*****CINEOP 2017 (ANO XII) — FILME CONTA HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DA ECA-USP COM TESTEMUNHOS DE PROFESSORES E EX-ALUNOS + HOJE TEM FILME DE JORGE BODANZKY NO CINE PRAÇA + NESTA MANHÃ, DEBATE COM CURADORES DE MEMÓRIAS DE CINEMATECAS DO MÉXICO, ARGENTINA E CHILE + AMANHÃ SEGUNDA-FEIRA, VINCENT CARELLI PARTICIPA DA MESA-REDONDA “EMERGÊNCIAS AMERÍNDIAS” + VIDEO NAS ALDEIAS: 30 ANOS

CINEOP 2017 (ANO XII) — FILME
CONTA HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DA
ECA-USP COM TESTEMUNHOS DE PROFESSORES E EX-ALUNOS

CINEOP 2017 (ANO XII) — PAULO EMILIO E A ECA-USP — No final da tarde de ontem, 24 de junho, o público da Mostra de Cinema de Ouro Preto teve uma boa surpresa: o documentário “Escola de Cinema”, de Ângelo Ravazi (foto). Se o nome do longa-metragem não é dos mais inspiradores, a ideia que norteou o filme o é: “Entre a ressaca do Cinema Novo e o recrudescimento do regime militar brasileiro surge uma escola de cinema”. No caso, a ECA-USP (Escola de Cinema e Artes da Universidade de São Paulo). Criada em 1967, a  EScola tinha tudo para ser uma instituição formadora de quadros para a ditadura nas áreas do Jornalismo, Publicidade e Cinema. Afinal, entre seus mentores estava Gama e Silva, reitor da USP, mais tarde ocupante do Ministério da Justiça do Marechal Costa e Silva e, nunca é demais lembrar, principal redator do AI-5. Mas, a ECA teria em três nomes profundamente ligados à esquerda (Paulo Emilio Salles Gomes, Jean-Claude Bernardet e Rudá de Andrade) seus reais e efetivos mentores. Bernardet, o mais bem-humorado e irônico dos professores e/ou ex-alunos a dar seus testemunhos sobre a nova (e agora cinquentenária) escola, lembra que Emilio e Rudá eram filhos de famílias “quatrocentonas” (Rudá, dos escritores modernistas Oswald de Andrade e Pagu) e ele, Bernardet, “um ninguém”.

Paulo Emilio e Bernardet vinham de frustrada experiência na pioneira escola de cinema da UnB (Universidade de Brasília), destruída pelos militares. E, na avaliação de Bernardet, destruída também por polêmica ideia de demissão coletiva de centenas de professores. O líder do movimento, o físico Roberto Salmeron, acreditava que as demissões seriam revertidas, pois o apoio decisivo da Unesco, braço da ONU para a Ciência e a Cultura, aos demissionários faria o governo ditatorial recuar. O Governo Militar não recuou, a UnB perdeu mais de 300 professores e viu seu ousado curso de Cinema desaparecer. Na ocasião, Bernardet estava a ponto de defender tese sobre o cinema brasileiro de então, origem de seu importante livro “Brasil Em Tempo de Cinema”. Com o desmantelamento da escola, Paulo Emilio sugeriu que ele defendesse seu trabalho em sessão pública e improvisada (sem seguir os tradicionais trâmites acadêmicos) para não colocar todos seus esforços a perder. Sempre com ironia, Bernardet constata que um cinemanovista, Paulo Cezar Saraceni (Porto das Caixas, O Desafio), leu os originais da tese (que mostrava o Cinema Novo como um conjunto de filmes feitos por jovens de classe média que falavam em nome do povo) e não gostou.

O filme ESCOLA DE CINEMA conta com ótimos depoimentos dos professores (e muitos deles, ex-alunos) Maria Rita Galvão, Dora Mourão, Ismail Xavier, Carlos Augusto Calil, do pesquisador Carlos Roberto Souza e dos cineastas (e ex-alunos) André Klotzel e Alain Fresnot). André e Alain relembram o estímulo de Paulo Emílio para que fossem fazer cinema na Boca do Lixo, berço da pornochanchada. Se era lá que o cinema paulista era prática diária, que lá eles se exercitassem. Paulo Emílio (e, de certa forma, Antonio Candido) é, merecidamente, a alma do filme de Ravazi.

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