*********OLHAR DE CINEMA 2017 (VI FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA) — “Rey”, segundo longa-metragem do chileno Niles Atallah, é um dos onze filmes que disputam o prêmio principal do Olhar de Cinema. O diretor, que é também cidadão norte-americano, injeta altas doses de criatividade em filme que poderia ser mais um drama histórico sobre visionários europeus interessados em dominar territórios ameríndios. O ponto de partida de “Rey” é a chegada do advogado francês Orélie-Antoine de Tounens (1825-1878) ao Chile. Ele deixou seus país movido por projeto ambicioso: tornar-se o “Rei da Araucanía e Patagônia”. O aventureiro e explorador francês desembarcou, aos 35 anos, em Valparaíso, aprendeu a falar espanhol, uniu-se a dois comerciantes franceses (Lachaise e Desfontaines) e empreendeu a primeira de suas expedições rumo à Araucanía. Outra viria, a seguir. Estreitou contato com índios, os Mapuche, em especial, e começou a planejar seu reino, uma colônia francesa no Novo Mundo. Seu plano era unificar várias etnias, sob seu comando, de forma que não pudessem ser derrotados pelo Exército chileno. Niles Atallah, que faz um cinema muito ligado às artes plásticas, não está interessado em reconstituições de época, nem em batalhas. Usando técnicas diversas, algumas tributárias do Primeiro Cinema, constrói história mais ligada aos desejos e alucinações, que a narrativas de livros didáticos. Até porque há muitas lacunas sobre a passagem do explorador francês pelo Chile do Século XIX. Em diálogo revelador, Orélie-Antoine conversa com Gonzalez, seu guia. Este lembra ao francês que o território onde pretende erguer seu reino já tem dono. Ou seja, pertence ao Chile. O aventureiro olha o vazio em volta e pergunta: e onde estão os chilenos? “Rey” ganhou Prêmio Especial do Juri no Festival de Roterdã, no início deste ano, por seus “excepcionais resultados artísticos”. O festival holandês reconheceu que, mais que construir um épico da conquista, o realizador investiu sua criatividade em narrativa livre, às vezes febril e onírica. Reelaborou materiais de arquivo e promoveu interferências (riscos, efeitos de celulóide em combustão e colorização lúdica) até sobre as imagens produzidas por seu hábil fotógrafo, Benjamin Echazarreta. No começo do filme, a aparição de seres que ostentam imensas cabeças animais cenográficas causam estranhamento. Depois, estas figuras integram-se organicamente à narrativa e ganham relevo, em especial, nos bonecos humanos que comandam o julgamento do aventureiro francês. Não há nada mais próximo de uma função teatral que um julgamento encenado pelo poder judiciário. Ou há? “Rey” é o penúltimo longa da principal competição do Olhar de Cinema. O décimo-primeiro, e último, concorrente, o brasileiro “Fernando”, de Igor Angelkorte, Júlia Ariani e Paula Vilela, será exibido hoje, 13 de junho.

JURI OFICIAL — O juri, formado com Maria José Santacreu, diretora da Cinemateca Uruguaia e do Festival de Cinema de Montevideo, o canadense Philippe Gajan, do Festival du Nouveau Cinéma, de Montreal, e o cineasta brasileiro Guto Parente, do Coletivo Alumbramento, dispõe de rica matéria crítica para avaliar. Os prêmios serão entregues nesta quarta-feira, 14 de junho, no Espaço Itaú de Cinema curitibano, e seguidos da exibição de “Baronesa”, de Juliana Antunes, premiado na Mostra de Tiradentes. Ao longo do dia, o Olhar de Cinema exibirá mais uma maratona de filmes que compõem sua variada programação. Dos homenageados Anocha Suwichakornpong, da Tailândia, e Ignacio Agüero, do Chile, serão exibidos um programa de curtas (dela) e o longa-metragem “O Que Me Motiva II” (dele); em Exibições Especiais, um programa com filmes de Jean-Marie Straub; no Outros Olhares, o longa “Meu Corpo é Político”, de Alice Riff; nos Olhares Clássicos, mais uma sessão de “Conversas do Maranhão”, de Andrea Tonacci. E no Olhar Retrospectivo (Murnau), mais um filme do genial cineasta alemão: “Tartufo”, produção de 1925, na qual um jovem mostra a seu avô milionário, um filme baseado no “Tartufo”, de Molière. Sua intenção é expor a hipócrita gestão do velho homem, que escondia sua própria herança.

MURNAU E THEA VON HARBOU — A retrospectiva F.W. Murnau é um dos maiores sucessos do festival curitibano. Muitos filmes são aplaudidos ao final e sessões que começam às duas da tarde têm ótima plateia. Aliás, o curador da Mostra Murnau, Aaaron Cutler, esclarece que nem chegou a procurar a Fox para alugar cópia de “O Pão Nosso de Cada Dia”, uma das duas ausências da retrospectiva (a outra é “O Campo Ardente”). Afinal, “quando se decidiu que a Retrospectiva seria feita em DCP, deixamos de lado os dois filmes só disponíveis em cópias em 35 milímetros, caso do longa do acervo da Fox”. Cutler contou, também, que “O Pão Nosso de Cada Dia” (City Girl, ou Garota da Cidade) é “uma espécie de continuação de AURORA”. Só não conseguiu a consagração póstuma do filme que o precedeu e que tinha em Truffaut seu mais dedicado admirador. Aaron Cutler, pesquisador apaixonado pela obra de Murnau, abordou outro tema do texto que escrevi sobre a Retrospectiva: a colaboração da escritora e roteirista Thea Von Harbou com o cineasta alemão. Ela tem seu nome nos créditos de quatro filmes de Murnau. Depois, ao casar-se com Fritz Lang, Thea se tornaria colaboradora assídua do marido. Sobre a adesão dela ao nazismo, Cutler levantou hipótese apaziguadora: “sendo o terceiro marido dela — o primeiro foi o ator Friedrich Rudolf Klein, o segundo, Lang — de origem indiana, será que ela não buscou, ao filiar-se ao Partido Nazista, protegê-lo?)”.

CARTAZ E IMAGENS DE FILMES DE NILES ATALLAH — Nas imagens abaixo, o cartaz do longa-metragem REY, décimo concorrente da principal mostra do Olhar de Cinema, seguido por fotograma de “Luis” (curta) e de “Lucia” (longa), realizações do diretor chileno-estadunidense.

Enviado do Ipad de Rosário

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