*****CINECEARÁ 2017
NOITE DOS TROFEUS MUCURIPE + ÚLTIMOS DIAS EM HAVANA + PATRICIO WOOD + JORGE MARTÍNEZ + FILMES SOBRE O PARQUE COCÓ.
*****Nas fotos abaixo, os atores cubanos Jorge Martínez, de barba, e Patrício Wood, protagonistas de “Últimos Dias em Havana”, e a distribuidora Ana Luíza Beraba, da Esfera, que lançará o longa cubano no dia 24 de agosto.

CINECEARÁ 2017 — Termina na noite de hoje, sexta-feira, 11 de agosto, a vigésima-sétima edição do Festival de Cinema Ibero-Americano de Fortaleza, com entrega dos troféus Mucuripe aos melhores filmes, homenagem ao cinema chileno e exibição de “Botão de Pérola”, belo documentário de Patrício Guzmán, o maior dos documentaristas chilenos.
Ontem à noite foi exibido o sétimo e último concorrente a melhor longa-metragem, o cubano “Últimos Dias em Havana”, de Fernando Pérez, representado no festival brasileiro por seus dois protagonistas, os atores Patricio Wood e Jorge Martínez. Foram exibidos, também, os três últimos dos 14 concorrentes ao Trofeu Mucuripe de melhor curta-metragem: o pernambucano “Simbiose”, de Júlia Morim, o cearense “A Balada do Sr. Watson”, de Firmino Holanda, e o paulista “Festejo Muito Pessoal”, de Carlos Adriano.
“Último Dias em Havana” — que chegará aos cinemas brasileiros dia 24 próximo, com lançamento da Esfera — iniciou sua carreira no Festival em Havana, em dezembro passado, e conquistou o Prêmio Especial do Juri. Depois, foi aos festivais de Berlim, Málaga, Guadalajara e às competições latinas de Nova York e Miami. Em breve participará do Festival de Viña del Mar, no Chile, que chega, em setembro próximo, à sua quinquagésima edição.
Os produtores espanhóis do filme pediram a Fernando Pérez que realizasse uma espécie de “Morango e Chocolate”, o clássico de Alea & Tabío, protagonizado por Jorge Perugorría & Vladimir Cruz, vinte anos depois. Afinal, o que teria acontecido aos protagonistas, passadas duas décadas, em sua Havana natal?

Fernando Pérez aceitou, em parte, a sugestão. Recebeu, do escritor Abel Rodríguez, cinco histórias que poderiam virar filme. Escolheu uma delas e escreveu o roteiro em parceria com o próprio ficcionista. O resultado é um longa-metragem de grande potência criativa, que narra a tensa, mas solidária, amizade entre dois moradores de um cortiço vertical em Centro Habana, bairro pobre da capital caribenha. Diego é um homossexual, que padece os males advindos da Aids, e Miguel, um lavador de pratos em restaurante habanero, que aguarda um visto para imigrar para os EUA. Diego, apesar da Aids, é dono de humor cortante e um amante da vida. Já Miguel é introspectivo, amargurado, de poucas falas e demonstrações de afeto. Mesmo assim, e apesar de todas as adversidades, os dois, que se conhecem desde dos tempos de escola, se ajudam como podem.
“Últimos Dias em Havana” é tido como um dos favoritos a conquistar, na noite de hoje, o Trofeu Mucuripe de melhor longa-metragem. Seu grande rival é o chileno “Uma Mulher Fantástica”, protagonizado pela transexual Daniela Vega. Este filme ganhou o Urso de Prata de melhor roteiro em Berlim (e o Teddy de melhor filme de temática homoafetiva). Dois outros filmes protagonizados por personagens homossexuais — o cubano “Santa y Andrés”, de Carlos Lechuga, e “Nadie nos Mira” (Ninguém nos Observa), da argentina Julia Solomonoff — também estão no páreo. As chances do candidato dominicano (“El Hombre Que Cuida” — O Caseiro) são menores. E a dos dois representantes brasileiros — o longa gaúcho-carioca “Pedro Sob a Cama”, de Paulo Pons, realizado com apenas R$150 mil, e a superprodução paulista “Malasartes e o Duelo com a Morte”, de Paulo Morelli, que custou R$13 milhões — são menores ainda.
A categoria mais disputada no CineCeará é a de melhor ator. Os dois protagonistas de “Últimos Dias em Havana” são formidáveis. O trabalho do argentino Guillermo Pfening, de “Nadie nos Mira” (ele interpreta ator gay que vai tentar sorte nos EUA) também é notável. Resta conjecturar sobre a opção do juri ao definir o espaço da transesual Daniela Vega. A professora Dora Mourão, a cineasta Isabel Martínez, o ex-ministro da Cultura do Peru, Luis Peirano, o crítico chileno Ernesto Garratt e o engenheiro de som e produtor venezuelano Victor Luckert, os jurados, avaliaram a protagonista de “Uma Mulher Fantástica” como candidata a melhor ator ou melhor atriz?
No páreo de melhor interpretação masculina estão, também, os brasileiros Jesuíta Barbosa (o Pedro Malasartes), Fernando Alves Pinto (o pai de Pedro, o menino que se esconde sob a cama), o cubano Eduardo Martínez (o escritor homossexual de Santa y Andrés) e o dominicano Héctor Aníbal, o caseiro de “El Hombre Que Cuida”.
Se Daniela Vega for colocada como candidata a melhor atriz, ela terá como concorrente mais forte a cubana Lola Amores (a Santa). E, correndo por fora, com poucas chances, estão as brasileiras Isis Valverde, de Malasartes, e Fernanda Thuran, de “Pedro Sob a Cama”. O CineCeará não premia atrizes e atores coadjuvantes. Um prêmio parece ter endereço certo: o de melhor fotografia para o cubano Raúl Pérez Ureta (seu trabalho em “Últimos Dias de Havana” não tem concorrente à altura).
As decisões do juri de curta-metragem são imprevisíveis. Não houve um curta que se sobressaísse a ponto de assumir grande vantagem sobre os outros. A seleção foi instigante. Os 14 selecionados disputam apenas quatro trofeus Mucuripe: melhor curta, diretor e roteiro e melhor curta cearense (cinco dos 14 concorrentes foram realizados em Fortaleza ou no interior do Estado). A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) atribuirá prêmio ao melhor longa e ao melhor curta.
Na noite de hoje, haverá um eleito especial: o “melhor curtíssimo” sobre o Parque Cocó. O concurso, que tem cinco concorrentes, é uma promoção da Oi Futuro. Todos os filmes deveriam ser feitos com câmeras de celulares e grande poder de síntese. O público do CineCeará vibrou com todos os candidatos, pois o que viam na tela eram registros das belezas e desafios deste imenso parque urbano, ameaçado, até poucos anos atrás, por imenso viaduto e pela especulação imobiliária. Depois de intensa mobilização popular, o Cocó foi integralmente preservado e está recebendo melhorias dos gestores públicos. Ganhará, em breve, plano de manejo e propostas de arquitetos para sua revitalização. Em Fortaleza, as palavras Cocó e xodó são sinônimas. O melhor “curtíssimo” sobre o parque, situado no bairro do Mucuripe, ganhará prêmio em dinheiro no valor de R$3 mil.

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