mais: “Michel Simon era um ator formidável, que gostava de improvisar. A cena em que ele coloca o cigarro no umbigo resultou de um de seus improvisos. E Vigo não a manteve em sua montagem”. Ela só teria sido “acrescentada ao filme em montagem posterior”.
Como tudo que cerca “O Atalante” é envolto em controvérsia, os cinéfilos seguem, apesar destas explicações, inconformados. Relembremos, pois, a acidentada história do filme. Jean Vigo, filho do anarquista Miguel Almereyda (1883-1917), perdeu o pai na infância. Abandonada pela mãe, cresceu em reformatórios (e transformou esta experiência de vida em magnífico filme, “Zero de Conduta”/1933). Lutou, por oito anos, contra uma doença, a tuberculose, muito grave à época. Terminou “O Atalante” com a saúde extremamente fragilizada. Tanto que supervisionou a montagem prostrado em seu leito. Quando o filme foi mostrado pela Gaumont, que o produzira, a um público corporativo, houve rejeição. A empresa revolveu, então, fazer as modificações que julgava necessárias. A maior delas se deu na trilha sonora, que recebeu o acréscimo de canção popular famosíssima à época: Le Chaland Qui Passe (A Chalana que Passa). A canção, inclusive, foi acrescida ao título do filme, que teve sua estreia comercial em setembro de 1934. Vigo morreria no mês seguinte, aos 29 anos. Antes, teria enviado ao cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, radicado na Inglaterra, cópia com a montagem original que fizera do próprio filme. Foi esta cópia, depositada no BFI, que serviu de guia aos restauradores desta quinta versão de “O Atalante”, supervisionada pelo crítico e historiador Bernard Eisenschitz. Quem também ajudou na restauração foi Luce Vigo, filha única do cineasta. Ela morreria em fevereiro do ano passado, dois meses antes da apresentação da nova cópia no segmento Cannes Classics, maior vitrine de obras restauradas em parceria com instituições como a Cineteca de Bolonha (Projeto L’Immagine Ritrovata) e a Film Foundatition (presidida por Martin Scorsese).
Depois de Alberto Cavalcanti, mais um nome brasileiro entrou na história de “L’Atalante”: Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977). Nos anos 1950, o jovem paulistano foi estudar na França e, envolvido com as esquerdas culturais que varriam o mundo, resolveu pesquisar a história de Jean Vigo e de seus pai, o anarquista Miguel Almereyda. Tornou-se, pois, o petulante brasileiro, o autor de substantiva biografia de Vigo (e depois, de Almereyda).
À frente da Cinemateca Francesa estava Henri Langlois (1936-1977), simpatizante declarado dos comunistas. Entusiasmado com os estudos de Paulo Emilio, seu amigo, ele ajudou a difundir a obra do jovem Vigo, que partira tão cedo. A União Soviética deu apoio total a tal difusão. Céline Ruivo destacou o papel dos soviéticos no grande alcance que a obra de Vigo alcançaria pelas décadas seguintes. Outra instituição importante neste processo de multiplicação da reduzida produção de Vigo (quatro títulos) foi a Cinemateca Real da Bélgica. Em enquete que apurou os 100 maiores filmes de todos os tempos, “O Atalante” ficou entre os de melhor colocação.
Tudo leva a crer que foi a versão restaurada por Henri Langlois (a terceira) — ajudado por Paulo Emilio e Panfilo Colaprete — a que encantou os cinéfilos e críticos do mundo inteiro. Há que se registrar que Emilio & Colaprete haviam assegurado a Langlois ser “impossível chegar ao corte ideal”, ou seja, à versão exata desejada por Vigo. Como a Cinemateca Francesa adquirira coleção de tomadas extras do filme, o atrevido Langlois resolveu fazer restauração, digamos, criativa. Vejam o que ele disse sobre ela:
— Eu vi algumas coisas maravilhosas que Vigo havia cortado, porque desejava uma simplicidade absoluta. Montei uma versão na qual, por mera curiosidade, inseri algumas cenas, para ver qual efeito eu alcançaria. ‘Magnífico’, me disseram os que a viram, mas não era o que Vigo queria”.
No texto que escreveu para a sessão do filme em “Cannes Classics”, o restaurador Bernardo Eisenschitz diz que Langlois só acrescentou duas cenas: a dos recém-casados caminhando pelo feno e uma outra, em que Jean, o jovem recém-casado, aparece lambendo um bloco de gelo (inspirado, quem sabe, no Carlitos de “Em Busca do Ouro”).
Então, somos levados a concluir que a inserção da cena do “umbigo que fuma” seria fruto da versão de 1990, aquela supervisionada pelos ultra-criativos Pierre Phillipe e Jean-Louis Bompoint, para a Gaumont?
Céline Ruivo deu a entender, no debate da CineOP, que sim. E que esta dupla tomara grandes liberdades, cometendo o que ela chamou de “várias invencionices”. Na maior delas, “introduziu-se, por efeitos especiais, sequência em que Père Jules (Michel Simon) parece lutar com sua própria imagem”. Ou seja, o grande ator aparece como “dublê de si mesmo”. Para livrar o projeto de Vigo de tais acréscimos posteriores, Bernard Eisenschitz seguiu, além da cópia depositada no BFI, o roteiro original do filme, que Luce Vigo guardou ao longo de sua vida.
Cécile Ruivo cita três opções tomadas pela nova equipe de restauradores: 1. “Devolvemos à sequência em que Julliette, em sua fuga do barco, ouve música em uma loja de discos. E o som que se ouvia, na versão original do filme, era a da voz da própria personagem (da atriz Dita Parlo) e de seu marido (o ator Jean Dasté). Com esta opção, Vigo registrava um momento poético e de melancolia, já que a recém-casada sentia saudades de seu amado. A Gaumont achou tal liberdade absurda. E a substituiu por música cantada por outras vozes”. 2. “Mantivemos momento em que cabelo dança sobre o rosto de determinado personagem. Há quem considere tal situação uma falha do diretor de fotografia, o soviético Boris Kaufman (irmão de Dziga Vertov). Para nós, isto revela as condições de produção do filme, feito com recursos escassos”. 3. “Mantivemos a sequência final com visão aérea do barco, feita por Boris Kaufman graças ao uso de um helicóptero. Não podemos afirmar, em 100%, que o filme terminasse com estas tomadas aéreas, mas tudo indica que este era o final que Vigo queria”.
Quem ama a versão em que Père Jules “fuma pelo umbigo” poderá continuar a vê-la, pois está registrada, mundo afora, em DVD (no Brasil, em bela caixa-estojo, composta com os livros biográficos lançados pela Cosac-Naif). Filmes cultuados com “O Atalante” devem ser fruídos em todas as versões que vierem a ter. Uma não deve excluir, mas complementar, a outra. Cinco delas estão, portanto, ao alcance de pesquisadores e cinéfilos: a original (e mais rara), de Vigo, e a da Gaumont, chamada “Le Chaland qui Passe” (ambas de 1934), a de Henri Langlois (anos 1950), a de Philippe & Bompoint (1990), e a mais recente (2017, que tenta chegar o mais próximo possível da versão que Vigo mandou a Alberto Cavalcanti, mas que sofreu desgastes e pequenos truncamentos). O que importa é perpetuar a história deste filme que os comunistas (e os anarquistas) ajudaram a difundir pelo mundo inteiro. E que teve Andrei Tarkowski como um de seus mais ardorosos admiradores.

Enviado do Ipad de Rosário