OLHAR DE CINEMA 2018 – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA (ANO VII)

Abaixo flashes e foto de Fabiana e Priscila, do longa brasileiro sobre caminhoneira trans.

AMORES HOMOAFETIVOS,

“RASHOMON” RUSSO, ANIMAÇÃO
JAPONESA DO ESTUDIO GHIBLI

E ANTON WALTER SMETAK

Maria do Rosário Caetano

PARAÍBA HOMOAFETIVA SIM SENHOR — O segundo (e último) longa-metragem brasileiro da competição internacional do Olhar de Cinema 2018 foi exibido na noite de domingo, para sala lotada: “Sol Alegria”, de Tavinho Teixeira. Como o documentário “Fabiana”, que também se insere no universo das novas afetividades, o filme do ator, performer e diretor paraibano dividiu a platéia, embora tenha recebido aplausos calorosos no final. Alguns espectadores, ao deparem-se com o pansexualismo do filme — e com sua profusão de corpos nus e pênis mostrados na tela grande — deixaram a sala. Mas a maioria ficou, inclusive para debater o filme com Tavinho Teixeira e sua equipe. O longa-metragem, o terceiro do realizador (os anteriores são “Luzeiro Voltante” e “Batguano”) é uma fantasia pop-gay com ingredientes de filmes do primeiro Almodóvar (aquele dos loucos tempos da Movida espanhola, em especial de “Entre Tenieblas – Maus Hábitos” e “Labirintos de Paixões”), com pitadas de ficção científica, western spaghetti e do trash. A trama é mero pretexto para performances de imenso elenco formado com convidados do eixo Rio-São Paulo (Joana Medeiros, Ney Matogrosso, Vera Barreto Leite) e atores paraibanos (como o próprio Tavinho, mais Mariah Teixeira, Everaldo Pontes, Soya e Buda Lira, Susy Lopes, Toreba, entre outros). Evocando performances teatrais dos anos 1970, os atores, todos muito desinibidos e à vontade, fazem sexo, cantam (sim, o filme tem momentos de musical coletivo) e cometem algumas transgressões. “Sol Alegria” se passa num país imaginário (claro que no Brasil!), em que junta militar assumiu o poder e pastores corruptos zelam pela moral e pelos bons costumes. Uma família constituída fora dos padrões convencionais sai pelas estradas, passa por um convento habitado por freiras e madre superiora (interpretada por Everaldo Pontes) ‘mucho locas’ e segue em frente. Vejamos os que os júris (Oficial e da Crítica) acharão do longa paraibano. Outro filme do estado nordestino participa, fora de competição, do Olhar de Cinema: o terror black “Nó do Diabo”, composto de episódios comandados por vários diretores, e que será, em breve, mostrado no projeto Cinema às 19h00, da Rede Cinemark, em sessão diária de segunda a sexta. Depois terá lançamento no circuito normal.

SALA LOTADA — Domingo, 10 de junho, quase duas da tarde. Fila imensa de jovens serpenteia pelos corredores do Espaço Itaú curitibano. Jovens conversam animadamente. Que filme do Olhar de Cinema os tirou de casa, em tão grande quantidade, no horário de almoço? Será que vieram ver o delicioso e bem-humorado road movie JAGUAR, de Jean Rouch? Será que as novas gerações estão descobrindo os documentários africanos do mestre francês? Estes filmes também farão sucesso como fez, dias atrás, “Crônica de Um Verão”, que Rouch realizou em parceria com Edgard Morin? A resposta veio logo. A fila que ocuparia metade dos lugares de uma sala (número significativo num começo de tarde de domingo) destinava-se à Mostra Rouch-Mambéty. Já a da moçada, que alegremente formava pequenos grupos de conversa, esperava a sessão de uma animação japonesa — “O Túmulo dos Vagalumes”, de Isao Takahata, parceiro no Estúdio GHIBLI do mestre nipônico Hayo Miyazaki. Takahata morreu este ano, já octogenário. Os filmes do Ghibli, premiados com algumas estatuetas (o Oscar da Academia de Hollywood), tornaram-se objeto de culto. Os jovens que curtem o anime japonês foram, pois, assistir à triste história de O Túmulo dos Vagalumes (1988), não indicado para crianças pequenas. O filme conta a história de um casal de irmãos órfãos, que, no Japão devastado pela Segunda Guerra Mundial, se ajudam um ao outro. Do mesmo realizador, há que se conhecer “A Família Yamada” e “O Conto da Princesa Kaguya”. Já os filmes do co-fundador do Estúdio Ghibli, Miyasaki, muitos tiveram bom lançamento em nosso circuito de arte, caso de “A Viagem de Shiriro”, “Meu Amigo Totoro” e “O Castelo Animado”.

