Carlos Ovando, da Cinemateca da Universidade do Chile, a mediadora Laura Bezerra, da UFRB, a mexicana Tzutzumatzin Soto, da Cinemateca Nacional do México, e Andrés Levinson, do Museu do Cinema de Buenos Aires.

 

CINEOP 2017 — BREVE BALANÇO DA MOSTRA DE
CINEMA DE OURO PRETO (ANO XII), POR RÔ CAETANO

CINEOP 2017 –
MOSTRA DE CINEMA
DE OURO PRETO:
BREVE BALANÇO

Amigos:
Seguem notas com breve balanço da décima-terceira edição da CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto-MG). Algumas notas são inéditas e outras estão no Blog Almanakito. Três matérias estão na Revista de Cinema (digital). Endereços nesta remessa:

***CINEMATECA NACIONAL DO MÉXICO
— Um dos espaços reflexivos da CineOP mobilizou representantes de três cinematecas (ou museus de cinema) latino-americanos. Tzutzumatzin Soto foi a representante da poderosa cinemateca mexicana e roubou atenções com seu bom humor, explanação e respostas claras. Carlos Ovando representou a Cinemateca da Universidade do Chile, e Andrés Levinson, o Museu do Cinema de Buenos Aires. Ovando foi modesto. Disse que o Chile não tem Ministério da Cultura (esperam que seja criado até o fim do governo Bachelar) e que na área da preservação e restauração, contam com colaboração vital da Cinemateca do México. Brincando, contou que chilenos chegam a entrar, de forma clandestina (risos), em aviões de carreira com material altamente inflamável (fitas em nitrato) para levar (e salvar) ao terrritório mexicano raridades do cinema chileno. Andrés, o argentino, fez uma sofisticada reflexão (com citações a Borges, Hobsbawn, Derrida, etc) sobre memória e restauro, questionando a recuperação digital de filmes criados no suporte película. Para ele, “são feitas verdadeiras cirurgias estéticas — ilustradas com imagens de Angelina Jolie e Silvester Stallone, ambos com os rostos cheios de botox — que produzem espanto. Seriam aberrações, pois mostram filmes com 100 anos de idade como se fossem novíssimos, feitos hoje, sem nenhuma marca. Citou o caso do restauro de “A História Oficial”, de Luiz Puenzo, realizado há 32 anos, que o diretor quis restaurar com as mais sofisticadas tecnologias de hoje. E mais: o argentino acusou o projeto italiano Il Cinema Ritrovato de empresa disposta a atrair clientes, aqueles que sempre têm razão, recuperando filmes na base do “vamos melhorar o original”. Mostrou slide da Vênus de Milo, sem os braços. E com braços postiços. “Por que vamos colocar braços nela?”, indagou. Tzutzumatzin Soto, da Cinemateca Mexicana, lembrou que seu país, sempre que tem sua imagem internacional arranhada, investe em grandes projetos culturais. Com a guerra dos narcos, a imagem do país estava péssima. O que fez o Governo Calderón, em seus últimos momentos? Usou a Lei do Patrimônio Histórico e Arqueológico para implementar espaços culturais como a Biblioteca Nacional, a Cinemateca e Museus. Hoje, quem for ao bairro de Coyoacan, na capital azteca, vai deparar-se com magnífica cinemateca, composta com quatro bóvedas refrigeradas para preservação de filmes, 10 (dez) salas de exibição, restaurante, cafés, biblioteca e livrarias, imensos jardins e um gigantesco estacionamento de muitos andares. Este complexo arquitetônico recebe 1,5 milhão de visitantes por ano. Criada há 42 anos, a Cinemateca do México teve três sedes, sofreu um terrível incêndio e preserva 17 mil títulos (80 mil rolos). Tem salas de exposição de cartazes e trofeus de seus artistas e uma base de dados com 47 mil exemplares em livros, revistas, DVDs, etc. Só na Videoteca Carlos Monsivais recebe 5 mil usuários por ano. “Tzu” se definiu como “uma amante de tecnologias obsoletas” (risos) e descreveu projetos e desafios de uma instituição como a que a tem na função de chefe do Departamento de Acervo Videográfico e Iconográfico. Lembrou que o México assina “todos os tratados culturais que surjam em foruns diplomáticos”. Da Unesco-ONU, então, está sempre entre os primeiros signatários. Meu país — agregou — aposta na cidadania digital. Não escondeu as dificuldades do setor e enalteceu a participação de jovens estagiários na Cinemateca. As leis mexicanas obrigam jovens formandos a prestar seis meses de trabalho gratuito, durante quatro horas diárias, a instituições ligadas à sua área de formação. A turma das áreas de Arquitetura e Urbanismo tem prestado grandes serviços aos arquivos da Cinemateca Nacional. “Tzu” contou que a gigantesca instituição fílmica mexicana (capaz de deixar nossa Cinemateca Brasileira nas sombras) é mantida com dinheiros públicos e graças aos recursos oriundos do imenso estacionamento, do aluguel do restaurante, bares, livrarias, etc, que abriga. Um dos desafios da instituição, lembrou, é cuidar de acervos domésticos (filmes amadores, produzidos em aniversários, bodas e demais festas familiares), que começam a chegar…

