*******OLHAR DE CINEMA 2017 (VI FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA) — Três novos filmes — “Navios de Terra”, da brasileira Simone Cortezão, “Soldado”, do argentino Manuel Abramovich, e “El Mar La Mar”, do estadunidense Joshua Bonetta e do canadense J.P. Sniadecki — foram apresentados na mostra competitiva do Olhar de Cinema, no domingo, 11 de junho. “Navios” é definido pelo festival como um híbrido. Ou um filme de fluxo. Mas Simone, estreante no longa-metragem, vê seu filme, protagonizado pelo ator Rômulo Braga, como “uma alegoria, uma meditação sobre paisagens produtivas, lugares violados, roubados”. No caso, as Minas Gerais do Vale do Aço, onde montanhas são devoradas para alimentar a indústria siderúrgica brasileira e, também, a estrangeira. Chinesa e japonesa, em especial. “Navios de Terra” é a segunda parte de trilogia iniciada com o média-metragem “Subsolo” (2013) e que será concluída com o longa “Terras Remotas”, em fase de preparação. Simone, artista visual e doutora em Artes pela UERJ, encontrava-se em pleno processo de criação (e filmagem) de “Navios de Terra”, quando deu-se o brutal acidente da Samarco, em Mariana. Ela inseriu registros de reportagem telejornalística na ambiência do filme. O desastre, com suas águas barrentas, é captado em um televisor instalado no principal cenário da narrativa, um imenso navio que leva minério de ferro do Brasil para a China. Os marinheiros comentam o que vêem. Mas a realizadora não inseriu tal material no corpo de seu filme. “Não me interessava”– contou no debate do Olhar de Cinema — “trabalhar imagens já vistas”. Inconformada, Simone Cortezão lembrou que acidentes semelhantes ao da Samarco “acontecem com frequência assustadora” e só não ganham espaço na mídia, porque os resíduos tóxicos e as camadas de lama “não chegaram a um grande rio, como neste caso”. O filme da cineasta, nascida na região do Vale do Aço, coloca o ator Rômulo Braga, na pele de um marinheiro, em diálogos interativos com outros marinheiros. Entregue com devoção ao papel, ele e os outros embarcados nos transportam para dentro do navio. Deles ouvimos histórias de grandes e monótonas travessias, vez ou outra perturbadas por pequenas ou grandes tragédias: a morte de um marinheiro, que acabará “enterrado” no mar, pois não há como impedir o apodrecimento do corpo, ou ataques de piratas contemporâneos nas costas da África. A beleza das imagens (assinadas por Matheus Antunes) nos conduz à fruição deste filme que fala aos sentidos e nos chama à reflexão sobre estes “lugares de desmonte”. Simone enfatizou que ocupa-se com afinco de questões que envolvem a economia, a matemática, dos negócios do extrativismo. Depois de registrar o desmonte de tantas montanhas das Minas Gerais e aproximá-las da China, a realizadora e sua compacta equipe pretendem realizar novas alegorias que nos levem à Sibéria e ao Butão. O primeiro longa da realizadora participou da mostra Visions du Réel, na Suíça. *****”El Mar La Mar”, documentário experimental vindo dos EUA, se propõe como “poema épico” sobre a fratura nas relações entre o México e seu poderoso vizinho do Norte. Imagens quase abstratas só ganharão concretude aos nossos olhos (e ouvidos) mais tarde, quando o espectador somar depoimentos vindos de rostos invisíveis, a maioria em inglês e alguns em espanhol. Vestígios deixados por imigrantes clandestinos nas areias do Deserto de Sonora nos conduzirão, então, ao “mar” que dá título ao filme. Um “mar” que devora muitos dos que tentam atravessá-lo, matando-os, especialmente, de sede. Voz calma de um morador das cercanias contará que certo dia, deparou-se com um “atravessante” que trazia numa garrafa um líquido amarelo. Era a própria urina daquele homem, misturada com limão, que ele ingeria para não morrer de sede. Um poema de Soror Juana de la Cruz, do século XVII, fechará a saga de “El Mar La Mar”. Nas imagens, captadas em 16 milímetros, uma escura e tenebrosa tormenta encerrará a “épica” travessia que tem deixado tantas vítimas pelo arenoso caminho. ***** O terceiro e último dos concorrentes do domingo é um documentário observacional, vindo da Argentina. O fotógrafo Manuel Abramovich, em seu segundo longa-metragem como diretor (ele também assina a fotografia e o roteiro), penetra no espaço de recrutamento e preparação de novos soldados pelo Exército Argentino. No início, nos deparamos com jovens que se alistam em busca de “um emprego” ou mesmo para “satisfazer a mãe”. A rigidez disciplinar, às vezes maníaca, do mundo castrense ganha relevo na sequência em que um recruta mostra ao outro, aprendiz, o ritual de preparação da cama-beliche. Os lençóis, em tais dias, devem seguir determinado desenho. E há variação para outros tais dias. Depois, a câmara vai deter-se sobre um dos jovens, que integrará a banda militar. O filme assumirá, então, outro tom, e perderá a dimensão crítica que o iniciara.

Enviado do Ipad de Rosário

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