FABIANA E PRISCILA — As protagonistas do documentário “Fabiana”, de Bruna Laboissière, produção de Fernanda Lomba, estão em Curitiba, para participar do Olhar de Cinema. Fabiana Camila Ferreira, a caminhoneira transexual que protagoniza o filme, e sua companheira Priscila Cardoso, também trans, participaram, inclusive, do debate “Políticas de Representatividade Trans no Cinema”, ao lado de Bruna e também de Débora Zanata, atriz trans e primeira diretora de escola da rede pública eleita por voto direto, e da ativista Megg Rayara, do movimento de Travestis e Transexuais, doutoranda em Educação. Se o tom performático e transgressor marca “Sol Alegria”, o mesmo não se pode dizer de “Fabiana”. A protagonista, caminhoneira goiana, nasceu homem, fez a operação e transformou-se na batalhadora Fabiana, que dirige um imenso caminhão pelas estradas brasileiras. O máximo que ela diz aos colegas caminhoneiros é que “gosta da mesma fruta” que eles. Diz, em momento de rara descontração, que o negócio dela é “perereca”, eufemismo para o órgão sexual feminino, usado no Brasil interiorano, onde ela cresceu, até por crianças. Fabiana, de 57 anos, prepara-se para a aposentadoria e demonstra seu amor (temperado com muito ciúme) pela inquieta Priscila. Se a primeira é caseira (um de seus passatempos é tomar cerveja temperada com gotas de pimenta líquida), a segunda é da farra, gosta de dançar e de badalar. As duas, que fazem juntas (no filme) uma derradeira viagem — com Fabiana ao volante e Priscila na boleia — são como a água e o fogo. O filme registra tudo com simpática discrição. Um registro: Priscila, que é tão amada por Fabiana, nasceu em Castanhal, no Pará, cidade natal de Jaloo, o cantor-ator de “Paraíso Perdido”, novo filme de Monique Gardenberg.

SMETAK, A VANGUARDA SUÍCO-BAIANA — Para o segmento Novos Olhares, do VII Olhar de Cinema, foram selecionadas sete produções mais voltadas à pesquisa de linguagem, em especial a combinações especiais de som e imagem. O longo brasileiro escolhido para este segmento foi “Smetak”, de Simone Dourado, Nicolas Hallet e Mateus Dantas. Anton Walter Smetak (1913 -1984), que Caetano Veloso evoca em “Épico”, umas das faixas do inventivo LP “Araçá Azul” (1973), deixou sua Suíça natal para seguir carreira de músico no Brasil. Ligou-se à Eubiose, um jeito esotérico de ser e viver, e deixou sua função de músico de orquestras sinfônicas tradicionais para entregar-se por inteiro à composição de sonoridades experimentais, ao magistério e à confecção de instrumentos. O trio que criou “Smetak”, o filme, fez questão de fugir de qualquer cinebiografia tradicional. Realizou documentário no qual o som e a experimentação são essenciais. Um Gilberto Gil novinho (em imagem de arquivo) evoca a contribuição smetakiana para a música num determinado momento de muita invenção na Bahia. Rogério Duarte, artista gráfico, compositor e discípulo de Smetak, dá “depoimentos” (se assim podemos defini-los) sofisticados e enriquecedores sobre o suíço que adotou a Bahia. Mesmo caso de Guilherme Vaz, autor de trilhas sonoras inovadoras como as que fez para “Fome de Amor”, de Nelson Pereira dos Santos, e “O Anjo Nasceu”, de Júlio Bressane. Outras vozes se somam ao tecido do filme, mas nunca no estilo “cabeças falantes”. Só faltaram Caetano Veloso e “Épico”, do Araçá Azul, ambos de alma smetakiana. O filme participa, em São Paulo, do Festival In-Edit.

DE RASHOMON AO SACO SEM FUNDO — Um dos filmes que mais têm chamado atenção no Olhar de Cinema é o russo “O Saco Sem Fundo”, de Rustam Khamdamov, de 73 anos. Programado no segmento Outros Olhares, ele se fez notar por razão muito especial: baseia-se no conto “Dentro de Um Bosque”, do japonês Ryunosuke Agutagawa (1892-1927), escrito em 1922, e transformado em filme por Akira Kuroswa. E que filme: “Rashomon”, Leão de Ouro no Festival de Veneza/1950, obra seminal que fertilizaria o cinema mundial (incluindo o “Boca de Ouro”, de nosso Nelson Pereira dos Santos). É claro que atrever-se a refilmar um conto, que deu origem a uma obra-prima, é atitude temerária. Mas Khamdamov, pintor, diretor de arte, figurinista e cineasta bissexto não se deu por vencido. Realizou um longa-metragem 9104 minutos) de imensa beleza plástica e adaptou o conto para sua Rússia natal. O resultado é dos mais dignos e as imagens nos deixam em estado de êxtase. Mas o filme não tem a inventividade e o poder de sedução kurasowiano, que arrebatou o mundo inteiro, do Oriente ao Ocidente. Neste “Saco Sem Fundo”, o artista eslavo soma a seu roteiro influências de Jorge Luis Borges, Roland Barthes, entre outros, escala time de grandes atores (em especial a veterana Svetlana Nemolyaeva) e compõe cenários e figurinos tão belos, mas tão belos, que dispersam nosso olhar. Prestamos mais atenção nos magníficos trajes dos personagens e nos preciosos objetos de cena, que na história que a “Sherazade” russa conta para o czar Alexandre II. O assassinato na floresta, que no filme de Kurosawa era contado de diversos pontos de vista, aqui não nos envolve (e comove) tanto. Quem sabe, se não estivéssemos com “Rashomon” na memória, fruíssemos melhor a recriação do fascinante “Dentro de Um Bosque”, de Akutagawa, escritor notável, que viveu tão pouco (34 anos) e deixou, entre outros contos, esta seminal narrativa.

Enviado do Ipad de Rosário