VAZANTE, DE DANIELA THOMAS, UM DEBATE NECESSÁRIO
+ HEBE MATTOS + ANTONIO ENGELKE + JOEL ZITO ARAUJO +
OUTROS FLASHES

************VAZANTE, DE DANIELA THOMAS, UM DEBATE NECESSÁRIO + PATRICIO GUZMÁN EM SÃO PAULO + POR QUE NÃO ORGANIZAMOS UM DEBATE COM BRUNO REIS (UFMG), ANDRÉ SINGER (USP) E JOSÉ ROBERTO TOLEDO SOBRE ELEIÇÕES (REPRESENTATIVIDADE)??? + MOSTRA DE DOCUMENTARIOS BRASILEIROS FEITOS NO CALOR (DESTA) HORA(CINEMA URGENTE): AGUARDEM!!!

“VAZANTE”, DE DANIELA THOMAS:
UM DEBATE NECESSARIO
Acabo de ler, na Piauí/Uol, artigo da cineasta
Daniela Thomas, no qual ela comenta a trajetória de seu filme, “Vazante”, que estreou no Festival de Berlim e, ao participar da mostra competitiva do 50o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foi tema de debate feroz, que coube a mim moderar. Antes de voltar ao tema da “moderação” de debate tão virulento, historio os desdobramentos (os por mim acompanhados, claro!) do que se passou na discussão pública de “Vazante”.
Durante o Festival, o filme era tema recorrente. No “facebook”, o jornalista, crítico e professor da UFPB, Lúcio Vilar, escreveu: “Paradoxo estendido na areia… Daniela Thomas não merece ser transformada no Griffith de saias do cinema brasileiro…”. Os debates continuaram (assisti a todos e moderei três, todos de filmes comandados por mulheres). O chão tremeu no dia do documentário recifense “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, sobre a Tropa de Choque pernambucana. Foi catártico no dia em que se debateu o baiano “Café com Canela”, de Ary Rosa & Glenda Nicácio. Um crítico, da platéia, disse que o Festival começara neste dia (o do filme de Cachoeira, no Recôncavo, e não nos dias anteriores, em que foram exibidos “Vazante” e “Pendular”). Houve, também, debates mornos. Houve, em várias das discussões, perguntas duras,
mas sólidas, argumentadas, houve digressões sem rumo de “perguntadores/as” que,
na verdade, não tinham perguntas a fazer, mas sim desabafos ou relatos de conversas desenroladas pela madrugada.
A vida seguiu. Até que poucos dias atrás, recebi, via “face”, pergunta do cineasta Jorge “Ilha das Flores” Furtado, que indagava: “o que houve com a versão digital do debate de ‘Vazante’?” Indagava por que ele fora retirado do site da Secretaria de Cultura do DF. Não soube responder. Um dia depois da pergunta de Jorge, recebi recomendação de leitura de sólido artigo da historiadora e professora da UFF, Hebe Mattos (a recomendação viera do cineasta Joel Zito “A Negação do Brasil” Araújo, integrante do juri brasiliense que analisara os nove concorrentes, entre eles, “Vazante”).
Troquei ideias com alguns amigos sobre o que se passara em Brasília (debates exaltados na internet não me atraem). Li coluna de Sérgio Rodrigues (FSP – “Lacrou: gíria traduz admiração, mas não esconde traço autoritário”) e segui a recomendação que ele fizera: que léssemos o denso (e imenso) artigo de Antonio Engelke (na Piauí de setembro). Hoje (05-10-17), leio o texto de Daniela Thomas na Piauí/Uol. Texto cuja leitura recomendo. Como ela se refere à minha moderação, cito o parágrafo referente: “sendo que a mediadora, também acuada, não fazia qualquer movimento para acalmar os ânimos ou retomar a lista de debatedores que havia pacientemente escrito em seu caderno, eu capitulei…“.
Tomo a liberdade de esclarecer que este foi o segundo debate mais difícil da minha vida (e olhe que tenho estrada: só em Brasília, modero debate há quase três décadas). O pior, infinitamente pior, aconteceu em São Paulo, na Reserva Cultural, quando do lançamento do filme “O Senhor da Guerra” (sobre um traficante de armas interpretado por Nicolas Cage). O Brasil discutia o plebiscito que daria (ou não) direito à população de se armar. Atendendo a convite de Jean-Thomas Bernardiní, pensei que a tarefa seria fácil. As pesquisas mostravam que os anti-armamentistas, entre os quais me incluo, estavam com grande vantagem nas pesquisas (a derrota que estava por vir nos surpreenderia). A moderação foi árdua, me causou mal físico, me tirou o sono. O delegado a quem coube defender as armas era agressivo, não deixava ninguém falar. O filme tornou-se tema secundário… Em resumo: foi terrível.
Já o debate de “Vazante”, na minha opinião, foi produtivo, embora com momentos de agressividade desnecessários (mas compreensíveis nestes tempos rascantes que estamos vivendo). Um pequeno incidente provocou uma certa dissonância na chamada dos inscritos para perguntar: houve quem se inscrevesse comigo (inscrição devidamente anotada no meu caderno de capa dura) e quem se inscrevesse com o rapaz que levava o microfone ao “perguntador”. Modéstia à parte, creio que desempenhei bem minha função. Acompanho
há anos — com atenção redobrada desde o manifesto Dogma Feijoada-2000, de Jeferson
De — os debates dos afro-brasileiros sobre a necessidade de repensarmos em profundidade a representação do negro nas telas e na autoria e produção dos filmes). Ano passado, o mesmo Fest Brasília sediou debate intenso, promovido pela Fundação Ford, sobre o tema (abrangendo, além do cinema black, o cinema indígena). Depois, na Mostra SP 40, no Cinearte paulistano, outro debate muito vivo e necessário, com os cineastas Jeferson De e Juliana Vicente, a atriz Teka Romualdo e o ator Thogum. Conhecendo a fervura — e justeza das reivindicações dos afro-brasileiros — moderei o debate de “Vazante” de forma que todos falassem (a leitura de Paulo Freire me ensinou muito!!). Só não falou quem saiu antes, por compromissos inadiáveis. Uma jovem roteirista discutiu meu papel de moderadora não (assim entendi!) por me julgar incompetente — (até contou que lera meu livro de entrevistas com “Cineastas Latino-Americanos”) — mas por (eu) ser branca e assim ocupar espaço de poder (ela tem todo todo direito de fazer tal questionamento. Guardei o nome dela — Francinet Barbosa não é? — e vou prestar muita atenção em todos os filmes que ela roteirizar e dirigir!)….. Tenho para mim que nós, brasileiros, temos dificuldades de debater ideias. Jean-Claude Bernardet causa espanto a alguns (em mim, encanto) com sua franqueza, sua coragem para dizer o que pensa, para questionar. Na minha modesta opinião — repito — houve alguns excessos na discussão de “Vazante”, mas nada que não faça parte do debate democrático. Dito isto, transcrevo abaixo trechos das matérias que escrevi (as que falam em “Vazante”), no calor da hora, em Brasília, para a Revista de Cinema:

