OLHAR DE CINEMA 2018 – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA (ANO 7)

OLHAR DE CINEMA 2018 (Ano 7) – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA –

Há muitos filmes femininos e muitos filmes black na maratona curitibana. E duas mulheres — a norte-americana Janie Geiser (nesta foto com um dos curadores do festival, Aaron Cutler), e a francesa Alice Guy-Blaché (1873-1968) — têm seus filmes revelados ao público brasileiro neste momento em que, felizmente, olhares se voltam para a rica, e muitas vezes escondida, produção de mulheres-cineastas. Janie está em Curitiba mostrando e debatendo seus curtas-metragens nascidos de seus experimentos com as artes plásticas. Já Alice, que partiu, nonagenária, em 1968, e deixou perto de 700 filmes, marca presença com oito deles, criados na era muda e restaurados pela Biblioteca do Congresso, dos EUA. Dois chamam atenção. Um, por retratar, nos anos 10 do século XX, uma família negra como protagonista, bem-vestida e enfrentando problemas similares aos que a ficção cinematográfica reservou, preferencialmente, aos brancos. Isto tudo, vale repisar, foi criado no começo do século passado, por uma francesa, contemporânea dos Irmãos Lumière e de Méliès, que foi trabalhar na então nascente (e depois hegemônica) indústria cinematográfica dos EUA. No outro, nos deparamos com um protagonista efeminado, cheio de trejeitos, que para casar-se com a mocinha, necessitará de um estágio em terra de machos. O Oeste dos cowboys, claro. O cinema daquele tempo era atração de salas caça-níqueis e trabalhava estórias marcadas pelo humor e por fortes estereótipos. Num dos filmes, Alice nos mostra como vem de longe a estigmatização dos mexicanos nos EUA. Numa trama de mocinhos loiros, aqueles que vivem abaixo do Rio Grande são mostrados como bigodudos sujos e de maus bofes. Conhecida como pioneira do cinema narrativo, Alice faz por merecer vários (e futuros) estudos. A maratona do Olhar de Cinema é das mais exaustivas e exigentes. Afinal, sua mostra competitiva e suas mostras informativas são dedicadas ao cinema de pesquisa de linguagem (felizmente, aquele com temas instigantes). Os dois longas exibidos até agora (neste final de semana, serão mostrados quatro novos concorrentes, incluindo os brasileiros “Fabiana” e “Sol Alegria”) são dignos de nota.
O primeiro deles, o documentário sensorial “Boa Sorte”, do norte-americano Ben Russel, produção franco-germânica, exige um espectador atento. Afinal, o cineasta registra, ao longo de duas horas e 23 minutos, trabalhadores que buscam minérios em condições asfixiantes ou que exigem esforço físico extenuante. Na primeira parte, vemos mineiros sérvios iluminados apenas pelas lanternas de seus capacetes penetrando nas profundezas da terra em busca de cobre. Sem trilha sonora, com falas rarefeitas, o que interessa são as imagens e sensações destes homens que arriscam a vida colocando explosivos para abrir novos veios, desmontando com suas picaretas a rocha, caminhando na escuridão. Depois, o artista parte para outro ambiente, solar e calorento: a selva amazônica, no Suriname, uma das Guianas, onde pequeno grupo de trabalhadores negros lavra em busca de ouro rarefeito. Um belo filme sobre o mundo do trabalho. Foi exibido no Festival de Locarno.
O outro concorrente, o chinês “A Feiticeira Viúva” (120 minutos), valeu a seu diretor, o estreante Cai Chengjie, de 37 anos, o Troféu Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã. Suas primeiras imagens, em cores, mostram uma linda mulher (a atriz Tian Tian, que lembra a Gong Li dos primeiros filmes de Zhang Yimou) andando na neve com o terceiro marido. Uma explosão muda tudo, inclusive a cor do filme. Daí em diante, veremos Er Hao, a bela protagonista, perambulando por uma China rural, pobre e supersticiosa. E povoada por homens brutos e ávidos. Como os três maridos da jovem e linda chinesa morreram de forma trágica, ela passa a ser vista como fonte de má sorte. Todos a julgam negativamente, menos um menino surdo-mudo, cunhado dela. Os dois percorrem, numa van, lugarejos habitados por velhos doentes e abandonados, brutais cobradores de dívidas e assemelhados. A má fama da viúva só faz crescer. Ela passa a ser vista como uma feiticeira. O curioso é que o filme traz um humor fino e cortante. E uma fotografia de imensa beleza (em momento sublime, vemos uma tigela com brasas vermelhas destacar-se no quadro registrado em preto-e branco). A paisagem gelada guia nosso olhar para o braseiro, como se também buscássemos um pouco calor para amenizar a dura vida de Er Hao. Um filme chinês diferente de tudo que conhecemos.