***JOEL YAMAJI – Durante a CineOP, a montadora Cristina Amaral, homenageada junto com o projeto Vídeo das Aldeias e com o dicionarista Antônio Leão, sempre que podia, citava o nome de Joel Yamaji em suas falas públicas. Já vi o nome de Joel infinitas vezes em créditos de filmes e atividades da ECA-USP. Pois ele é técnico da Escola uspiana e diretor de vários curtas: “O Espectador que o Cinema Esqueceu” (1991), “Impressões para Clara” (1998), “Flores para os Mortos” e “Nunca me Deixe Deixe Dormir Demais” (ambos de 1999), “A Ira” (2003), “Cartas de Ourinhos” (2014), entre outros. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, ele atuou no Núcleo de Realização do Senac-SP. E foi um dos colaboradores da revista Cineolho, feita por alunos da USP, entre 1978-1980 (ao lado de Fernando Meirelles, Arlindo Machado, Fernando Mesquita, José Roberto Sadek, Rubens Machado, etc). Joel Yamaji me contou, em Ouro Preto, que não tem nenhum laço de parentesco com Fábio Yamaji, diretor do delicioso curta animado (e documental) “Divino de Repente”, vencedor (sob aplausos calorosos) do CineCeará. Mas os dois são vivas contribuições nipo-brasileiras ao nosso cinema.

*** O FOTÓGRAFO DE DIAMANTINA – O novo filme documentário de Jorge Bodanzky, produzido pelo IMS (Instituto Moreira Salles), com texto de Dorrit Harazin, chama-se “Photo Assis: O Clique Único de Assis Horta”. Ao longo de 24 minutos, Bodanzky revisita o fotógrafo diamantinense Assis Horta, que já se aproxima dos cem anos. Lúcido, ele relembra sua trajetória, mostra chapas de vidro com imagens de trabalhadores (Lei da Era Vargas, que criou a carteira de trabalho obrigatória, gerou retratos 3×4 de milhões de brasileiros) e nos encanta e espanta com inacreditável panorâmica da cidade de Diamantina (quero rever o filme ao lado de Bodanzy, para que ele me ajude a entender esta foto-prodígio). Marília Santos, companheira do saudoso Roberto Santos, me contou que Assis Horta trabalhou com o cineasta paulistano no filme “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, vencedor da primeira edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1965. O filme “Photo Assis” foi exibido no Cine Praça, em Ouro Preto, para plateia atenta e interessada.