*VAZANTE NO DEBATE
DO FEST BRASILIA 50

Filme de Daniela Thomas é duramente

questionado em debate no Festival de Brasília

Maria do Rosário Caetano

Revista de Cinema

A sessão de “Vazante”, primeiro filme solo da cineasta Daniela Thomas e segundo concorrente da mostra competitiva do 50o. Festival de Brasília, começou com atraso de 75 minutos e entrou madrugada adentro. Ao final, foi aplaudido.

Já no debate realizado na manhã deste domingo, 17, a cineasta e sua equipe estiveram sob fogo cerrado. Artistas, críticos e estudiosos dirigiram à codiretora de “Terra Estrangeira”, “O Primeiro Dia” e “Linha de Passe” (com Walter Salles) e ” Insolação” (com Felipe Hirsch) questionamentos duríssimos.

“Vazante” mexeu em tema mobilizador, agora mais do que nunca: as relações entre brancos, proprietários de terra, com negros escravizados. E o fez pelo ponto de vista de uma realizadora branca, nascida e criada na classe média intelectual carioca. Para dar seu ponto de vista, Daniela escreveu o roteiro de “Vazante” com Beto Amaral, que produziu o filme com a Dezenove de Sara Silveira e Maria Ionescu. Os dois roteiristas, brancos, deram a atores (e personagens) igualmente brancos, as funções de protagonistas. Ela é Beatriz (Luana Nastas), menina de 12 anos, dada em casamento a António, um proprietário de terras, de 45 anos (interpretado pelo lusitano Adriano Carvalho).

O português vive do negócio da venda de escravos. E de gado. Deixa a mulher sozinha numa imensa fazenda mineira. A relação dela com um dos moradores da fazenda, um jovem escravo, vai mudar a aparente calma da grande propriedade.

Os questionamentos dirigidos ao filme centraram-se em pontos-chave: “os personagens negros não têm subjetividade”, “o filme santifica a menina branca” e os roteiristas (Daniela e Beto Amaral) “não procuraram fontes renovadas de análise ou ficções (como “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves) para embasar seu trabalho”. Até o orçamento do filme (de R$6 milhões, sendo R$1 milhão vindo de parceiros portugueses) e os cachês dados aos atores brancos e aos negros foram questionados.

O filme foi definido como “um Sinhá Moça ostentação”, “uma novela da Globo em ritmo mais lento”, ” uma obra que requisita certa inocência para reafirmar o status quo”. Até o ator Fabrício Boliveira, que interpreta Jeremias, um escravo fôrro, concordou com os questionamentos dirigidos ao filme. A atriz Jai Batista, que interpreta a escrava Feliciana, e o ator Vinícius dos Anjos (o jovem escravo Virgílio) estavam na mesa de debates, ao lado de Luana Nastas (Beatriz), mas ouviram mais do que falaram. A jovem Luana Nastas não se manifestou.

Daniela Thomas, no início, ainda tentou se defender, lembrando que o filme traz o ponto de vista feminino (o da pré-adolescente entregue a um casamento não desejado por ela) e que seria uma reflexão sobre o patriarcalismo na sociedade brasileira. Mas, à medida que as críticas iam de avolumando, acabou tomada por certa perplexidade. No final, admitiu que, depois de tão contundente debate, não faria mais o mesmo filme. Tudo indica que a cineasta compreendeu a complexidade do terreno minado em que se envolveu. No Brasil de 2017, não basta, pelo menos em filmes que abordam a questão afro-brasileira (em especial a escravidão) assumir-se como progressista por defender o olhar feminino. (…)

VAZANTE, “UM SINHÁ

MOÇA OSTENTAÇÃO”?????

VENCEDORES DO FEST
BRASILIA 50 (REVISTA DE CINEMA)
Maria do Rosário Caetano

(…) — Além dos 4 trofeus Candango ao vencedor “Arabia”