*******OLHAR DE CINEMA — FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE CURITIBA (ANO VI) — Depois do turco “GRANDE GRANDE MUNDO”, outra ótima supresa na mostra competitiva do Olhar de Cinema: o documentário MAQUINAS, do indiano Rahul Jain (na foto com Eduardo Valente, um dos programadores do festival curitibano). O filme registra máquinas e trabalhadores (incluindo adolescentes) que labutam por 12 horas diárias numa imensa tecelagem na província de Gujarat, na Índia. Antes, um detalhe: a Índia é hoje o país mais populoso (1,4 bilhão de habitantes) do mundo. Passou a China (1,2 bilhões). Pois é este imenso país e sua mão de obra farta (um imenso exército de reserva), que vemos no filme. Um gigantesco país que deixa seus filhos (inclusive menores de idade) trabalharem em condições insalubres, por jornadas que, muitas vezes, ultrapassam brutais 12 horas (sim, há trabalhadores migrantes que ainda cumprem um segundo turno, noite adentro). Tudo por um salário reduzido, que só permite aos empregados alimentar suas famílias. Um patrão, porém, dirá, sem constrangimento, que metade de seus trabalhadores prefere “gastar o que recebem em tabaco e álcool”. Rahul, recém-formado em cinema por uma universidade californiana, fez de MAQUINAS seu trabalho de final de curso. Durante três anos, realizou três viagens, de dois meses cada uma, à fábrica têxtil indiana (que nos lembra similares da Inglaterra em plena Revolução Industrial, no Século XIX). Registrou, como silencioso observador, a faina diária dos trabalhadores (dos que colocam carvão para aquecer água nas máquinas de tingimento, aos que imprimem imensos desenhos nos tecidos, passando pelos que vigiam, exaustos pela repetição de gestos, as máquinas para evitar estragos nos panos). E ouviu depoimentos impressionantes. Um trabalhador conta que viaja 1.300 Km de sua província até Gujarat, para trabalhar, por dois turnos, e juntar dinheiro. Dinheiro que usará para custear a viagem, alimentar a família e manter os filhos na escola. Um adolescente justificará sua faina brutal na fábrica com argumento espantoso: a melhor época de aprendizado é a juventude. Tudo que se aprende na adolescência resultará melhor do que o aprendido na maturidade. Na mais bela cena do filme, veremos um adolescente vigiando a máquina para que ela não engula o tecido. De tanto repetir o mesmo gesto por horas a fio, ele cochila, boceja, bate cabeça, acorda, para voltar ao torpor do sono. Para termos ideia do que é MAQUINAS — o jovem realizador indiano respondeu a dezenas de perguntas da plateia curitibana — vale buscar duas referências nossas: o curta CHAPELEIROS, obra-prima de Adrian Cooper, que registrou o trabalho (anacrônico e estafante) de trabalhadores brasileiros numa fábrica de chapéus de feltro (em Campinas) e os filmes de EDUARDO COUTINHO. Como o mestre de “Santo Forte”, Rahul Jain sabe ouvir. E sabe selecionar seus “narradores”. Não há um depoimento banal no filme. Todos são substantivos e reveladores. Detalhe importante: o jovem indiano contou, no debate, que o livro TRABALHADORES, do brasileiro Sebastião Salgado, foi fonte fundamental de inspiração quando debatia os caminhos a trilhar. O documental MAQUINAS e o ficcional GRANDE GRANDE MUNDO são, até agora, os dois mais fortes candidatos ao prêmio de melhor filme do OLHAR DE CINEMA. O segundo concorrente do dia — CORPO ESTRANGEIRO, da cineasta tunisiana RAJA AMARI — tinha tudo para dar certo. Um tema candente (a imigração do Magreb para a França, por caminhos ilegais), uma atriz maravilhosa (a palestina Hiam Abbas, de Lemon Tree, Free Zone e Paradise Now), o direito da mulher usar seu corpo segundo seus desejos e… o fundamentalismo islâmico. Temas demais para um só filme. Raja Amari acabou apenas roçando a superfície de todos eles.

Enviado do Ipad de Rosário

Anúncios