*** CINEBIOGRAVURA, MAGISTÉRIO E ALINOR AZEVEDO – O cineasta, professor e pesquisador Luís Alberto Rocha Melo apresentou, na CineOP, seu novo curta: “Cinebiogravura” (ensaio sobre a obra de seu pai, escritor de contos). E participou de ótima mesa, ao lado de João Luiz Vieira e Hernani Heffner, com moderação de Lila Foster, que debateu o tema “O Passado e o Presente: Uma Perspectiva Histórica e Política do Olhar”. Vieira, que é professor da UFF, projetou e analisou hilários trechos de chanchadas protagonizadas por Ninon Sevilla, Maria Antonieta Pons e, claro, Oscarito (visto em cena travestido em “rumbeira”), para mostrar que houve um tempo em que o cinema brasileiro dialogou para valer com o cinema de países hispano-americanos. O público se deliciou. Hernani Heffner, também curador-adjunto da Cinemateca do MAM, e Luís Alberto falaram da dificuldade, em seus ofícios como professores, de mudar a abordagem histórica, hegemônica no ensino do cinema brasileiro. Instituições universitárias exigem o cumprimento do currículo pré-estabelecido e se mostram arredias a novas posturas. Luís Alberto, que é professor da UFJF (Juiz de Fora-MG), contou que vem buscando, com alunos, estudar filmes que despertem realmente interesse. Ficou surpreso ao deparar-se com o imenso interesse deles por “O Canto do Mar”, produção pernambucana de Alberto Cavalcanti. Contou, também, que temas como o papel da mulher nas narrativas fílmicas, a questão do negro e a produção fora do eixo Rio-São Paulo são muito mobilizadores. O professor-cineasta que já realizou vários curtas (entre eles “Que Cavação É Essa?”, 2008) e três longas (“Legião Estrangeira”, “Nenhuma Fórmula para a Contemporânea Visão do Mundo” e “O Homem e Seu Pecado”) está colocando os arremates finais nos originais de seu próximo livro, dedicado na íntegra ao fundador da Atlântica Cinematográfica e roteirista Alinor Azevedo (1914–1974). Alinor foi tema de sua dissertação de mestrado, defendida na UFF. Sua tese de doutorado estudou “O Cinema Independente Carioca dos Anos 1950”. Luís Alberto é pesquisador-titular do Instituto Alex Viany, comandado pela atriz Betina Viany.

 

 

* CINEMA NO CONDE (PB)– A cineasta Ana Bárbara Ramos, autora de delicioso (e questionador) curta sobre a Roliúde Nordestina, plantada na Paraíba (“Cabaceiras”, 2007) participou ativamente das atividades do núcleo dedicado à Educação, na CineOP. Atualmente, ela trabalha com Cinema e Educação de Crianças e Jovens, em projeto (“Semente Cinematográfica – Inventar com as Diferenças”) da Prefeitura de Conde, município de 24 mil habitantes, localizado (e banhado por belas praias) na Grande João Pessoa. O projeto, em sua fase dois, planeja criar Escola Experimental de Cinema na comunidade quilombola do Gurugi-Ipiranga. A prefeita do município é Márcia Lucena, ex-secretária de Educação da Paraíba (e mulher do ator Nanego Lira, do clã que congrega Buda, Bertrand e Soya Lira, artífices, junto com Luiz Carlos Vasconcelos, Everaldo Pontes, Zezita Matos e Marcela Cartaxo, do melhor teatro e cinema paraibanos). Além de Ana Bárbara, o trabalho audiovisual da Prefeitura de Conde conta, também, com os préstimos do cineasta e diretor de fotografia Bruno de Sales.

**ORQUESTRA DE OURO BRANCO,
na Casa da Ópera – A agenda pesada de debates e múltiplas sessões de filmes na CineOP —- (mais o subir-e-descer de ladeiras ouro-pretanas e os deliciosos almoços: os meus, todos no Chafariz e só com frango com quiabo, angu, mandioca e banana da terra, prato de minha infância coromandelense) —- levam os mais caxias à exaustão. Mesmo assim, este ano, conseguimos, além de visitar a Casa dos Mello Franco de Andrade, na Rua Direita (ciceroneados pela cineasta Alice de Andrade), visitar o Museu dos Oratórios e assistir a um Concerto da Orquestra de Ouro Branco, município hoje autônomo, mas que já fez parte de Ouro Preto, a antiga Vila Rica. Já visitara a Casa da Ópera, construída nos anos 1700, mas não havia programação. Desta vez, foi uma delícia. O maestro da Orquestra, muito do bem humorado, teceu elogios a Dvórak e Bártok, bases do programa do concerto, encerrado com o argentino Astor Piazzolla. Disse que este compositor gostava tanto de Bártok (amigos entenderam Bach!, será que ouvi mal???), que colocava partituras dele debaixo do travesseiro, para que o inspirassem. E arrematava: não sei se isto é verdade, mas assim me contaram!!! (e sorria, para deleite do público). O público gostou tanto do concerto, que esperou o bis.

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