BOLA DE SEBO & MADEMOISELLE FIFI: DOIS CONTOS DE MAUPASSANT UNIDOS EM UM SÓ FILME

****MAIS UM
FILME BASEADO
EM “BOLA DE SEBO”,
DE MAUPASSANT:
Começa, hoje, no Rio, no IMS, a Mostra Kenji Mizoguchi, com 18 filmes, entre eles “Oyuki, a Virgem”, recriação livre de “Bola de Sebo”, o magistral e seminal conto de Maupassant. ****Ontem à noite, Zanin e eu assistimos a mais um filme baseado na obra do
escritor francês: “Mademoiselle Fifi” (1944), de Robert
Wise (1914-2005). Na verdade, o filme soma “Bola de Sebo” a “Mademoiselle Fifi”, outro conto de Maupassant, ambos ambientados
em cenário da Guerra Prussiana de 1870 e com prostitutas e personagens militares em primeiro plano. Mas, no filme de Wise — montador de “Cidadão Kane”, diretor de alguns filmes respeitados (caso de “Punhos de Campeão, 1949), de grandes sucessos de público (Noviça Rebelde) e de parceria histórica (“Amor Sublime Amor”, com Jerome Robbins) — o realismo crítico de Maupassant perde força. Assim como a luta de classes. Até a discussão do “patriotismo” (com partes da França ocupadas pelos prussianos) torna-se superficial. Bola de Sebo, a rechonchuda (e bela) prostituta do conto homônimo, transforma-se em uma lindíssima lavadeira. As prostitutas de “Mademoiselle Fifi” também viram trabalhadoras da lavanderia. O filme de Wise dura apenas 70 minutos. Merece ser visto pela feliz ideia de juntar os dois contos, ambos de leitura mais que obrigatória, em narrativa única. Pelo que me disseram, o filme “Bola de Sebo” (1945), do francês Christian-Jaque, que nunca vi, também soma os dois contos, mas o conterrâneo de Maupassant preferiu preservar o título “Bola de Sebo”. Já Wise optou pelo (digamos, frívolo) “Mademoiselle Fifi” (apelido que militares do grupo prussiano dão a um de seus oficiais). Registre-se que o nome “frívolo” batiza também o conto. ****Creio, portanto, que só um filme foi 100% fiel ao seminal conto francês: o soviético “Bola de Sebo” (1934, de Mikhail Romm, em pxb e em versão muda). Realizado num país socialista (URSS), o filme preservou a origem de todos os envolvidos: o tempo histórico e a geografia (Guerra Franco-Prussiana e o território francês), a protagonista, uma prostituta (a atriz soviética é a única que tem aparência rechonchuda, todas as outras são lindas sílfides) em sua convivência (dentro de uma diligência) com nobres, um comerciante inescrupoloso, etc. John Ford transformou a história, que serviu de argumento ao seu “No Tempo das Diligências”,
em um western, no qual, ao invés da Guerra Franco-Prussiana, vemos “guerra” entre brancos e índios. Ettore Scola ambientou “La Nuit de Varennes” (Casanova e a Revolução) no final do século XVIII (Revolução Francesa: é dela que os nobres fogem). Neste caso, Bola de Sebo é uma referência apenas (em Ford, há, na primeira parte do filme, muitos pontos em comum. Por isto estudiosos franceses, como Bazin, reconheceram na hora a fonte não creditada). No filme de Mizoguchi, a história é transferida para o Japão, no século XIX, quando há guerra interna. E, na segunda parte, o filme vira um drama social sobre honra e renúncia…..(((Sempre sonhei com uma versão brasileira de “Bola de Sebo”, a ser adaptada e dirigida por Jorge Furtado. Mas nossa história exigiria, à falta de uma guerra em nosso território, verdadeiros malabarismos. (…)