OLHAR DE CINEMA HOMENAGEIA IGNACIO AGÜERO, UM DOS MAIORES DOCUMENTARISTAS DO CHILE. ELE PROTAGONIZOU E CORROTEIRIZOU
“O VENTO SABE QUE VOLTO PARA CASA”, VENCEDOR DO
FESTIVAL CURITIBANO 2016.

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**OLHAR DE CINEMA 2017 (FESTIVAL

INTERNACIONAL DE CURITIBA) — Ano passado, um filme chileno — “El Viento Sabe que Vuelvo a Casa” (O Vento Sabe Que Volto para Casa), de José Luis Torres Leiva — causou sensação no Olhar de Cinema. E foi escolhido como o melhor longa-metragem da competição. O filme sequenciaria sua vitoriosa trajetória por novos festivais, passaria por outras mostras brasileiras (inclusive no Ecofalante) e ocuparia seu espaço nos Prêmios Platino. E por que evocá-lo, se ele agora faz parte da história do Olhar de Cinema? Por razão muito concreta: seu corroteirista e “protagonista”, o cineasta IGNACIO AGÜERO (em foto apressada, que fiz antes de sua aula magna no Espaço Itaú) é um dos principais homenageados desta sexta edição do Festival curitibano. Ele e a tailandesa Anocha Suwichakornpong, conterrânea e amiga de Apichatpong Weerasethakul. Pois AGÜERO é um dos mais importantes nomes do documentário chileno. Nunca é demais lembrar que o país andino tem em um documentarista (Patricio Guzmán) sua figura cinematográfica mais estelar. Dois de seus filmes (“A Batalha do Chile” e “Nostalgia da Luz” ) integram a Lista de 50 Maiores Documentários de Todos os Tempos, elaborada recentemente pelo BFI (Instituto Britânico de Filmes).

Hoje com 65 anos, o corroteirista e “protagonista” de “O Vento Sabe Que Volto para Casa” guarda em suas estantes uma série de importantes prêmios. Inclusive o Coral de melhor documentário para “Cien Niños Esperando un Tren”, no Festival de Havana, em 1988. O prêmio foi duplicado pela Fipresci (Crítica Internacional), que também o laureou no mesmo festival cubano. O filme, de 56 minutos, tem o cinema, paixão de vida e temática do realizador chileno, como razão de ser. Uma professora, Alice Vega, realiza oficinas de cinema, ao longo de vinte sábados, com crianças pobres da periferia de Santiago, capital do Chile. Os moleques nunca tinham visto um filme numa sala de cinema e mal conheciam a região central e rica de sua cidade. Com as aulas da professora Alice, eles puderam vivenciar experiência inesquecível: construir, com as próprias mãos, instrumentos que, nove décadas antes, levaram à invenção do cinema (o zootropo, o taumatropo). Aprendem também a realizar um travelling com um carrinho improvisado e um pequeno filme desenhando fotogramas de papel. Os meninos irão, também, assistir a um filme no cinema. E nunca é demais lembrar que o título escolhido por Agüero evoca as origens do cinema, quando um trem em movimento assustou espectadores assombrados pela nova invenção.

Em 45 anos de carreira, o documentarista chileno assinou 16 filmes, produziu diversos outros e desempenhou, como “ator”, papeis secundários em filmes de Raoul Ruiz e Pablo Perelman. Mas Torres Leiva deu a ele papel de grande “protagonista” em “O vento Sabe que Volto para Casa”. E por que usar aspas ao nos referirmos ao seu maior e mais importantes trabalho frente às câmaras. Porque Ignacio Agüero interpreta a si mesmo (um cineasta que vai às ilhas de Chiloé investigar uma trágica história de amor entre uma nativa e um rapaz ben-nascido, filho de espanhóis). O filme já foi classificado como documentário. Outros, porém, o têm como uma ficção. Melhor então defini-lo como um híbrido. E evocá-lo como o longa-metragem que deu ao grande documentarista chileno, a chance de estar, de novo, no centro das atenções, por ter sido colaborador tão próximo e imprescindível de um jovem cineasta (e admirador). Afinal, Torres Leiva, de 41 anos, conhece todos os filmes do mestre. E fica aqui a sugestão a festivais (quem sabe o CineCeará, que este ano homenageará o Chile, ou ao É Tudo Verdade, ou ao Festival do Cinema Latino-Americano de São Paulo): uma retrospectiva completa de AGÜERO. Nela, dois títulos serão imprescindíveis (ambos exibidos aqui no Olhar de Cinema): “Como me Dá la Gana”(O Que me Motiva), média-metragem de 1985. Passados 25 anos, o cineasta revisitou seu filme e os colegas de oficio que entrevistara, para que juntos refletissem sobre a arte cinematográfica num país de produção periférica. O resultado é o longa-metragem “Como me dá la Gana II” (O Que me Motiva II). AGÜERO dirigiu também filmes e séries para TV. Um deles, sobre o criador do Canto Geral: “Neruda, Todo el Amor”, com roteiro de Antonio Skarmeta. Ah, um de seus filmes mais contundentes — “El Diário Agustín” — aborda a participação do poderoso jornal chileno, El Mercurio, no golpe que derrubou Salvador Allende e encastelou Augusto Pinochet no poder por longos e duros anos.

Enviado do Ipad de Rosário

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